Parte 4: Como a IA está transformando as redações no mundo

Neste capítulo, mostramos como a IA está transformando o processo de criação de vídeo e áudio, virando uma importante ferramenta para moderação e ajudando empresas a utilizar e monetizar seus arquivos

Atualizado em 02/01/2026 às 07:01, por Lucio Mesquita.

Em um ambiente interno com iluminação amarelada, três pessoas estão sentadas próximas umas das outras, trabalhando em laptops. Ao centro, uma pessoa com barba e óculos usa um moletom e apoia a mão no queixo enquanto olha para a tela do computador. À direita, outra pessoa também utiliza um laptop, com atenção voltada para a tela.

Imagem ilustrativa da publicação Innovation in Media 2025 World Report (divulgação)


Todos os anos, a Innovation Media, uma consultoria global especializada que trabalha com as mais importantes empresas de comunicação do mundo, publica um relatório com as tendências e desafios para o setor, com base em suas pesquisas, seu trabalho com empresas e profissionais de comunicação e análises de especialistas em todo o mundo. 

O que segue abaixo - e nas próximas páginas - é a tradução  para o Brasil dos artigos de sua mais recente publicação.

 

No artigo anterior, os especialistas da Innovation cobriram o uso de IA para o resumo e reutilização de conteúdo, checagem de fatos e combate à desinformação, e tradução e transcrição de material. Neste capítulo, o foco é o uso de IA para a criação de vídeo e áudio, para a moderação de comentários e engajamento de comunidades, e para o gerenciamento e monetização de arquivos. 

 

IA para criação de conteúdo em áudio e vídeo

 

AFTENPOSTEN (NORUEGA)

O jornal norueguês Aftenposten entrou em parceria com a BeyondWords para desenvolver a tecnologia de clonagem de vozes que transformam textos em arquivos de áudio que parecem humanos, com o objetivo de aumentar a acessibilidade do conteúdo para quem tem dificuldade de ler e para aqueles que estejam aprendendo a língua. Diferentemente das vozes sintéticas, que são genéricas e soam artificiais, a voz clonada copia o estilo de fala de uma pessoa real, deixando o áudio mais interessante e familiar para os ouvintes.

A voz clonada do Aftenposten teve como base a sua apresentadora de podcasts, Anne Lindholm. Para criá-la, Lindholm gravou 6.182 frases que cobriram uma gama de elementos fonéticos que depois foram processados através de treinamento de rede neural. O resultado foi uma voz gerada por IA tão realista que os ouvintes têm dificuldade de distinguir a versão digital da voz da própria Lindholm.

Ao oferecer áudio via IA de alta qualidade, o Aftenposten está expandindo o acesso à notícia para pessoas que preferem ouvir no lugar de ler, incluindo pessoas com dislexia, dificuldades de concentração ou sem tempo de leitura. Este tipo de narração de IA com tons humanos garante que o jornalismo continue acessível, interessante e adaptável aos hábitos de consumo atuais.
 

VERDENS GANG  (NORUEGA)

Também da Noruega, o site de notícias Verdens Gang (VG) criou uma ferramenta interna de transcrição chamada JoJo, usando o Whisper (o modelo open source da OpenAI), para aumentar a eficiência da redação.

A JoJo permite que repórteres subam arquivos de áudio e vídeo para terem transcrições de alta qualidade em minutos, reduzindo consideravelmente o tempo gasto com o processo. Devido à natureza de certas entrevistas, a equipe técnica do VG permitiu que a JoJo possa operar diretamente do laptop dos jornalistas, mantendo confidencialidade sem prejudicar a funcionalidade da ferramenta.

Além disso, a JoJo foi integrada ao Slack, o que permite transcrição em tempo real de coletivas de acesso para toda a redação. A ferramenta não só simplifica o fluxo de trabalho mas também permite um maior grau de colaboração entre jornalistas ao dar acesso imediato ao conteúdo transcrito. Desde sua implementação, estima-se que a JoJo tenha economizado mais de 37 mil horas de trabalho, liberando os jornalistas para lidarem com atividades mais importantes.


 

A IA na automação de moderação e engajamento de comunidades


Engajamento e comunicação direta com a audiência passaram a ser elementos essenciais da estratégia digital da maioria das empresas jornalísticas. A IA está ganhando um papel crítico na moderação de discussões online para garantir que sejam construtivas e inclusivas. Além de moderação, a IA também está melhorando o engajamento com a audiência através de elementos interativos que estão se transformando em produtos em si.
 

WHAT’S THERE, WHAT’S MISSING (ALEMANHA)

O projeto ‘What’s There, What’s Missing’, desenvolvido pelas emissoras Bayerischer Rundfunk (BR) e Mitteldeutscher Rundfunk (MDR) com a agência digital IDA, faz parte de um programa do departamento de IA para jornalismo da London School of Economics, a LSE. O objetivo do projeto é usar IA para automaticamente detectar comentários a respeito das redações, o que permite uma resposta rápida e o desenvolvimento de um diálogo construtivo com o consumidor. Como a BR e MDR recebem mais de 10 mil comentários por dia, a identificação de comentários relevantes é algo crucial para elas. O modelo de IA desenvolvido para o projeto identifica elogios, crítica construtiva e sugestões que nem sempre se apresentam de forma clara ou podem ser destacados através de algoritmos tradicionais de busca.


 

IA para gerenciamento e monetização de arquivo


A IA está transformando o arquivo, que pode deixar de ser algo subutilizado para uma fonte de receitas ao melhorar o processo de busca e de reutilização de conteúdo. Arquivos podem ser algo difícil de navegar, mas a busca suportada por IA e resumos contextuais facilitam seu uso por pesquisadores, jornalistas e assinantes, permitindo que acessem conteúdo histórico de forma mais eficiente.

Muitas editoras estão integrando busca e acesso a arquivos com tecnologia de IA em modelos de assinatura, permitindo que os usuários explorem décadas de reportagens com reconhecimento inteligente de palavras-chave e processamento de linguagem natural. A IA também está ajudando a reaproveitar material de arquivo em linhas do tempo, documentários, podcasts e conteúdo educacional, ampliando seu valor.

À medida que a IA avança, assinaturas premium de arquivos, retrospectivas interativas e narrativas históricas com curadoria de IA poderão se tornar modelos de negócios independentes, abrindo novas fontes de receita a partir de conteúdo existente.

O New York Times criou uma ferramenta de IA que analisou mais de 300 mil palavras escritas ao longo de 20 anos para encontrar tendências, temas e pontos de inflexão em viagens. Eles usaram busca semântica no lugar de palavras-chave específicas para melhor compreender o conteúdo.

O serviço de streaming Tubi, da Fox, usa busca semântica orientada por IA para aprimorar a descoberta de conteúdo, compreendendo a intenção do usuário com mais precisão. A Tubi, que é o serviço de streaming gratuito de TV por assinatura mais popular nos EUA, tem como problema a descoberta de conteúdo, como qualquer um de nós que já tentou decidir o que assistir em um serviço de streaming pode atestar, e nova ferramenta tenta resolver esse problema. 

O Daily Telegraph (Reino Unido) está construindo uma interface de bate-papo baseada em seu extenso conteúdo de viagens, que atende a um público diferente de seu público principal de notícias políticas: “Acumulamos um enorme catálogo de conteúdo de viagens. É um pouco difícil navegar porque é uma cacofonia de muitas coisas diferentes”, disse Dylan Jacques, diretor de tecnologia do Telegraph Media Group, à INMA.

Pelo conceito em desenvolvimento, um chatbot vai perguntar ao consumidor o que ele gostaria de fazer e usar isso como ponto de partida para fornecer conteúdo relevante.

O leitor também poderá perguntar sobre necessidades específicas - como viajar com crianças ou parar em algum lugar específico no caminho - e receber um roteiro ou um guia para a viagem.

Historicamente, as editoras não têm sido muito boas em monetizar seus arquivos, e o motivo disso é que a unidade básica tem sido o artigo.

Dylan Jacques, diretor de tecnologia do Telegraph Media Group



"O salto que estamos vendo agora com a GenAI é que você pode parar de pensar em um artigo, porque você não vai retornar apenas uma lista de artigos, alguns dos quais podem não ser relevantes. Mas pode haver um parágrafo em um deles que, quando combinado com um parágrafo de outro, se torna melhor e mais do que a soma de suas partes, mais rico. E acho que viagens são um ótimo exemplo disso”, concluiu Jacques, citando fatos obscuros em vários artigos que poderiam ser recombinados para criar um guia útil para um visitante de uma cidade, seja em texto ou áudio.
 

POLITICO (EUA)

O Politico lançou o Assistente de Inteligência Política, uma ferramenta de IA que permite aos assinantes gerar relatórios políticos detalhados instantaneamente, usando reportagens e análises exclusivas do site. Ao contrário dos chatbots de IA que extraem informações de uma ampla gama de fontes, esta ferramenta é treinada apenas com conteúdo do Politico Pro, garantindo precisão e profundidade.

“Este não é um chatbot”, disse à Adweek Rachel Loeffler, vice-presidente executiva e gerente geral da divisão profissional do Politico. “Este é um gerador de milhões de conteúdos em minutos para assinantes.” A ferramenta foi projetada para otimizar a pesquisa para formuladores de políticas, lobistas e analistas, produzindo relatórios personalizados com base em solicitações do usuário. Os assinantes podem comparar posicionamentos políticos, ajustar a profundidade do relatório e exportar dados, economizando tempo gasto com análises legislativas complexas.

O Assistente de Inteligência Política é a novidade mais recente da coleção em expansão das ferramentas de IA do Politico Pro, que estão disponíveis para assinantes de pacotes que vão de US$12 mil [R$66 mil] a US$15 mil [R$83 mil] por ano. A nova ferramenta foi incluída no pacote sem custos adicionais.

Em dezembro de 2023, a Axel Springer, empresa controladora do Politico, assinou um acordo de licenciamento com a OpenAI, permitindo que a empresa de IA coletasse e treinasse conteúdo das marcas sob seu comando, incluindo o Politico. Um mês depois, o Politico lançou uma ferramenta com inteligência artificial projetada para resumir projetos de lei. 

No entanto, de acordo com Loeffler, o Assistente de Inteligência Política é diferente dessas iniciativas anteriores de IA. Ao contrário do acordo com a OpenAI, que concede acesso apenas ao conteúdo gratuito do Politico com anúncios, esta nova ferramenta - desenvolvida em colaboração com a Capitol AI - é treinada exclusivamente com as reportagens e análises aprofundadas do Politico Pro. Como resultado, ela oferece perspectivas exclusivas para assinantes que não estão disponíveis em outros produtos de IA generativa.

O Assistente de Inteligência Política produz relatórios abrangentes e personalizados com base em instruções definidas pelo usuário. Por exemplo, um assinante pode solicitar uma análise comparativa das ordens executivas emitidas pelos presidentes Biden e Trump sobre política energética nacional, ajustando a profundidade e a extensão do relatório para atender às suas necessidades.

 

AFTONBLADET (SUÉCIA)

Em maio de 2024, o jornal sueco Aftonbladet lançou o 'Amigo Eleitoral da UE', um chatbot de IA projetado para engajar o público com notícias políticas da União Europeia e atender ao público mais jovem menos inclinado a ler formatos de notícias tradicionais. Construído com base em um banco de dados de milhares de fontes criado e verificado por repórteres e editores experientes do Aftonbladet, o chatbot proporcionou uma experiência de usuário segura e personalizada.

Ele respondeu a 150 mil perguntas sobre política da UE em apenas algumas semanas, com 78 mil usuários acessando o serviço, demonstrando seu apelo e eficácia.

 

FINANCIAL TIMES (REINO UNIDO)

Em março de 2024, o Financial Times lançou o 'Pergunte ao FT', um chatbot de IA generativa que permite aos assinantes consultar informações dos extensos arquivos do veículo, abrangendo mais de duas décadas. Ao contrário dos bots de IA genéricos, o 'Pergunte ao FT' fornece respostas selecionadas exclusivamente do conteúdo publicado pelo FT, garantindo confiabilidade e relevância. A ferramenta foi projetada para responder a perguntas sobre eventos atuais, tópicos amplos e dados históricos, resumindo informações pertinentes dos arquivos do FT.
 

WASHINGTON POST (EUA)

Em novembro de 2023, o Washington Post lançou o "Ask the Post AI", uma ferramenta experimental de IA generativa que permite aos leitores fazer perguntas sobre qualquer tópico abordado nos artigos do jornal desde 2016. Esta iniciativa visa melhorar o acesso ao extenso arquivo da publicação, fornecendo aos leitores informações contextualizadas e confiáveis diretamente da fonte.

Esses desenvolvimentos refletem uma tendência mais ampla entre as editoras de integrar chatbots baseados em IA em suas plataformas, aprimorando a interação do usuário e tornando vastos arquivos mais acessíveis aos leitores. ◼

No próximo artigo, a Innovation analisa o uso de IA para a otimização de publicidade e retenção de assinantes

 

Para acessar a publicação original da Innovation, visite o site innovation.media

Como a IA está transformando as redações no mundo:
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