Uma nova era para a publicidade
A evolução tecnológica das últimas décadas provocou uma significativa metamorfose no ecossistema da comunicação
Transformação multimídia (IA)
Por Flavio Ferrari
Os veículos tradicionais deixaram de ser definidos pelos seus verticais de produção e distribuição de conteúdo. Transformaram-se em marcas de mídia, produtoras, curadoras e amplificadoras da informação, capazes de interagir com o consumidor e capturar sua atenção em qualquer lugar do tempo ou do espaço.
Como lagartas que se transformaram em borboletas, podem deixar sua árvore e, de asas abertas, explorar novas oportunidades.
Mas o cenário não é apenas de flores para as borboletas. As barreiras de entrada foram derrubadas pela tecnologia e, na prática, qualquer agente pode produzir e distribuir conteúdo, em múltiplas plataformas, com mínimos investimentos.
A velocidade e intensidade com que conteúdos são produzidos e distribuídos provocam a rápida obsolescência da informação, e a janela de atenção do consumidor fica cada vez mais reduzida.
O próprio conceito de Mídia se transformou. Usando a Física Quântica como referência analógica, podemos dizer que Mídia é o que acontece quando o consumidor encontra o conteúdo, em algum momento de sua jornada, acessando-o através da plataforma de sua conveniência.
É o encontro que define a nova Mídia.
E a cada encontro corresponde um momento de atenção com características singulares, determinadas pela representatividade da marca de mídia, pelo momento da jornada, pelo formato/dispositivo de acesso e pelo próprio conteúdo. O conjunto de momentos de atenção contextualizados, colecionado por uma marca de mídia, é o seu maior ativo, e a base para novos modelos de negócio. Audiência (quantitativa), embora relevante, deixou de ser a métrica mestre para sua avaliação.
Outro ponto importante é a interdependência dos agentes do mercado, que torna imperativa a disposição para a colaboração. No modelo atual, para a atuação em múltiplas plataformas, as marcas de mídia dependem de outros agentes e até de potenciais concorrentes. A Inteligência Competitiva é substituída pela Inteligência Colaborativa. É a “coopetição”, no sentido cunhado por Adam Brandenburger e Barry Nalebuff (1997), combinando a competição com a colaboração.
O modelo P.O.S.E. organiza os caminhos de distribuição: Paid (mídia paga com controle de conteúdo), Owned (canais proprietários com alcance limitado), Shared (conteúdo para compartilhamento espontâneo) e Earned (menções orgânicas sem controle).
A comunicação efetiva depende da afinidade entre conteúdo e interesse do consumidor. Mensagens deslocadas do território de afinidade são percebidas apenas como ruído
A estratégia fractal emerge como fundamental: a distribuição planejada de elementos informativos que, combinados, conduzem o consumidor na construção da história da marca, e isso inclui as inteligências artificiais conversacionais, que ganham cada vez mais relevância no processo de construção da reputação e na avaliação e indicação de marcas e produtos.
Fatima Rendeiro e eu falamos bastante sobre isso em 2020, quando discutíamos as competências requeridas dos profissionais de mídia nesse contexto, e os apelidamos de “Mind Hackers”. Eles são responsáveis pela "big idea inception" – abrir as portas dos casulos dos consumidores para que marcas entreguem elementos da comunicação fractal.
Fatima, que é consultora de comunicação de marcas e Diretora de Relações com o mercado do Grupo de Mídia do Rio de Janeiro, também alerta para os desafios gerados pela pressão por resultados de curto prazo e o novo papel do “branding” como facilitador de múltiplas conversões seriais de curto prazo. Em suas palavras, o branding é “a infraestrutura para performance sustentável”.
Para o futuro, três questões são críticas para as marcas de mídia: primeiro, a desintermediação crescente nas relações entre marcas e consumidores; segundo, a polarização da verdade e a confiança relativa e fluida na era pós-realidade; terceiro, o espaço que as IAs irão ocupar na interação com o consumidor e sua relação simbiótica com a mídia geradora de conteúdo. ◼

*Flavio Ferrari é fundador do hub SocialData, professor de análise estratégica de cenários futuros na ESPM e autor do livro “O Sexto Poder – algoritmos, inteligências artificiais e reputação digital” (2025).



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