Zeitgeist: O povo no papo da mídia

Zeitgeist: O povo no papo da mídia

Atualizado em 22/08/2006 às 18:08, por Meyre Anne Brito,  de Berlim e  Alemanha.

Os três goleiros da seleção alemã desfilam um pouco intimidados...

Que quase um terço da humanidade pôsse defronte aos seus aparelho televisores para assistir à Copa do mundo não é notícia que surpreenda nessa altura do campeonato. Um mês depois, a imprensa brasileira já não se ocupa dessas coisas. Nem os leitores. Têm mais o que fazer.

O bombardeio cessou, não rende mais ibope. Tampouco se interessam pela verdadeira identidade do mascarado mundial...Nada disso leva mais à refl exão. São apenas ecos escritos, algumas vezes de maneira diferente.

Mas o show orquestrado pela mídia em Berlim, na fi nal da Copa de futebol, para receber a seleção alemã,“Campeã do coração”, título inventado também pela Nossa Senhora da Mídia, sustentado pelo secretário geral da ONU, Kofi Annan, e absorvido instantaneamente pelo público crente, é assunto para esta coluna.

Uma passarela foi montada na avenida Unter den Linden, mais uma vez com o Portal de Brandemburgo como pano de fundo, onde um casal de jornalistas-apresentadores entreteve mais de um milhão de pés que pulavam descompassadamente ao som de We are the champions. Impelidos, vocês sabem por quem, crianças, jovens – principalmente – e adultos (adultos, soa-me engraçada, essa palavra), aguardavam, pouco acostumados, sob um sol de 30 graus para ovacionar os seus heróis. Ou, enxergando a vida como ela é, para dar forma ao espetáculo.

O ônibus da seleção tricampeã, que conseguiu superar a crise e conquistar o terceiro lugar, chegou. A rua está pintada de preto, vermelho e dourado nas cabeças, nos rostos, nas mãos. Alemanha, “Campeã do Coração”, “Klinsmann, fi ca!”(o qual finalmente, não ficou) e outros cartazes agitamse. As adolescentes gritam desnorteadas pelos jogadores- modelos, as crianças arregalam os olhos introspectivas, os mais velhos, impressionados, saboreiam um momento praticamente inédito por esses lados: o patriotismo. Com seus microfones sempre ligados, os jornalistas não param de falar.

A comemoração tem início. Os jogadores são chamados à passarela em forma de T para saudar e serem saudados. Falo com os meus botões: colocálos em uma viatura do Corpo de Bombeiros seria loucura por aqui. O Brasil faria festa por um terceiro lugar? Sim, se tivesse sediado a Copa do mundo, faria. Depois, quando a euforia findasse, acertaria as contas com o Parreira.

Voltando à realidade germânica, primeiro são chamados ao palco os três goleiros. A multidão jovem e encalorada vai ao delírio. Eles desfilam lado a lado. Um pouco intimidados com a recepção e por serem colocados em tal situação, caminham até a ponta do palco, sorriem, acenam, respondem a uma pergunta, colocam-se num canto. A coreografi a se repete. Milhões de olhos atentos ao vivo e no monitor. Qualquer gesto pode denunciar um neonazista. Talvez seja por esse complexo e pela falta de experiência no quesito estrelismo que os campeões, sem jeito para a coisa, hesitavam em corresponder a todo aquele frenesi.

Não fosse por Odonkor e Asamoah, jogadores com origem africana, que cantaram, pularam, vibraram, empolgando os mais tímidos, tudo não passaria de um jogo promovido pela mídia alemã, um desfile de trajes esportivos bem insosso, para conseguir mais alguns pontos no ibope. É bem verdade que os alemães se espelham nos brasileiros por algumas razões: espontaneidade, alegria, otimismo. Lamentável seria se se espelhassem também nessa cultura de estrelas que engorda o bolso dos ídolos de futebol e acaba por deixá-los semelhantes àquela que eles perseguem sofregamente em campo.