Zeitgeist: Nós estamos aqui para falar de futebol ou...
Zeitgeist: Nós estamos aqui para falar de futebol ou...
de Berlim, Alemanha
Nem tudo é "sambalelê" por aqui
A bola rola. Os astros da telinha, incluindo Pânico e Eliana e os dedinhos, encontram-se na Alemanha para cobrir a pauta das pautas, a notícia minimizadora de todos os outros fatos que ocorrem no momento. Para a arbitrária mídia, dona da informaçao, está decidido: a Copa é o assunto mais relevante no mundo para se reportar ao brasileiro. Sem dúvida é o que dá mais ibope e, conseqüentemente, mai$ patrocinador. Constatação óbvia. É inegável porém a beleza da festa. Além das outras 31 nações, o verde e amarelo se destaca, colore e esquenta o país que hiberna triste, gelado e cinzento durante seis longos meses do ano. O Brasil (e todos os clichês que o vende) é mais moda do que nunca na Europa. Festa para os brasileiros que migraram para cá; para os turistas também. Festa para o país-sede que lucra milhões com o evento. Festa para a Nossa Senhora da Mídia, para os grandes veículos com todo o status que o poder do crachá lhes empresta e para os pequenos também, que mais se assemelham a ambulantes, vendedores de churrasco de gato, no entorno dos estádios, com suas câmeras e antenas parabólicas a tiracolo.
Bola fora para quem pensa que vai ler sobre futebol. Nem tudo é "sambalelê" por aqui, especialmente para a mídia germânica que ainda não conseguiu engolir o fato de ser espionada sistematicamente pelo Serviço Secreto Alemão (BND) por 25 anos. Além dos próprios agentes, o Serviço de Informações da Alemanha contratou jornalistas, os quais foram pagos para fornecer relatórios e observar os colegas que investigavam o BND. As ações do BND representam um ataque massivo à liberdade de imprensa protegida constitucionalmente. Afora isso, as atividades desse órgão são estritamente limitadas a questões internacionais. Um relatório de 170 páginas elaborado pelo ex-juiz da Corte Suprema, Gerhard Schäfer, descobre uma densa rede de informantes e operações investigativas com alvo em várias redações e reaviva a prática da Stasi (Serviço Secreto da antiga Alemanha Oriental). Telefones grampeados, perseguições, invasão de privacidade. O jornal Der Spiegel foi o maior alvo do escrutínio. Nesse caso, a investigação começou em 1994, quando o BND, na Operação HADES, tentou fomentar pânico e expor um negócio internacional de armas de plutônio .
Os resultados da bem-sucedida investigação criada artificialmente seriam divulgados um pouco antes das eleições federal e estadual. Claro, para influenciar o resultado dos pleitos eleitorais. No fim, Der Spiegel descobriu que o BND havia forjado o negócio, transportando 363 gramas de plutônio altamente venenoso em um avião de passageiros de Moscou para Munique, ignorando qualquer precaução de segurança. O responsável pelo relatório, Schäfer, encontrou uma extensa informação sobre a redação do Der Spiegel , incluindo detalhes dos contratos de trabalho e pagamentos de funcionários.
A identidade de muitos que foram espionados não foi revelada, tampouco a de todos aqueles que espionaram. O Parlamento alemão exigiu somente que o chefe do BND, Ernst Uhrlau, pedisse desculpas aos jornalistas. Uhrlau desculpou-se e prometeu tomar iniciativas para prevenir tais abusos no futuro. O que incomoda é saber que isso não tem fim e que os grandes figurões, viciados no podre poder, saíram ilesos. Como sempre, se alguém for penalizado serão antigos subordinados do baixo escalão.






