Vuvuzela no jogral

Vuvuzela no jogral

Atualizado em 22/06/2010 às 18:06, por Rodrigo Manzano.

Possivelmente serei apedrejado por causa desta coluna. Mas jornalismo esportivo, ao que me parece, é menos jornalismo, principalmente a cobertura do futebol e dela, em especial, da Copa do Mundo. Longe de mim ignorar a presença monolítica do tema, a euforia popular, a empolgação individual e coletiva em torno da seleção brasileira, mas me sinto tão deslocado agora quanto uma . Essa coluna e eu mesmo somos uma buzinada estridente em meio ao "todos juntos, vamos, pra frente Brasil, salve a Seleção".
Decerto, reconheço, 97,2% do problema a mim pertence. Pois bem: motivada pelo mais alto espírito do espaço público e do bem-estar geral, a síndica do meu prédio fixou um bilhete - adoro os comunicados dela - no elevador. Recomendação em A4: "Srs. Condôminos, embora estejamos em época de Copa, solicitamos aos senhores moderação nas comemorações tendo em vista muitas crianças pequenas e pessoas mais idosas no condomínio. Sem mais, agradecemos". Não me contive, saquei a caneta hidrográfica vermelha da mochila e acrescentei: "além daqueles que não gostam de futebol". Isso explica muito, mas não tudo.
Os outros 2,8%, lamento dizer aos coleguinhas, têm a ver com os jornalistas que cobrem futebol. Não me impressiona que um ignorante se embale no nobre sentimento patriótico que toma o país bissextamente. No entanto, o jornalista esportivo é, ele mesmo, o fanfarrão da banda de estúpidos, os torcedores. À frente do coro, faz sentir-se mal quem não repete suas cantilenas, quem não se importa, minimamente, com o jogos, com a dor de Kaká, com o resmungo de Dunga, com a concentração, com as moçoilas de verde-e-amarelo. O jornalista esportivo, eis o núcleo do problema, é pago para fazer jornalismo, não para ser cheerleader. E o jornalismo - em qualquer editoria que seja - pressupõe uma série de princípios absolutos dos quais o jornalista esportivo pode, por luxo, abrir mão.
Sou diariamente confrontado por uma geração completamente fascinada por esportes. Dois terços dos meus alunos desejam ser jornalistas esportivos. Acho graça, porque se houver espaço para todos, até mesmo as partidas da 9ª divisão serão cobertas. Seus ídolos, aliás, deixaram de ser os jogadores em si - a quem eram devotos na adolescência - e são os grandes nomes do jornalismo esportivo, principalmente da televisão: Tiago Leifert, PVC, Tadeu Schmidt. Para as garotas, Renata Fan e Glenda Koslowski. PVC, certa vez, autografou um exemplar de um de seus livros a mim: "Ao Manzano, que não gosta e não entende de futebol". Ele, ao menos, identificou os sintomas na ordem correta, porque a maioria das pessoas acha que eu não gosto porque não entendo, quando é justamente o contrário. Aliás, não estou muito certo de que não gosto de futebol. Tenho, é bem verdade, convicção de que não gosto do jornalismo esportivo. É muito diferente.
O problema fundamental é que não se pode fugir do jornalismo esportivo quando se quer saber de esporte. É a única via de acesso aos clubes, aos torneios, aos campeonatos, às modalidades e, enfim, à Seleção. E, sendo cada vez mais frequente o tema e menor o acesso de fato às informações, sobram conjecturas, análises, opinião, gracinhas e ufanismo da mais questionável categoria. Nesse sentido, o #calabocagalvao - fenômeno da web 2.0 mundialmente noticiado - é um sintoma da evidente falta de fronteiras entre entretenimento, jornalismo, torcida. Cada um que postou a hashtag em seu microblog no fundo idolatra Galvão Bueno e, ao sentir-se no direito de mandá-lo calar a boca (grosseria escandalosa, aliás), revela o quanto dele é dependente. Barthes, o notável pensador e semiólogo francês, escreveu: "malogramos sempre ao falar do que amamos". Em mim, Galvão Bueno nada provoca. Eu não o ouço. Nem ele, nem ninguém da turba. Já o episódio lamentável da coletiva com Dunga, no domingo, deixa evidente o quanto falta lustre e civilização no playground. Em ambas as partes.
Foooooooooooom.
Falei.