"Você pode ter 300 correspondentes no mundo inteiro e serem 300 imbecis", diz Arbex Jr.

Enquanto as duas torres imensas - onde trabalhavam cerca de 50 mil pessoas - despencavam em chamas após os ataques aéreos de 11 de setembro,a mídia mundial já não tinha dúvidas: espalhava como um bordão o título de "o maior atentado terrorista da história".

Atualizado em 24/08/2011 às 17:08, por Guilherme Sardas.

as duas torres imensas - o local de trabalho de cerca de 50 mil pessoas - despencavam em chamas após os ataques aéreos de 11 de setembro, a mídia mundial já não tinha dúvidas: espalhava como um bordão o título de "o maior atentado terrorista da história".


No entanto, antes mesmo de "a poeira baixar", o jornalista e professor universitário José Arbex Jr. já rejeitava a disseminação do título em um programa televisivo. "Como é que você considera Hiroshima e Nagazaki? Não é terrorismo você jogar bomba atômica numa população civil?", perguntava a um dos debatedores.


Se, por um lado, a questão adentrava o terreno pedregoso da história, por outro, introduzia uma visão especialmente crítica sobre a reação imediata da mídia diante do episódio. Hoje, 10 anos depois, o jornalista revisita o tema - a cobertura da mídia sobre o 11 de setembro - para falar em que grau a data fatídica descortinou os vícios e as virtudes do jornalismo brasileiro.


IMPRENSA - Como o sr. viu a cobertura nacional sobre o 11/09?

Arbex - A imprensa brasileira agiu da pior forma possível, ainda mais depois do ataque ao Afeganistão. Ela justificou o ataque como uma medida de combate ao terrorismo e não falou nada das vítimas civis e inocentes [decorrentes da invasão].


IMPRENSA - Quais foram as razões dessas falhas?

Arbex - Acho que é um mistura de preguiça, falta de informação e tem um senso de oportunismo também: é mais fácil você embarcar na corrente geral do que ter uma opinião ou ângulo diferente e desafiar o consenso. Isso se mistura também com incompetência acadêmica. Acho que os jornalistas, em geral, não todos, conhecem muito pouco de história e de política internacional. O problema não é técnico, a mídia brasileira é uma das melhores do mundo.


IMPRENSA - O 11 de Setembro influenciou alguma coisa na mídia, positivamente ou negativamente?

Arbex - Eu acho que influenciou pessimamente porque criou essa cultura da guerra ao terror, uma cultura sem críticas, sem passar por uma reflexão sobre o que é de fato terrorista e o que não é terrorista. Hoje, no Brasil, a imensa maioria das pessoas não sabe que a ONU não tem uma definição sobre o que é terrorismo, e não tem por uma simples razão: porque no dia que tiver uma definição do que é terrorismo, um dos países mais atingidos por essa definição vão ser os EUA. A pergunta vai ser: [o ataque nuclear sobre] Hiroshima e Nagazaki foi ou não foi terrorismo? Os dois milhões de pessoas que os EUA mataram no Laos, Vietnan e Camboja, isso foi ou não foi terrorismo? A hora que começar a responder isso aí, vai ficar chato...


IMPRENSA - Falta estrutura na grande mídia brasileira pra fazer um jornalismo internacional mais independente?

Arbex - Eu fui correspondente durante quatro anos pela Folha de S.Paulo , cobri muita coisa importante: queda do muro de Berlim, a primavera de Pequim, retirada soviética do Afeganistão, a retirada vietnamita do Camboja. Eu cobri tudo isso aí com recursos mínimos. Era eu e um gravadorzinho, com aquela verba que o jornalista brasileiro dispõe, que é uma brincadeira perto da verba que é movimentada pelo New York Times , o Washington Post e outros jornais importantes. A carência de verba e a carência de estrutura não impediram que eu fizesse essas coberturas.


IMPRENSA - As empresas brasileiras precisariam investir em mais correspondentes para abarcar um evento dessa magnitude?

Arbex - Numa situação como essa, o mínimo que você tem a fazer é ter prudência, tem que se perguntar "por quê?", "o que está acontecendo de fato?". A segunda parte é que eu acho que de fato os jornais teriam que ter um investimento muito maior em correspondentes internacionais. Eles abandonaram o investimento em política externa porque preferem economizar dinheiro pra ficar comprando matéria de agência. Eu dou um exemplo: entre 1991 e 1992, eu era editor de exterior da Folha de S.Paulo . O caderno "Mundo" tinha 12 páginas diárias, às vezes eram 16 páginas no mesmo dia. Trabalhavam na redação 11 redatores e mais uns 10 correspondentes. Aí depois veio essa história de que as agências estavam cobrindo, e teve um corte brutal. Mas, isso aí só responde uma parte do problema, porque também é verdade que você pode ter 300 correspondentes no mundo inteiro e serem 300 imbecis. Então não adianta ter quantidade, se ela não se traduz em qualidade.


IMPRENSA - O que o sr. acha da participação de analistas na cobertura da imprensa?

Arbex - Eu acho que a análise é sempre bem-vinda, mas o que eu sinto falta é de pluralidade na análise. O que eu vejo são as mesmas figurinhas carimbadas que vão lá falar e, raramente, você vê alguma cara nova, alguma opinião que divirja do consenso.


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