Voa, passarola

Voa, passarola

Atualizado em 18/06/2010 às 13:06, por Rodrigo Manzano.

Meu primeiro livro de Saramago, comprei por obrigação - era uma das leituras indicadas ao vestibular da FUVEST, nos meus dias verdes - e depois de "Memorial do Convento" não houve um só livro do escritor português que não esperasse ansioso, embora muitos deles sequer tenham sido lidos, ainda, no aguardo de uma semana tranquila, pequenos inúteis dias para grandes inutilidades, como a literatura, por exemplo.
De "Memorial do Convento" me lembro muito: a cena da promessa a Deus (leia-se aos padres) por D. João V para construção do Palácio de Mafra, em troca de um herdeiro; as pulgas na cama; os grandes blocos de pedra; o ouro brasileiro; Blimunda, a mulher que via por dentro dos outros e, claro, a Passarola de Bartolomeu de Gusmão, linda utopia. Quase 15 anos depois, surpreendi-me na cripta da Catedral da Sé, em São Paulo, com uma lápide anunciando os restos mortais de Bartolomeu de Gusmão, ali, escondidos sob o altar da igreja no centro de São Paulo. Lembrei-me, então, de quanto o sonho nos move. Ao Bartolomeu de Gusmão, lindo personagem da História e do romance de Saramago, voar era mais que uma meta. Em tão belo português, Gusmão solicita ao Rei ajuda para projetar um "instrumento de andar pelo ar".
Sou de uma terra triste, uma cidade-fantasma que se chama Tupã. Em Tupã não há nada. Hoje tenho só pai, meia dúzia de amigos, ainda um quarto adolescente e uma professora. Naqueles dias de Tupã, a literatura era a única porta de saída de uma vida adoravelmente triste. Mas em Tupã não há uma livraria sequer. Para comprar livros, ligava ao meu irmão, Fernando; ele os comprava e enviava pelo correio. No dia em que "Memorial do Convento" chegou, couberam na pequena caixa de correio todo um Portugal, um palácio, um rei, a corrupta igreja, e um mundo inteiro sem vírgulas.
O texto de Saramago - quase sem vírgulas, cheio de longos parágrafos e com uma maneira tão linda de falar as coisas comezinhas - era minha Passarola pessoal no sertão das tristezas infinitas de uma vida arrastada, cheias de pontos, vírgulas e pontos-e-vírgulas.
Hoje Saramago voou para se encontrar com Bartolomeu de Gusmão e sua Passarola. A nós, ficam os livros, lidos ou não lidos, do velho escritor, por ora o que temos.