Violência no futebol pode afetar jornalistas esportivos, diz presidente da Aceesp

Márcio Barreto de Toledo era um santista apaixonado. Ele teve sua vida interrompida aos 34 anos, na noite do último domingo (23/2), em São Paulo (SP), após ser agredido por 15 torcedores do São Paulo logo após o clássico realizado no estádio do Morumbi, pelo Campeonato Paulista.

Atualizado em 25/02/2014 às 16:02, por Lucas Carvalho*.

Infelizmente, não é a primeira vez que a paixão pelo esporte resulta em homicídio no Brasil.
A violência no futebol não é uma exclusividade brasileira. Em um País onde jornalistas são detidos e agredidos por policiais militares enquanto fazem seu trabalho ao cobrir protestos contra a Copa do Mundo, o cenário passa a ser preocupante também para profissionais de imprensa.
Crédito:Reprodução/SporTV Presidente da Aceesp diz como imprensa esportiva pode evitar atos de violência
Luiz Ademar é comentarista no SporTV e presidente da Associação de Cronistas Esportivos do Estado de São Paulo (Aceesp). Em entrevista à IMPRENSA, o jornalista discute a questão da violência nos estádios e os riscos aos quais os repórteres estão expostos, lembrando, inclusive, como a Copa do Mundo se encaixa nesse contexto.
IMPRENSA - Como a Aceesp vê a violência no futebol afetando profissionais da imprensa? Luiz Ademar - Assumi a presidência da Aceesp em fevereiro de 2010, fui reeleito em fevereiro de 2013, e meu mandato vai até fevereiro de 2016. Só tive dois problemas, ambos do SporTV com hostilidade da torcida da Ponte Preta em relação aos comentaristas e narradores, sempre quando o time perde em Campinas.
Fiz relatório para Federação Paulista de Futebol, Polícia Militar de Campinas, diretoria da Ponte e acionei o Tribunal de Justiça Desportiva. Solicitei medidas imediatas. Rapidamente, mudaram a posição das cabines de TV e os profissionais não tiveram mais problemas após passarem a trabalhar em outras distantes da torcida. Portanto, pelo menos desde 2010, raros foram os problemas de violência afetando profissionais de imprensa. Felizmente, pelo menos por enquanto, esse é um problema que não nos afeta.
No relacionamento da imprensa com clubes e atletas, pode existir hostilidade de alguma das partes? Hostilidade não pode acontecer em nenhuma atividade. O que acontece, eventualmente, são perguntas hostis ou maldosas e respostas atravessadas ou grosseiras. Geralmente, no calor do jogo, após as partidas. Mas tirando algumas discussões tolas, que são contornadas imediatamente, o relacionamento é tranquilo na maioria das vezes.
E com torcidas organizadas? Não deve acontecer proximidade entre jornalistas e torcidas organizadas. Claro que existem várias pessoas de bem nas organizadas, em especial aqueles que estão sempre dispostos a dar entrevista ou falar em nome da torcida. Mas entendo que, de maneira inteligente, veículos de comunicação e profissionais de imprensas estão se afastando das organizadas, onde impera o terror e clubes, jogadores e diretores são cegos, surdos e mudos. O quanto mais distante a categoria ficar das organizadas, melhor.
Como garantir a integridade dos jornalistas e cronistas no exercício da sua profissão? O que compete ao Estado, ao veículo e ao próprio profissional? O Estado atua com policiais militares nos estádios e ginásios, impedindo contato do público com os profissionais que estão trabalhando. As empresas têm obrigação de zelar pela segurança levando seus profissionais e deixando em local seguro do local onde vão trabalhar. E os profissionais devem fazer jornalismo com lisura e imparcialidade para não provocar torcedores, dirigentes e jogadores. Tudo dentro da ética e do bom jornalismo. Se todos atuarem com profissionalismo, dificilmente algo acontecerá.
Para a Copa do Mundo, em que protestos são esperados nas ruas, e podem, inclusive, gerar casos de violência, como os jornalistas devem se preparar? Como se prepararam durante a Copa das Confederações, quando os protestos foram fortes. Trabalhando na área demarcada dentro e fora do estádio. E procurando fazer jornalismo, ouvindo sempre os principais responsáveis pelas manifestações, sem entrar no tumulto e ficando afastado de eventuais atos de vandalismo e violência. São precauções normais de quem atua em manifestações, que deveriam ser pacíficas, mas contam com vândalos infiltrados.
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves