Violência contra moradores de rua em São Paulo: uma análise do discurso midiático - por Felipe Maciel
Violência contra moradores de rua em São Paulo: uma análise do discurso midiático - por Felipe Maciel
Seis moradores de rua foram assassinados, em uma série de ataques que começou do dia 19 de agosto, na região da Praça da Sé, centro de São Paulo, e deixou um total de 14 vítimas, segundo a contagem oficial da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo. Muitos deles foram levados para o hospital e faleceram sem serem identificados.
Pode não parecer, mas a questão da identidade é de suma importância na sociedade moderna. Basta lembrarmos que filósofos russos como Vigotski, Leontiev e Luria estudaram a formação psíquica dos homens, recorrendo às estruturas sociais e econômicas que o rodeiam, para analisarem os indivíduos resultantes deste processo de transformação.
Mas qual é o papel da mídia neste contexto? A imprensa na sociedade moderna deve garantir a livre manifestação da subjetividade civil, ou seja, assegurar a representatividade de sua palavra ao cidadão isolado, como são os moradores de rua assassinados em São Paulo.
O psicólogo Odair Furtado1 destaca que a relação do homem com o mundo tem sempre por intermédio a relação do homem com outros seres humanos e que sua atividade está sempre ligada à comunicação. Segundo ele, a "comunicação é a condição necessária e específica do desenvolvimento do homem na sociedade". Odair Furtado vai além e afirma: "Os meios de comunicação, as agências socializadoras (como a família, a escola, a igreja etc) e as agências controladoras (o aparato do Estado) são responsáveis pela difusão e manutenção de um quadro de valores e crenças que instituem formas de controle e auto controle que minimizam a contradição entre individualismo e massificação. Vemos como indivíduo, mas agimos como massa".
No caso dos assassinatos dos moradores de rua nota-se uma diferença. Estas pessoas estão a margem da sociedade e da mídia, já não encontram representatividade de suas palavras, de seus desejos e não podem consumir fato que em nossa sociedade capitalistas representa cidadania. Porém vejamos. Uma reportagem produzida por Paloma Cotes, Solange Azevedo e Gisela Anuante para a revista Época, publicada em 23/08, deixa claro a inexistência desta representatividade quando afirma: "Eventos isolados de violência contra essa população são registrados no país todo. Mas a maioria dos casos nem sequer é investigada. Pobres, dependentes de álcool e muitas vezes portadores de distúrbios mentais, os moradores de rua só entram na pauta das autoridades quando o escândalo é grande demais".
A mesma reportagem também nos mostra que as formas de controle e auto controle, previstas anteriormente por Odair Furtado, também ficam de lado em se tratando de moradores de rua. Fica claro que a representatividade deste cidadãos, que é que podemos dizer que são cidadãos, só acontece quando de períodos eleitorais. "O massacre opõe o Estado e a Prefeitura em momento pré-eleitoral. A prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, candidata a reeleição pelo PT, esteve no Hospital Vergueiro, onde três vítimas continuam internadas. Saiu sem dar declarações porque não quer que a discussão ganhe contornos políticos. Enquanto isso, a Secretaria Municipal de Assistência Social e a Secretaria de Segurança Pública trocam acusações".
O jornal Folha de S. Paulo procurou retratar o acontecido buscando uma explicação para o que a revista Época caraterizou como um massacre. A matéria publicada em 25/08 destaque que "o DHPP ainda não pode afirmar se a ação foi cometida por um grupo de intolerância, como os skinheads". A própria revista busca, com menos veemência do que o jornal, já que sua preocupação maior foi retratar o problema político gerado pelos assassinatos, uma explicação para o caso quando informa que "O Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), que investiga o caso, cogita as hipóteses de que o crime seja obra de gangues de extermínio, luta de grupos rivais ou ato de vândalos - como os skinheads".
Esta preocupação com grupos extremistas se faz constante, já que a discriminação encontra, em nossa sociedade as mais variadas justificativas e que sempre se baseiam em ideologias que visam justificar e perpetuar a ordem social vigente. "Na sociedade capitalista, em que se acumula bens não somente para sua reprodução, é necessário um acordo tácito entre os indivíduos, particularmente pelos mais atingidos pelas desvantagens desse processo", enfatiza Odair Furtado. Percebemos então que neste caso específico o "contrato social" foi quebrado.
Para o sociólogo Zygmunt Bauman 2, "não constitui exceção a tarefa enfrentada pelo Estado moderno ante a necessidade do espaço agora submetido à autoridade direta; ela consistia em separar as categorias e distinções especiais das práticas humanas que os poderes do Estado não controlavam".
Neste contexto, ainda podemos usar como referência à definição de identidade dada pelo também sociólogo Manuel Castelles3 . "Por identidade, entendo o processo pelo qual um ator social constrói significado principalmente com base em determinado atributo cultural ou conjunto de atributo, a ponto de excluir uma referência mais ampla a outra estruturas sociais".
Assim podemos analisar outros pontos do trabalho da mídia neste caso. O jornal "Estadão" publicou em seu site uma reportagem que remonta outro tipo de preocupação na sua linha eleitoral para retratar o terrível episódio. Os repórteres Maria Elisa Arruk, Luciana Garbin, Marcelo Godoy, Maurici Capinelli e Marinês Campos buscam saber quem são essas pessoas, o porque e como chegaram a esta situação. Com isso, a reportagem nos mostra que estas pessoas perderam, para a mídia e para a sociedade, sua referência, já que um consciência coletiva distorcida pelos valores e crenças sociais, presentes na sociedade capitalistas em que vivemos, transforma a aparência da diferença social em algo absolutamente norma.
Senão vejamos: "Com o apoio de relatos policiais, de padres e irmãs das comunidades religiosas que acolhem esta população e dos poucos parentes que aparecem par reconhecer os corpos, assim como nos depoimentos confusos e fragmentados dos moradores de ruas que conheciam as vítimas, tentamos construir o perfil dos mortos. Foi difícil. Descobrimos que, para contar a história de um morador de rua, é preciso ser um artesão, capaz de costurar uma colcha de retalhos feita de várias histórias, que transitam entre a realidade e a ficção", contam os repórteres do "Estadão".
Os jornalistas buscam analisar a origem do problema que estas pessoas enfrentam, tentando assim, justificar através da bebida e das drogas a origem desta exclusão. "Quem são estas pessoa chamadas, indiscriminadamente, de mendigos, sem-tetos, marginais ou vagabundos e, até mesmo, oportunistas? Todos não têm moradia definida, isso é certo." E desta forma buscam uma classificação homogênea para o grupo. Esta busca vai de encontro com a ilusão, retratada por Odiar Furtado, que o sistema capitalista nos insere, fazendo com que nós, para sentirmos que somos indivíduos, tenhamos consumo de massa, o que nos torna muitos parecidos uns com outros e nos exclua se não consumirmos. Desta forma, quem não lê jornal, não ouve rádio ou vê televisão não é cidadão. Não pode buscar na massa a representação de sua identidade, sua cidadania.
Este processo de exclusão se mostra constate até mesmo nas declarações das autoridades brasileiras. O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em matéria publicada em 23/08 no Correio do Povo, jornal de Porto Alegre, afirmou que os agressores dos moradores de rua estão "tomados de insanidade" e o ministro da Justiça Márcio Thomas Bastos, qualificou a ação com um desrespeito ao Estado. Se tomarmos como base a noção de indivíduo anteriormente aqui apresentada, veremos que os problemas sociais, e não os psíquicos, salvo raras exceções, são as causas da perda de representação perante a mídia e a sociedade, o que transforma as diferenças sociais em algo absolutamente normal, já que estão cada vez mais invisíveis. Passamos todos os dias por moradores de rua, mas só o veremos se ele estiver morto na manchete do jornal.






