Violência contra moradores de rua em São Paulo: uma análise do discurso midiático - por Felipe Maciel

Violência contra moradores de rua em São Paulo: uma análise do discurso midiático - por Felipe Maciel

Atualizado em 11/11/2004 às 17:11, por .

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Seis moradores de rua foram assassinados, em uma série de ataques que começou do dia 19 de agosto, na região da Praça da Sé, centro de São Paulo, e deixou um total de 14 vítimas, segundo a contagem oficial da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo. Muitos deles foram levados para o hospital e faleceram sem serem identificados.

Pode não parecer, mas a questão da identidade é de suma importância na sociedade moderna. Basta lembrarmos que filósofos russos como Vigotski, Leontiev e Luria estudaram a formação psíquica dos homens, recorrendo às estruturas sociais e econômicas que o rodeiam, para analisarem os indivíduos resultantes deste processo de transformação.

Mas qual é o papel da mídia neste contexto? A imprensa na sociedade moderna deve garantir a livre manifestação da subjetividade civil, ou seja, assegurar a representatividade de sua palavra ao cidadão isolado, como são os moradores de rua assassinados em São Paulo.

O psicólogo Odair Furtado1 destaca que a relação do homem com o mundo tem sempre por intermédio a relação do homem com outros seres humanos e que sua atividade está sempre ligada à comunicação. Segundo ele, a "comunicação é a condição necessária e específica do desenvolvimento do homem na sociedade". Odair Furtado vai além e afirma: "Os meios de comunicação, as agências socializadoras (como a família, a escola, a igreja etc) e as agências controladoras (o aparato do Estado) são responsáveis pela difusão e manutenção de um quadro de valores e crenças que instituem formas de controle e auto controle que minimizam a contradição entre individualismo e massificação. Vemos como indivíduo, mas agimos como massa".

No caso dos assassinatos dos moradores de rua nota-se uma diferença. Estas pessoas estão a margem da sociedade e da mídia, já não encontram representatividade de suas palavras, de seus desejos e não podem consumir fato que em nossa sociedade capitalistas representa cidadania. Porém vejamos. Uma reportagem produzida por Paloma Cotes, Solange Azevedo e Gisela Anuante para a revista Época, publicada em 23/08, deixa claro a inexistência desta representatividade quando afirma: "Eventos isolados de violência contra essa população são registrados no país todo. Mas a maioria dos casos nem sequer é investigada. Pobres, dependentes de álcool e muitas vezes portadores de distúrbios mentais, os moradores de rua só entram na pauta das autoridades quando o escândalo é grande demais".

A mesma reportagem também nos mostra que as formas de controle e auto controle, previstas anteriormente por Odair Furtado, também ficam de lado em se tratando de moradores de rua. Fica claro que a representatividade deste cidadãos, que é que podemos dizer que são cidadãos, só acontece quando de períodos eleitorais. "O massacre opõe o Estado e a Prefeitura em momento pré-eleitoral. A prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, candidata a reeleição pelo PT, esteve no Hospital Vergueiro, onde três vítimas continuam internadas. Saiu sem dar declarações porque não quer que a discussão ganhe contornos políticos. Enquanto isso, a Secretaria Municipal de Assistência Social e a Secretaria de Segurança Pública trocam acusações".

O jornal Folha de S. Paulo procurou retratar o acontecido buscando uma explicação para o que a revista Época caraterizou como um massacre. A matéria publicada em 25/08 destaque que "o DHPP ainda não pode afirmar se a ação foi cometida por um grupo de intolerância, como os skinheads". A própria revista busca, com menos veemência do que o jornal, já que sua preocupação maior foi retratar o problema político gerado pelos assassinatos, uma explicação para o caso quando informa que "O Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), que investiga o caso, cogita as hipóteses de que o crime seja obra de gangues de extermínio, luta de grupos rivais ou ato de vândalos - como os skinheads".

Esta preocupação com grupos extremistas se faz constante, já que a discriminação encontra, em nossa sociedade as mais variadas justificativas e que sempre se baseiam em ideologias que visam justificar e perpetuar a ordem social vigente. "Na sociedade capitalista, em que se acumula bens não somente para sua reprodução, é necessário um acordo tácito entre os indivíduos, particularmente pelos mais atingidos pelas desvantagens desse processo", enfatiza Odair Furtado. Percebemos então que neste caso específico o "contrato social" foi quebrado.

Para o sociólogo Zygmunt Bauman 2, "não constitui exceção a tarefa enfrentada pelo Estado moderno ante a necessidade do espaço agora submetido à autoridade direta; ela consistia em separar as categorias e distinções especiais das práticas humanas que os poderes do Estado não controlavam".

Neste contexto, ainda podemos usar como referência à definição de identidade dada pelo também sociólogo Manuel Castelles3 . "Por identidade, entendo o processo pelo qual um ator social constrói significado principalmente com base em determinado atributo cultural ou conjunto de atributo, a ponto de excluir uma referência mais ampla a outra estruturas sociais".

Assim podemos analisar outros pontos do trabalho da mídia neste caso. O jornal "Estadão" publicou em seu site uma reportagem que remonta outro tipo de preocupação na sua linha eleitoral para retratar o terrível episódio. Os repórteres Maria Elisa Arruk, Luciana Garbin, Marcelo Godoy, Maurici Capinelli e Marinês Campos buscam saber quem são essas pessoas, o porque e como chegaram a esta situação. Com isso, a reportagem nos mostra que estas pessoas perderam, para a mídia e para a sociedade, sua referência, já que um consciência coletiva distorcida pelos valores e crenças sociais, presentes na sociedade capitalistas em que vivemos, transforma a aparência da diferença social em algo absolutamente norma.

Senão vejamos: "Com o apoio de relatos policiais, de padres e irmãs das comunidades religiosas que acolhem esta população e dos poucos parentes que aparecem par reconhecer os corpos, assim como nos depoimentos confusos e fragmentados dos moradores de ruas que conheciam as vítimas, tentamos construir o perfil dos mortos. Foi difícil. Descobrimos que, para contar a história de um morador de rua, é preciso ser um artesão, capaz de costurar uma colcha de retalhos feita de várias histórias, que transitam entre a realidade e a ficção", contam os repórteres do "Estadão".

Os jornalistas buscam analisar a origem do problema que estas pessoas enfrentam, tentando assim, justificar através da bebida e das drogas a origem desta exclusão. "Quem são estas pessoa chamadas, indiscriminadamente, de mendigos, sem-tetos, marginais ou vagabundos e, até mesmo, oportunistas? Todos não têm moradia definida, isso é certo." E desta forma buscam uma classificação homogênea para o grupo. Esta busca vai de encontro com a ilusão, retratada por Odiar Furtado, que o sistema capitalista nos insere, fazendo com que nós, para sentirmos que somos indivíduos, tenhamos consumo de massa, o que nos torna muitos parecidos uns com outros e nos exclua se não consumirmos. Desta forma, quem não lê jornal, não ouve rádio ou vê televisão não é cidadão. Não pode buscar na massa a representação de sua identidade, sua cidadania.

Este processo de exclusão se mostra constate até mesmo nas declarações das autoridades brasileiras. O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em matéria publicada em 23/08 no Correio do Povo, jornal de Porto Alegre, afirmou que os agressores dos moradores de rua estão "tomados de insanidade" e o ministro da Justiça Márcio Thomas Bastos, qualificou a ação com um desrespeito ao Estado. Se tomarmos como base a noção de indivíduo anteriormente aqui apresentada, veremos que os problemas sociais, e não os psíquicos, salvo raras exceções, são as causas da perda de representação perante a mídia e a sociedade, o que transforma as diferenças sociais em algo absolutamente normal, já que estão cada vez mais invisíveis. Passamos todos os dias por moradores de rua, mas só o veremos se ele estiver morto na manchete do jornal.