Vida de "escravigiário"
Vida de "escravigiário"
Os estagiários ficaram eufóricos com a aprovação da Lei do Estágio pelo Senado. Se a lei for aprovada pela Câmara e sancionada pelo presidente, os "focas" terão direito, pasmem, a férias. A rapaziada já deve estar fazendo planos. Parece um sonho: 31 dias por ano viajando pela Bahia, dormindo em albergue, comendo miojo e tomando litros de Guaraná Convenção. Essa idéia, é claro, deixou os editores (como eu) de cabelo em pé. "Oh, céus, quem decupará as minhas fitas?". Ocorre que nós, veteranos, já fomos estagiários. Justiça seja feita. Nunca fui chicoteado. Tão pouco intimado a passar a agenda do chefe a limpo. Ok, fitas decupei muitas, mas faz parte. No meu tempo, lembro que existia, na PUC, um "Partido da Causa Estagiária", liderado pelo pessoal do direito, mas amplamente apoiado pelos estudantes de jornalismo. A grande bandeira da época era uma Lei Áurea estudantil, algo parecido com essa Lei aprovada pelo Senado.
Assim que soube da notícia, o Estadão tratou de escrever um editorial demolidor, intitulado "Lei contra os estagiários". Diz o jornalão da família Mesquita: "O Projeto votado pelo Senado pode tornar mais difícil arranjar estagiários". Será? Mais para frente, o próprio editorial reconhece: "de fato, algumas empresas usam estagiários como mão de obra barata". A verdade é que não são apenas algumas empresas, mas quase todas. Sai bem mais em conta trocar um repórter de R$ 1500,00 (o piso para meio período) por três estagiários de R$ 300, sem carteira assinada, férias, 13º salário, vale transporte e tíquetes alimentação. Na prática, o estagiário é, portanto, um semi-escravo. E ainda é obrigado a dividir a conta com os demais repórteres quando a redação desce para o bar.
O estudante de jornalismo (que quer ser jornalista) aprende logo nos primeiros anos de faculdade como é a regra do jogo. Se não trabalhar antes da formatura, jamais conseguirá um emprego em alguma redação. Os focas são, portanto, obrigados a abrir mão do movimento estudantil, das longas férias mochileiras de verão e do prazer de passar dias inteiros estudando na biblioteca antes das provas de semiótica. A maioria entra cedo, no auge dos 20 e poucos anos, em uma roda viva eterna. Plantões, pescoções, fechamentos, coberturas intermináveis, stress, pressão, deadline. Quando o sujeito chega aos trinta anos, está cansado como um dinossauro. E ainda tem que esperar mais um bom bocado de tempo para se aposentar.
Dizem os inimigos da causa estagiária e defensores da flexibilização das leis do trabalho, que pelo menos 400 mil estagiários "poderão ser dispensados". Bobagem. Mesmo com direito a férias e 13º (que, aliás, será uma merreca no borderô das redações), os focas continuarão a ser fundamentais. Se os olhos deles já brilham mais que os nossos sem férias, imagine só depois de uma temporada na Bahia.






