Vestida para dançar
Vestida para dançar
Atualizado em 07/04/2010 às 18:04, por
Silvia Dutra.
Na minha primeira coluna aqui no Portal IMPRENSA falei sobre um assunto que me deixou pasma anos atrás. Foi provavelmente o choque cultural mais forte que já experimentei nesses anos vivendo nos Estados Unidos: saber da prática, nos dias atuais, de punição corporal nas escolas públicas americanas.
Antes de viver aqui eu não podia imaginar que isso ainda acontecesse. Meu marido e eu frequentamos escolas públicas no Brasil durante as décadas de 60 e 70, auge do período militar, e jamais sofremos, presenciamos ou ficamos sabendo de professor ou diretor algum usando uma palmatória nos alunos.
Acredito que meu avô, lá por volta de 1900, deve ter recebido golpes de palmatória, mas não lembro de meus pais jamais terem mencionado essa lembrança infeliz da vida escolar.
Pois foi exatamente isso que aconteceu pra 17 adolescentes semanas atrás numa escola pública de segundo grau aqui nos Estados Unidos. E o que motivou a punição não foi um motim em sala de aula ou alguma perturbação grave da ordem que ameaçasse a segurança de professores ou demais alunos e exigisse medidas urgentes.
O caso aconteceu em Oxford, Alabama. Era a noite da "prom", o tradicional baile de formatura que acontece semanas antes do fim das aulas e que é um evento social esperado com ansiedade por rapazes e moças prestes a terminar o colegial.
Dos 350 alunos participando da festa 18 apareceram usando roupas consideradas fora do código de etiqueta apontado pelas autoridades escolares como apropriadas para o evento. O diretor da escola, Tray Holliday, disse que pais e alunos receberam instruções três vezes, por escrito, quanto ao tipo de vestimenta que seria permitida. O código determinava que meninas não poderiam exibir decotes abaixo dos ossos da clavícula, ou seja, nada abaixo da base do pescoço. E nem usar saias ou vestidos 15 centímetros acima dos joelhos.
O não cumprimento dessas regras pelos 18 alunos foi considerado um ato de rebeldia e desafio. O cardápio da punição trazia duas opções: três dias de suspensão ou um encontro com dona palmatória, aqui chamada de "paddler" porque parece mesmo um remo de barco, em menor escala.
Somente uma aluna, Erica DeRamus, escolheu os três dias de suspensão. Os outros 17 preferiram receber as palmadas em cima da dor de serem impedidos de participar do baile tão esperado. A recusa de Erica em receber os golpes é que foi notícia nos jornais. Tivesse ela aceitado passivamente estaria tudo dentro da normalidade e o caso não receberia qualquer atenção da mídia, não sairia do âmbito escolar.
É chocante, mas não me surpreende mais. Dos 50 estados americanos 21 tem leis que permitem a punição corporal de alunos matriculados na rede pública de ensino. Treze entre esses 21, a maioria no centro e no sul, apresentam frequentes ocorrências.
Alunos -- crianças das primeiras séries até adolescentes prestes a completar o colegial -- são beliscados, sacudidos violentamente, levantados pelas roupas, cabelos e orelhas. Os motivos podem ser tão inocentes quanto fazer um comentário que desagrade ao professor ou chegar à classe alguns minutos atrasado. A palmatória é usada especialmente em negros e latinos, os alvos preferidos. Há relatos que até alunas grávidas já foram submetidas a esse procedimento humilhante e potencialmente perigoso.
Educadores e entidades civis engajados na luta para a abolição dessa prática acreditam que ela tenha relação direta com os altos índices de evasão escolar por negros e latinos, o que traz consequências nefastas para toda a sociedade e fortalecimento das tensões e esterótipos raciais. Impossível não considerar que talvez ela também seja um dos pilares da violência latente que periodicamente vem à tona nas escolas americanas em massacres e tragédias com muitas vítimas.
Há um ditado aqui que diz que é preciso ter uma mente muito boa para resistir à educação. Nesse episódio parece-me que somente Erica DeRamus não teve a inteligência e o bom senso embotados apesar dos anos passados no sistema escolar.
Foi impedida de participar do baile -- embora, em minha opinião, seu vestido não era nem um pouco escandaloso ou inapropriado -- mas aguentou firme toda a exposição que o caso recebeu da mídia e as críticas que certamente deve ter ouvido dos colegas e do pessoal da escola por ter criado problemas, por ter balançado o barco.
Os demais alunos parecem que deixam a High School moldados para aguentar sem reação ou reclamação todos os abusos e violências que certamente virão pela frente, na universidade e no mercado de trabalho. Há algo de muito errado num sistema escolar que não estimula o senso crítico de seus alunos e forma tantas vaquinhas de presépio, prontas a balançar a cabeça sempre concordando, concordando, mesmo com regras e práticas ultrapassadas, injustas e absurdas.
Antes de viver aqui eu não podia imaginar que isso ainda acontecesse. Meu marido e eu frequentamos escolas públicas no Brasil durante as décadas de 60 e 70, auge do período militar, e jamais sofremos, presenciamos ou ficamos sabendo de professor ou diretor algum usando uma palmatória nos alunos.
Acredito que meu avô, lá por volta de 1900, deve ter recebido golpes de palmatória, mas não lembro de meus pais jamais terem mencionado essa lembrança infeliz da vida escolar.
Pois foi exatamente isso que aconteceu pra 17 adolescentes semanas atrás numa escola pública de segundo grau aqui nos Estados Unidos. E o que motivou a punição não foi um motim em sala de aula ou alguma perturbação grave da ordem que ameaçasse a segurança de professores ou demais alunos e exigisse medidas urgentes.
O caso aconteceu em Oxford, Alabama. Era a noite da "prom", o tradicional baile de formatura que acontece semanas antes do fim das aulas e que é um evento social esperado com ansiedade por rapazes e moças prestes a terminar o colegial.
Dos 350 alunos participando da festa 18 apareceram usando roupas consideradas fora do código de etiqueta apontado pelas autoridades escolares como apropriadas para o evento. O diretor da escola, Tray Holliday, disse que pais e alunos receberam instruções três vezes, por escrito, quanto ao tipo de vestimenta que seria permitida. O código determinava que meninas não poderiam exibir decotes abaixo dos ossos da clavícula, ou seja, nada abaixo da base do pescoço. E nem usar saias ou vestidos 15 centímetros acima dos joelhos.
O não cumprimento dessas regras pelos 18 alunos foi considerado um ato de rebeldia e desafio. O cardápio da punição trazia duas opções: três dias de suspensão ou um encontro com dona palmatória, aqui chamada de "paddler" porque parece mesmo um remo de barco, em menor escala.
| Reprodução |
| Erica DeRamus |
É chocante, mas não me surpreende mais. Dos 50 estados americanos 21 tem leis que permitem a punição corporal de alunos matriculados na rede pública de ensino. Treze entre esses 21, a maioria no centro e no sul, apresentam frequentes ocorrências.
Alunos -- crianças das primeiras séries até adolescentes prestes a completar o colegial -- são beliscados, sacudidos violentamente, levantados pelas roupas, cabelos e orelhas. Os motivos podem ser tão inocentes quanto fazer um comentário que desagrade ao professor ou chegar à classe alguns minutos atrasado. A palmatória é usada especialmente em negros e latinos, os alvos preferidos. Há relatos que até alunas grávidas já foram submetidas a esse procedimento humilhante e potencialmente perigoso.
Educadores e entidades civis engajados na luta para a abolição dessa prática acreditam que ela tenha relação direta com os altos índices de evasão escolar por negros e latinos, o que traz consequências nefastas para toda a sociedade e fortalecimento das tensões e esterótipos raciais. Impossível não considerar que talvez ela também seja um dos pilares da violência latente que periodicamente vem à tona nas escolas americanas em massacres e tragédias com muitas vítimas.
Há um ditado aqui que diz que é preciso ter uma mente muito boa para resistir à educação. Nesse episódio parece-me que somente Erica DeRamus não teve a inteligência e o bom senso embotados apesar dos anos passados no sistema escolar.
Foi impedida de participar do baile -- embora, em minha opinião, seu vestido não era nem um pouco escandaloso ou inapropriado -- mas aguentou firme toda a exposição que o caso recebeu da mídia e as críticas que certamente deve ter ouvido dos colegas e do pessoal da escola por ter criado problemas, por ter balançado o barco.
Os demais alunos parecem que deixam a High School moldados para aguentar sem reação ou reclamação todos os abusos e violências que certamente virão pela frente, na universidade e no mercado de trabalho. Há algo de muito errado num sistema escolar que não estimula o senso crítico de seus alunos e forma tantas vaquinhas de presépio, prontas a balançar a cabeça sempre concordando, concordando, mesmo com regras e práticas ultrapassadas, injustas e absurdas.






