Versos de fato, por Igor Ribeiro
Versos de fato, por Igor Ribeiro
Não gostava muito da Carmem Miranda. Outro dia desfiei um pouco dessa antipatia no editorial de uma revista especial sobre bossa nova que editei em junho, ainda antes de vir para a revista IMPRENSA. Escrevi que a cultura mitificada pela Carmem hoje é "considerada menos autêntica" que a da bossa, gênero que teria deixado o Brasil um pouco mais "livre de estereótipos" - referindo-me à famosa batucada, malandragem do morro, bananas e abacaxis. Nada contra o repertório da Pequena Notável, mas essa imagem que propagou em Hollywood sempre me incomodou um pouco.
No entanto, adoro a Ná Ozzetti, que por sua vez adora a Carmem Miranda. Portanto me vi "forçado", num fim de semana desses, a assistir ao novo show da cantora paulista, "Balangandãs", com repertório totalmente dedicado à nossa primeira brazilian bombshell. Passaram-se menos de 10 minutos de espetáculo para eu torcer a língua. As composições de mestres como Assis Valente, Ary Barroso João de Barro são deliciosas de se ouvir. Para melhorar, a banda que acompanha a cantora reúne músicos excepcionais - Dante Ozzetti, Mário Manga, Zé Alexandre Carvalho e Sérgio Reze -, que fazem releituras fantásticas dessas velhas canções, modernizando-as sem deixarem escapar o brilho e a alma de suas versões originais. Diante de tantos superlativos, admito que me deu um estalo um tanto quanto óbvio: por mais estereotipada que fosse, Carmen Miranda era muito inteligente por trabalhar com aqueles compositores.
O lastro histórico de diversas canções dessas é evidente. Fornecem detalhes saborosos sobre o cotidiano daquele começo de século 20, como a popularização do carro ("Fon-Fon"), a vida noturna ("Ao Voltar do Samba") e o nascimento dos blocos de Carnaval ("Camisa Listrada"). Também é interessante o caráter jornalístico de algumas delas. Na segunda canção, "Recenseamento" (Assis Valente), a letra tem cara de reportagem: "Em 1940 lá no morro começaram o recenseamento/ E o agente recenseador esmiuçou a minha vida/ que foi um horror/ (...)A nossa casa não tem nada de grandeza/ nós vivemos na fartura sem dever tostão/ Tem um pandeiro, um cavaquinho, um tamborim/ um reco-reco, uma cuíca e um violão". Outra é a clássica "Disseram que Eu Voltei Americanizada", que Luiz Peixoto e Vicente Paiva compuseram sob encomenda de Carmen, hostilizada no Cassino da Urca ao voltar de uma temporada de sucesso nos Estados Unidos. A famosa letra diz "Que eu sei certo zum zum/ Que já não tenho molho, ritmo, nem nada/ E dos balangandans já não existe mais nenhum/ Mas pra cima de mim, pra que tanto veneno/ Eu posso lá ficar americanizada/ Eu que nasci com o samba e vivo no sereno". Praticamente uma réplica rimada e super-espirituosa a uma boataria que hoje faria o maior sentido como pauta de uma revista sobre celebridades.
Questiono se a música brasileira tem, de forma geral, feito um retrato de nosso tempo atual aliando tão genialmente arte e informação. Duvido. Há muita gente boa por aí compondo lindas poesias. Mas tenho a impressão de que essa característica "falada" ou "reportada" tem se diluído, principalmente se adicionarmos à equação um expoente qualitativo. Os artistas-repórteres de nossa geração estão concentrados nos livros, nas produtoras de cinema, nos palcos e nas artes-plásticas. É uma sensação que carece de dados mais concretos, mas como consumidor cotidiano de cultura, sinto falta de canções que façam um retrato afiado e afinado do Brasil. Talvez fosse uma obrigação única da mídia? Duvido novamente. Produzir cultura com lampejos jornalísticos e fazer jornalismo com temperos artísticos podem ser experiências fabulosas. Carmen Miranda e seus comparsas estão aí para lembrar que arte também rima com realidade.






