Verdades Inventadas

Verdades Inventadas

Atualizado em 17/03/2011 às 16:03, por Silvia Dutra.

Amei saber que a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) começou a transmitir essa semana uma radionovela chamada " ", que vai contar em 35 capítulos as aventuras da adolescente Laura. Essa aluna aceita a proposta de um professor e mergulha num universo imaginário. E lá encontra e conversa com grandes nomes da Ciência e da Literatura como Isaac Newton, Charles Darwin e Julio Verne.
O professor do Departamento de Física, Adilson Oliveira, coordenador do projeto, conta que " " é uma produção do Laboratório Aberto de Interatividade da UFSCar, que recebeu apoio da Rádio UFSCar e da Fundação de Apoio Institucional para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico. A realização da radionovela só foi possível porque o projeto recebeu o prêmio Roquette Pinto, de 20 mil reais, dado pela Associação das Rádios Públicas do Brasil e também houve um patrocínio da Petrobras e do Ministério da Cultura. Cerca de 40 profissionais, das mais diversas áreas (biólogos, físicos, jornalistas, atores, narradores, dubladores, técnicos de som e informática) trabalharam para criar e executar um roteiro que apresenta a ciência e os avanços tecnológicos de uma forma correta porém leve, atraente e de fácil entendimento para leigos de todas as idades.
Cada capítulo poderá ser ouvidos em dois horários pelos habitantes de São Carlos e região através da rádio 95,3 FM. Quem não mora lá pode ouvir pelo ou ainda acessando o . O capítulo final deve ir ao ar no começo de maio.
Ouvi dois episódios e fiquei maravilhada. Não só pela qualidade da produção mas, principalmente, pela mistura tão interessante que o pessoal da UFSCar fez entre algo do passado, as radionovelas, e mídias tão atuais como a Internet e os blogs. E tudo isso para divulgar conhecimentos, interessar mais pessoas em assuntos relacionados às Ciências e Tecnologias. Para mim foi uma viagem pela alameda da memória, uma volta ao passado.
Lembrei da época em que eu era criança, no interior do Estado de São Paulo, e via diariamente uma prima, Valda, fazer seus afazeres domésticos ouvindo radionovelas. Em algumas passagens eu observava que ela fechava os olhos, como para ouvir melhor. Tanto ela, já adulta, quanto eu, menina nos meus 9, 10 anos, deixávamos a imaginação correr solta com os sons dos dilemas dos personagens, seus diálogos, lágrimas, suas vozes carregadas de ódio, amor, ciúmes, as mais variadas emoções. Lembro que a prima sempre tinha um gesto de descontentamento quando ouvia o narrador da história indicar o fim daquele capítulo e fazer as perguntas que fermentariam a nossa curiosidade, dela e minha, para o seguimento do folhetim: "conseguirá fulana convencer sicrano que ele está sendo vítima de uma conspiração de beltrana? Ou beltrana será capaz de enganar sicrano mais uma vez? Descubra amanhã, neste mesmo horário".
Não lembro evidentemente dos nomes dos personagens, nem das novelas. Mas lembro do quanto me parecia real o barulho do vento, da chuva, de tiros, tapas, beijos e passos. E portas que se abriam ou fechavam, cartas sendo abertas ou amassadas em fúria e a infalível música de fundo que permeava cada episódio. E que subia ou descia de volume, regulando a dramaticidade e o suspense da cena. Era uma experiência sensorial bastante envolvente e interessante que não me escapava, apesar de minha pouca idade na época. E que eu nem imaginava que houvesse me marcado tanto. Entretanto todas essas lembranças e sentimentos voltaram de repente ontem, quando ouvi as " " produzidas pela UFSCar.
Anos depois, eu já adolescente, na década de 70, ouvia fascinada as "Historinhas Radiofonizadas", grande sucesso de uma rádio de Bauru. Eram breves peças radiofônicas , a maioria com enfoque humorístico, sobre acontecimentos policias recentes e bizarros. Produzidas por uma emissora pequena, de poucos recursos, esse radioteatro era engraçadíssimo e geralmente contava estórias verídicas de brigas entre maridos e mulheres, desavenças entre vizinhos, pequenos golpes ou acidentes de trânsito etc. A sonoplastia e o narrador eram impagáveis, e sempre havia barulho de pratos quebrando, carros batendo, confusões, bate-bocas e a sirene policial que começava ao longe e vinha num crescendo, aumentando a comicidade da coisa. Eu não perdia uma e sinto saudades daquele humor inocente, criativo, cheio de humanidade e verdade, sem apelos eróticos ou outros truques baratos. Era informação verdadeira, baseada em Boletins de Ocorrências coletados em delegacias de Bauru, misturada com diversão da melhor qualidade. Que saudade!
Para quem não sabe, as radionovelas já foram a principal fonte de diversão para muitas pessoas no Brasil e em outros países. E alcançavam enorme sucesso e uma legião de ouvintes no início do século passado, especialmente durante as décadas de 30, 40 e 50, antes da popularização da televisão.
Grandes nomes da televisão e da dramaturgia brasileira (Nelson Rodrigues, Paulo Gracindo, Janete Clair, Dias Gomes, Ivani Ribeiro, Oduvaldo Viana, Mário Lago, Lima Duarte, entre outros) começaram suas carreiras no rádio, escrevendo ou interpretando radionovelas. Não vou me alongar sobre os primórdios desse gênero que depois migrou e foi adaptado para a televisão e que até hoje, apesar de tantas mudanças sociais e tecnológicas, continua fascinando milhares de pessoas diariamente. E dá empregos e gera riquezas, além de ser um dos produtos mais apreciados que o Brasil exporta para tantos países. Quem quiser maiores informações sobre as radionovelas, mãe esquecida e desprezada das telenovelas, pode facilmente conseguí-las pela Internet.
O que me interessa nesse artigo é falar sobre a importância dessa iniciativa da UFSCar no resgate e repaginação desse gênero, adaptando-o às tecnologias atuais. Acho também essencial ressaltar que " " vai na contramão da supremacia do visual sobre os demais sentidos. E faz isso com grande competência, apesar da idade média da equipe de seus criadores estar entre 20 e 30 anos, portanto gente jovem, nascida já na era da televisão e que fez um excelente trabalho de pesquisa e produção.
Acredito que a grande riqueza de " " reside nisso e na valorização de temas relacionados à Ciência e à Literatura, enquanto os autores das mais recentes telenovelas repetem e reciclam ad infinitum temas e truques desgastados, previsíveis. Ou exploram um erotismo vulgar, reforçando estereótipos. Ou ainda investem em remakes pobres e falsos de sucessos do passado, que não convencem nem divertem nem emocionam mais ninguém. E ganham muito dinheiro para fazer isso e insultar a inteligência do público, por meses a fio.
Numa telenovela sobra pouco espaço para a imaginação de quem assiste. Aquilo que o escritor criou já foi processado por uma série de profissionais e chega pronto à tela do espectador: a casa dos personagens, suas vozes, rostos, personalidades, roupas, trejeitos, os cenários onde a trama se desenrola, tudo está lá já acabado, em formato definitivo. Outros elementos que poderiam enriquecer ou adicionar nuances de sutileza à trama, como a música e sons ambientes, acabam se tornando secundários. Muitas vezes passam até despercebidos, porque a imagem reina absoluta. E tanto estímulo e poluição visual acaba pasteurizando tudo, empobrecendo a experiência. Todos consomem a mesma coisa, sempre.
Já nas radionovelas a imaginação de cada ouvinte é fortemente exercitada. O rádio e a radionovela possuem esse poder de criar sensações absolutamente individuais, atingindo cada pessoa em seus mais íntimos sentimentos, de acordo com suas personalidades e características únicas. A radionovela não é feita de imagens, como as telenovelas, mas de cenas e personagens imaginados por cada um, construídos com o apoio de repertórios sonoros extremamente ricos.
Acredito que deve fazer bem para o cérebro, como um bom livro faz bem para o espírito, dando acesso à fantasia e estimulando a criatividade. Qualquer história, quando bem escrita, contada e interpretada pode deixar de ser ficção e se transformar numa verdade convincente, ainda que temporária e inventada. E isso o pessoal da UFSCar provou que sabe fazer, e muito bem. Parabéns para eles.