Velha língua, por Thaís Naldoni

Invariavelmente tenho dó da língua portuguesa. Deve ser muito duro ser morta aos poucos, dia a dia, por mau uso. Não, não é falta de uso, é mau uso mesmo.

Atualizado em 29/12/2015 às 14:12, por Thaís Naldoni.

Opiniões, piadas, críticas – muitas críticas – desabafos, revanchismos...tudo isso abusando o be-a-bá que aprendemos – ou não – nas escolas.


Se na linguagem falada não sabemos se a pessoa usa “s” ou “c” quando nos conta estar “ansioso” esperando por alguma coisa ou se está “em cima” ou “emcima” de algo, quando se escreve fica evidente o grau de desconhecimento da língua. Chega a dar nos nervos cada palavra mal colocada, cada vírgula inexistente, cada letra trocada. Realmente, nunca nos expressamos tanto, e tão mal.


No mundo das hashtags, da opinião rasa, dos textos curtos – curtos não, micros – a beleza do português bem escrito fica de lado. Lemos versões e mais versões de uma língua que de tão complexa, torna-se simples. Tive uma professora nos anos dourados do colegial que dizia: “Escreva. Se a palavra estiver feia, está errada.” Nunca mais esqueci. O português é uma língua estética.


Não, não sou professora de português, nem tenho formação em letras, mas sou uma apaixonada pela boa escrita. Sempre que estou com estudantes de comunicação, prego a necessidade de que o jornalista que está prestes a entrar no mercado de trabalho seja fluente em leitura e escrita em português. De que me adianta um repórter poliglota que não sabe a diferença entre “mas” e “mais”?


Façam essa experiência: naveguem no feed de notícias de seu Facebook atentamente. Durante cinco minutos, listem o número de palavras escritas erradas que você encontrar. Fiz meu exercício por aqui e em uma batida de olhos encontrei “onra” (honra), “esperanssa” (esperança) e “percepeção” (percepção).


Há várias cruzadas nas redes sociais, pelos mais diversos motivos. Empunho, então, a causa da escrita. Caso não nos recuperemos em tempo, logo mais a grafia de certas palavras terá sido escrita errada tantas vezes, que o forma certa vai ficar com vergonha de aparecer...aí, adeus à boa escrita, adeus ao prazer da leitura, adeus... o português definha e nós, leitores, é que perdemos a referência.


Levanto, pois, nessa última IMPRENSA do ano 2015 e primeira de 2016, o movimento #salvemoportuguês, por um mundo menos “ancioso”, menos “menas”, menos “perca”, com mais fluência e sabedoria. Feliz Velho Português Novo!