"Veja" omite carta do instituto Ipsos Opinion que contradiz sua reportagem

"Veja" omite carta do instituto Ipsos Opinion que contradiz sua reportagem

Atualizado em 23/07/2005 às 11:07, por Fonte: vermelho.org.br:.


A revista "Veja", em sua edição do último dia 20 de julho, deixou de publicar uma correspondência enviada à sua redação pelo instituto Ipsos Opinion, autor da pesquisa que consta da capa da sua edição anterior. A correspondência contém uma análise da pesquisa sobre a popularidade de Lula que contradiz a reportagem de capa da revista.
Nessa edição, de 13 de julho, "Veja" estampou na capa que 55% das pessoas entrevistadas pelo instituto Ipsos teriam respondido que Lula saberia do suposto mensalão.
Uma cópia da carta não publicada pela revista foi enviada pela assessoria de comunicação do Ipsos ao deputado federal Dr. Rosinha (PT-PR). Na última semana, o parlamentar petista havia denunciado uma série de ligações entre o Ipsos e o PSDB.
No documento, o instituto revela ter uma interpretação diferente daquela que foi feita por "Veja" a respeito dos dados de sua pesquisa.
"A revista deu a sua interpretação [sobre os dados]", diz trecho da correspondência. "Achamos importante mostrar a análise de nossos especialistas, por não termos tido oportunidade de tê-la publicada na reportagem."
A reportagem de capa da revista insinuava que Lula teria perdido o apoio popular após as denúncias de um suposto esquema de pagamento de mesadas a deputados. "A crise derrubou o apoio da população ao presidente", chegou a concluir a revista.
"Os dados mostram que os escândalos não tiveram um efeito negativo sobre o presidente Lula", rebate o Ipsos na carta não publicada por "Veja". "Lula está "blindado"."
De acordo com o próprio instituto, outras pesquisas teriam reforçado a mesma conclusão. "Tanto sua imagem [de Lula] pessoal, quanto administrativa, ficaram estáveis nos últimos tempos."

Discrepância

Além de não publicar a carta enviada pelo instituto, a edição seguinte de "Veja" reproduz uma frase do prefeito de São Paulo, José Serra (PSDB), que provoca Dr. Rosinha e, indiretamente, faz a defesa da revista. "O Doutor Rosinha ficou bravinho com uma pesquisinha", diz trecho da frase, citada na seção da revista intitulada "Veja essa".
Com base nos resultados da pesquisa, "Veja" defende a tese de que Lula deveria desistir da reeleição.
Do total de entrevistados pelo Ipsos, 55% teriam respondido que Lula saberia do suposto mensalão. Dias depois, pesquisa da CNT/Sensus mostraria um percentual de 33,6% para a mesma pergunta -uma diferença de quase 22 pontos percentuais.
"A discrepância [entre a Ipsos e a CNT/Sensus] pode ser atribuída às diferenças de metodologia e à margem de erro", alega a edição mais recente da revista, sem, no entanto, elencar quais seriam tais "diferenças".
"As últimas edições da "Veja" revelam um tipo de jornalismo parcial e golpista", avalia Dr. Rosinha. "Apesar do fato de Lula ter mantido o mesmo modelo econômico de FHC, os tucanos e parte da imprensa estão ávidos por um golpe."

Outro lado
A assessoria do deputado federal Dr. Rosinha entrou em contato a redação da "Veja". O jornalista Júlio Cesar de Barros, que edita a seção de cartas da revista, negou ter recebido a correspondência da Ipsos. Mas, estranhamente, admitiu ter "ouvido falar" da carta.
"Pois é, ouvi falar dessa carta, mas não recebi, não", disse Barros. "Vou dar uma verificada."
A assessoria de Dr. Rosinha se dispôs então a encaminhar uma cópia do e-mail enviado pelo Ipsos. O editor de "Veja" disse que não seria necessário. "Deve ter sido enviada, sim. Vou saber disso."
Cláudia Rezende, assessora de comunicação do instituto, revelou ao próprio deputado Dr. Rosinha, por telefone, que a carta à "Veja" fora enviada já na semana passada. Uma cópia foi repassada ao parlamentar petista após a constatação que de a revista omitira o documento.

Abaixo, a íntegra da correspondência enviada na semana passada à "Veja", mas não publicada pela revista:

À Revista Veja,

A Ipsos Opinion enviou à Revista Veja, na semana passada, dados de pesquisa de opinião pública, de propriedade da própria Ipsos, sobre os quais a revista deu sua interpretação.
Porém, achamos importante mostrar novamente a análise de nossos especialistas sobre aqueles dados, por não termos tido oportunidade de tê-la publicada na mesma reportagem:
"Os dados mostram que os escândalos não tiveram um efeito negativo sobre o presidente Lula, mas sobre a imagem do PT. Até este momento Lula está "blindado". Outras pesquisas da Ipsos Opinion reforçam essa mesma conclusão, ao mostrar que tanto sua imagem pessoal, quanto administrativa, ficaram estáveis nos últimos tempos.
A imagem administrativa de Lula está sendo sustentada pela imagem pessoal dele (como o grande interlocutor do povo, aquele que "entende os problemas dos pobres") e pela sua política econômica de combate à inflação.
Assim, até esse momento, a opinião pública não está associando os problemas do PT com o presidente Lula e sua imagem não depende, nesse momento, do PT.

Atenciosamente,

Ipsos Opinion