Veículos russos independentes apostam em formas alternativas de acesso a seu conteúdo

Aprovada pelo parlamento russo na sexta-feira, 4 de março, a nova lei que prevê censura e penas de prisão de até 15 anos para quem for acusado pelo governo de propagar notícias falsas não deve conseguir silenciar totalmente os sites de notícias e veículos de imprensa independentes que operam no país.

Atualizado em 09/03/2022 às 15:03, por Redação Portal Imprensa.


Enquanto órgãos como o Serviço Russo da BBC anunciaram que continuarão transmitindo da Rússia, outras "vozes inimigas" que tiveram seus sites bloqueados pelo governo começaram a aconselhar o público a acessar o conteúdo de formas alternativas, como aplicativos de celular e até mesmo o The Onion Network - ou TOR, como é chamado o software livre e de código aberto que proporciona comunicação anônima na Internet, protegendo contra a censura. Crédito: Gregory Stein / Shutterstock Dimitry Muratov, do Novaya Gazeta: se pararmos, nossos filhos ficarão com uma versão falsa da realidade

Por enquanto poucos usuários estão familiarizados com essa tecnologia, cujas instruções de uso estão disponíveis nas redes sociais. O problema é que Facebook, YouTube e Twitter também foram bloqueados na Rússia. Mas, à medida que os russos se acostumam com o “novo normal”, acredita-se que o uso de TOR e de apps para consumo de conteúdo jornalístico livre de censura possa crescer, assim como o acesso a redes sociais via VPN.

Suspensão de operações

Poucos dias após a entrada em vigor da nova lei de mídia russa, organizações internacionais de notícias como BBC News, Bloomberg, CNN International, ABC News, Rai TV e Financial Times suspenderam suas operações na Rússia.
Para muitos, a censura aos veículos de notícias lembra os tempos de União Soviética. Os dois principais meios de comunicação independentes do país, Ekho Moskvy e TV Rain, foram fechados pelas autoridades. Dentre os veículos com menos público, muitos decidiram fechar por conta própria, temendo prisões e processos.
O último grande meio de comunicação independente restante é o Novaya Gazeta, cujo editor-chefe, Dmitry Muratov, ganhou o Prêmio Nobel da Paz de 2021 por sua defesa da liberdade de expressão. Seguindo a nova lei, o veículo não tem usado a palavra “guerra” em sua cobertura da invasão.
Em lugar dela, a nova lei russa determina o uso pelos veículos de imprensa do termo “operação especial”, cujo único propósito publicável é o de "cumprir as obrigações da Rússia para com a República Popular de Donetsk e a República Popular de Luhansk". Caso qualquer outro objetivo seja atrelado à guerra por um jornalista ou veículo de imprensa, ele será duramente processado.
Também ilegais tornaram-se relatos de bombardeios e uso de artilharia pesada em áreas residenciais, além de qualquer conteúdo que possa desacreditar o exército russo, incluindo fotos ou vídeos.
Em nenhuma democracia, obviamente, é ilegal publicar a palavra "guerra" ou associar o conflito a objetivos diferentes dos impostos pelo Kremlin. Mesmo assim, advogados têm aconselhado meios de comunicação, jornalistas e cidadãos russos a remover tudo o que postaram em redes sociais que possa ser interpretado como contra a lei, principalmente menções à guerra e slogans anti-guerra.
Em uma carta aos leitores publicada horas antes da entrada em vigor da nova lei, os jornalistas do Novaya Gazeta resumiram assim a censura a eles imposta e a importância de buscar alternativas para continuar trabalhando.
“Nós estamos correndo o risco de ficar presos 15 anos em campos de trabalho por divulgar informações falsas. Informações falsas são dados sobre prisioneiros, vítimas e bombardeios de civis na Ucrânia. Dizem-nos para aceitar, que nada disso está acontecendo. No entanto, além de nós e mais algumas equipes de notícias, não há mais ninguém para fazer reportagens na Rússia. Então vamos ficar aqui até o fim. Nunca divulgaremos a imagem da realidade fornecida pelo Ministério da Defesa russo. Temos que registrar para as gerações futuras pelo menos alguns esboços do que está acontecendo, caso contrário nossos filhos ficarão com nada além de uma história falsa. À meia-noite do dia 5 de março, estamos desistindo das reportagens para evitar processos criminais”.