Veículos impressos de esquerda se mantêm com doações e fascículos
Manter um jornal ou revista que defenda assumidamente uma visão política de esquerda é difícil, mas pode render projetos duradouros. Bons exemplos são do jornal semanal Brasil de Fato , que completou 10 anos de circulação neste ano com 550 edições; e da revista mensal Caros Amigos , que tem 16 anos e chega à edição 200 em novembro.
Atualizado em 23/09/2013 às 17:09, por
Maurício Kanno.
Crédito:Reprodução "Caros Amigos" completa caixa com fascículos e edições especiais
O curioso é que essa jornada de existência do Brasil de Fato se identifica com o período do governo do Partido dos Trabalhadores (PT) no Brasil. Mas, Nilton Viana, editor-chefe do periódico desde sua fundação, diz que isso foi uma coincidência. “O lançamento da publicação já estava em preparação dois anos antes, com arrecadação de recursos e reuniões de mais de cem pessoas, entre militantes, artistas e intelectuais”, relata.
Apesar de comemorar a chegada ao poder de um operário com histórico na militância de esquerda 25 dias antes do lançamento do jornal, Nilton lamenta que, ao longo de duas gestões de Luiz Inácio Lula da Silva e na continuidade de Dilma Rousseff “não houve democratização das verbas públicas de publicidade, que vão em milhões para os grandes meios, de modo que os alternativos seguem padecendo sem recursos”.
A Caros Amigos , mais antiga, diz que foi na entrada do governo Lula que, aparentemente de modo paradoxal, sua situação foi ficando mais difícil, pois houve um “boom” de comunicação, mas também um racha na esquerda e na base de leitores da revista. “Éramos a única voz contra o projeto neoliberal dominando a mentalidade da época [do governo PSDB], então concentrávamos a esquerda brasileira”, explica Pedro Nabuco, responsável por circulação e projetos especiais da publicação.
Desse modo, apesar de neste último ano a Caros Amigos ter uma tiragem média de 30 mil exemplares, sua maior tiragem foi em 2002, de 45 mil exemplares. Nabuco diz que uma parcela dos leitores queria que a revista se posicionasse contra, outros a favor de medidas do governo Lula, como a reforma previdenciária, que teria sido a época das primeiras divisões. E Viana destaca a passagem do primeiro para o segundo mandato do ex-presidente como a principal época em que esses rachas mais ocorreram e que também afetaram o jornal.
Crédito:Reprodução
Jornal disse que ascensão do PT ao governo não facilitou atuação Financiamento O maior desafio das publicações é mesmo a questão financeira. O jornal Brasil de Fato tem como base de verbas aproximadamente 40% por venda em bancas; e 25 a 30% de assinaturas; mas também entre 30 a 35% de doações de organizações de movimentos sociais. Exemplos delas seriam pastorais sociais e cooperativas de movimentos sem terra.
A Caros Amigos também não se sustenta sozinha, explica Nabuco. “Em parte por nosso posicionamento político, historicamente não conseguimos anúncios publicitários das marcas para obter recursos para a revista, apesar de termos tentado por anos.”
Assim, a revista complementa seus recursos com outras publicações, como coleções de fascículos. São volumes sobre rebeldes brasileiros, ditadura militar, história dos negros no Brasil e grandes cientistas do país. E há também seis edições temáticas anuais da revista, a última sobre educadores no Brasil.
Transformações A Caros Amigos se transformou bastante ao longo de sua história. Nabuco conta que ela nasceu como uma revista autoral, concentrada em uma grande entrevista e colunistas. Mas “esse formato foi se cansando, em parte devido ao esgotamento de personalidades para se ter como entrevistas que sustentassem as edições”, diz ele.
Desse modo, por volta de 2009, reportagens foram adquirindo mais destaque ao invés das clássicas entrevistas. Além disso, a equipe da redação mudou completamente quatro vezes, assim como o projeto gráfico da revista.
Já no Brasil de Fato , Viana destaca 2005, quando o total de páginas foi reduzido pela metade por um ano, foi feito um ajuste de contas e uma reformulação significativa do projeto gráfico. Ano passado, foi feita nova mudança do projeto gráfico, na edição 500.
Além disso, desde maio deste ano, versões locais, gratuitas, em formato tabloide e semanais – mesma periodicidade da versão nacional –, estão sendo publicadas, primeiro no Rio de Janeiro, com 100 mil exemplares – a versão nacional possui tiragem de 50 mil – e depois em outras capitais: Belo Horizonte e São Paulo, onde começou há duas semanas.
Há também em andamento o projeto de criar versão de celular para o jornal, que deve sair nos próximos dois ou três meses. A Caros Amigos também afirma que deve ficar pronto para os próximos meses a "Caros Amigos Digital", versão da revista para smartphones e tablets.
Procurada, a revista CartaCapital preferiu não se manifestar sobre o assunto. O portal Carta Maior não respondeu.





