Veículos especializados em boas notícias se profissionalizam e ganham relevância

Os principais portais de notícias estavam tomados por manchetes sobre a Copa do Mundo naquele 14 de junho, quando uma chamada em específico saltava aos olhos na home do jornal Folha de S.

Atualizado em 08/07/2014 às 11:07, por Danúbia Paraizo.

Paulo. A história do taxista Adílson Luiz da Cruz foi uma das mais lidas e compartilhadas naquele sábado. No Facebook, a notícia foi compartilhada por quase 70 mil pessoas, um recorde das últimas semanas. Mas, o que havia de tão especial para atrair tanta curiosidade? Seria mais um assassinato? Assalto? Acidente de trânsito? Não exatamente.
O taxista são-paulino virou notícia depois de devolver quarenta ingressos para os jogos da Copa do Mundo encontrados no banco de trás de seu automóvel, na madrugada do dia 13 de junho. Adílson contou ao jornal que teve criação simples, mas rígida, e que ao longo dos nove anos de profissão, devolveu inúmeros pares de óculos, carteiras, celulares, entre outros objetos deixados por passageiros distraídos. Com esforço, descobriu que os tickets pertenciam a dois mexicanos que havia transportado, dos quais se lembrava apenas do primeiro nome de um deles: Ulisses.
Crédito:Arquivo Pessoal Rinaldo de Oliveira é editor do site Só Notícia Boa A alegria no momento do reencontro era evidente. "Juntou um bando de gente em volta de mim. Começaram a me abraçar, pulando comigo. Fiquei feliz, ajudei a transmitir uma imagem positiva do meu país", disse o taxista, que recebeu milhares de elogios nas redes sociais. Apesar da surpresa de muitos leitores, o caso não espanta o jornalista Rinaldo de Oliveira, editor do site Só Notícia Boa. Desde 2011, o veículo se dedica a mostrar apenas histórias positivas que acontecem em todo o mundo. “A verdade é que ninguém aguenta mais tanta notícia ruim. Mais de 90% dos telejornais são crimes, catástrofes, desastres, roubalheira, violência e morte”, lamenta o profissional, que também apresenta o jornal “Band Cidade”, em Brasília.
Tendência em países na Europa, Estados Unidos e Canadá, os veículos especializados nas good news ou positive news também chegam aos poucos ao Brasil. Depois de criar a editoria nas suas operações no exterior, dentro de poucas semanas será a vez do site Brasil Post, versão brasileira do Huffington Post, apostar em uma seção específica para as boas notícias. “É uma editoria importante, faz parte da nossa estratégia de negócio. No Brasil, a gente não abriu a seção logo na largada porque temos uma operação pequena, que vem ganhando corpo pouco a pouco. Mas, as boas notícias estão na nossa mira”, explica Ricardo Anderáos, diretor de jornalismo da operação brasileira.
Audiência e relevância Engana-se quem imagina que os veículos dedicados ao good news enxergam o mundo com óculos cor-de-rosa. Muito pelo contrário. Seus repórteres também procuram manter a objetividade jornalística, mas buscam um equilíbrio no noticiário. Geri Weis-Corbley, editora do site norte-americano Good News Network, explica que combina hard news com soft news na home do veículo, a diferença é o viés positivo. As editorias populares são meio ambiente, tecnologia e saúde. No ar desde 1997, o portal atrai uma média 25 mil leitores por mês.
“Eu comparo as notícias ruins ao fast food. Se a criança só recebe sanduíches, doces e batatas fritas todos os dias, ela será programada a só gostar disso. Por outro lado, se oferecerem a ela uma variedade de alimentos, ela vai acabar escolhendo outros produtos, quem sabe verduras e frutas com mais frequência”.
Crédito:Divulgação Geri Weis-Corbley é editora do site Good News Network Com uma década de experiência como produtora da rede de TV CNN, Geri decidiu abrir seu próprio veículo de notícias, mas oferecendo um cardápio de informação mais variado às pessoas. Apostou em um terreno bastante novo há 14 anos e, desde então, o Good News Network foi conquistando audiência. O site deu um salto em 2001, logo após o atentado terrorista às Torres Gêmeas, em Nova York. À época, as pessoas buscavam desesperadamente boas notícias na internet, quando encontraram o Good News Network.
“Não estou dizendo que a gente tem que parar de dar notícia ruim. Se ela é relevante, tem que dar. Mas, da mesma forma que você dá espaço para um criminoso que esquartejou um zelador, é possível dar espaço também para a história de alguém que salvou uma vida”, defende Rinaldo.
Há sete anos no ar, o programa “Good News”, da RedeTV!, tem se dedicado a promover esse equilíbrio de informação. Apresentado pela jornalista Cláudia Barthel, a atração tem formato de documentário e traz aos sábados, além das pautas sobre meio ambiente e sustentabilidade, matérias sobre o chamado “empreendedorismo verde”. “No 'Good News' temos a oportunidade de mostrar os fatos de uma forma integral: com seus problemas e suas possíveis soluções. E com isso damos ao telespectador a oportunidade de tirar suas próprias conclusões. Sem contar que também despertamos nele um olhar mais crítico”, defende Cláudia.
Mudança de hábito “As lentes as quais enxergamos o mundo têm uma influência massiva na sociedade que desejamos viver”. Este é o lema do jornal Positive News, distribuído em Londres, na Inglaterra, dedicado ao good news. Contrariando a ideia de que boa notícia não vende, o veículo também conta com um site com atualização diária, que atrai 35 mil unique views mensalmente. Além de assinaturas digitais, seus leitores contribuem com doações para a versão impressa, publicada bimestralmente.
Crédito:Reprodução Site e jornal Positive News é especializado em notícias boas em Londres “As notícias ruins são mais fáceis de vender porque despertam nosso instinto de sobrevivência, por isso chamam nossa atenção. Mas, às vezes, elas revelam um jornalismo ruim também. Tragédias são mais fáceis de apurar”, defende o jornalista Seán Dagan Wood, diretor do Positive News.
Criado em 1993, o meio de comunicação tem remado contra a maré, mostrando um noticiário diferente do que é priorizado na grande mídia. “Se a imprensa se focar apenas no que dá errado, isso pode deixar as pessoas pessimistas e não engajadas na busca de soluções para os nossos problemas. Se a gente der histórias positivas, conseguimos não só informar, mas motivar e empoderar pessoas, ajudando a sociedade a evoluir em uma direção positiva”.
Rinaldo concorda com o colega, destacando que a imprensa precisa tirar da cabeça a ideia de que notícia ruim é que dá Ibope. “As pessoas gostam de notícia boa também. Basta ver que as histórias mais compartilhadas nas redes sociais são as boas. As good news são tão vendáveis quanto as ruins”.

Crédito:Wayne Camargo/ Rede TV! Claudia Barthel apresenta o "Good News" na Rede TV! Apesar da incontestável audiência e repercussão das boas notícias, não são apenas os veículos que precisam mudar sua postura em relação à nova tendência. O maior desafio dos que trabalham neste segmento tem sido o preconceito dos anunciantes. Para Anderáos, a falta de interesse das marcas na editoria acaba sendo um contrassenso, uma vez que as boas notícias reforçam mensagens positivas para o consumidor, além de dialogarem com um público altamente qualificado.
“Quando você tem uma notícia ruim, uma tragédia, ela atinge um número grande de pessoas. Por outro lado, as boas têm um potencial muito grande não só no momento, como acontece no hard news. Elas têm apelo mais duradouro. São conteúdos que, mesmo depois de divulgados, continuam atraindo atenção em um período mais longo”.
Para Rinaldo, do Só Notícia Boa, a internet permitiu que fosse criado um novo jeito de fazer jornalismo, mas lamenta que o mercado publicitário ainda não tenha amadurecido para essa tendência. “Os anunciantes continuam investindo em veículos que só dão notícias ruins. Não faz sentido você anunciar o conceito de ‘faça o bem’ em um ‘Notícias Populares’, por exemplo”.