"Veículos especializados deram um novo status ao jornalismo esportivo", diz Palomino
João Palomino se prepara para iniciar uma nova fase em sua carreira. O jornalista e narrador, na ESPN Brasil desde sua criação, em 1995, assume, em 2012, a direção de Jornalismo da emissora no lugar de José Trajano.
Trajano, que permanece como comentarista do canal, também foi o responsável por levar Palomino para a emissora, anos atrás. "Foi ele quem me convidou para o então projeto ESPN Brasil. No primeiro dia da emissora, eu estreava como narrador em um mundial de tênis de mesa com o Cláudio Kano, mesatenista já falecido", lembra. Nos 16 anos seguintes, narrou finais de Copa do Mundo, Champions League, Copa do Brasil, conquistas brasileiras inéditas de medalhas olímpicas, marcas esportivas históricas, entre outros eventos de destaque. É com essa experiência que Palomino chega ao novo cargo.
Com passagens pelas TVs Manchete, Cultura e SBT, foi repórter de economia e política, até que, após a cobertura do acidente com o Fokker 100 da TAM, em 1996, decidiu mudar o rumo da carreira. "Não queria mais isso para mim". Passou a se dedicar apenas ao jornalismo esportivo, seu grande sonho de criança. Em período de transição para seu novo cargo, Palomino fala sobre a tarefa de suceder Trajano, os planos da emissora, jornalismo esportivo e o gosto pela profissão.
IMPRENSA - Como você foi convidado para assumir a direção de jornalismo da ESPN e quais são os desafios e expectativas para dar continuidade ao trabalho de José Trajano, um dos idealizadores do canal?
João Palomino - Nunca pensei em me preparar para suceder o José Trajano. Foi o próprio Trajano quem me chamou para me informar que tinha decidido mudar a vida, deixar a área executiva e via em mim um substituto natural e capaz. Com ele é assim. Não tem muito de consulta, tem sim de convocação. O que é ótimo. É a prova maior de confiança nas pessoas que o cercam. Com o Trajano, aprendemos todos os dias, evoluímos todo instante, e temos aulas inequívocas de ética, isenção, independência. A equipe foi montada assim, diria até forjada assim, olhando sempre o profissional, a equipe, o poder de realização de cada um. E o primeiro grande desafio de assumir este cargo depois da construção vitoriosa sob a batuta do Trajano é conseguir, com um trabalho conjunto, centrado, profissional e atento, pelo menos igualar a genialidade dele.
De que forma sua experiência na ESPN ajuda nesse novo cargo?
Estou muito motivado. O fato de conhecer todos, saber como a equipe se formou, como a empresa se criou e como se deu seu crescimento, podem me ajudar na coordenação de uma equipe exigente, contestadora, que preserva a vocação independente e os princípios que nos movem. Isto é interessante porque lá na faculdade, acompanhando grandes nomes do jornalismo, você ouve muito sobre os princípios do jornalismo, mas vê poucos lugares em que são aplicados livremente. Aqui, exercitamos isso, ainda que incomode a tanta gente. Somos assim, um legado (e aqui a palavra se aplica mesmo) de José Trajano que vamos manter. O Brasil nos conhece assim, e só há motivos para manter isso, não para mudar.
Com o novo cargo, você deixará de narrar e apresentar programas na emissora?
Com certeza, minha atuação como apresentador e narrador vai diminuir consideravelmente. Sou um apaixonado pela minha profissão. E quero que isso seja a marca da minha experiência com a ESPN no Brasil. Achei interessante o German [Hartenstein, diretor-geral do canal] e o Trajano dizerem que não veem a Olimpíada sem que eu faça parte do grupo de narradores. É gratificante demais. Ainda não parei para pensar nisso, mas estou muito tranquilo e consciente de que é um novo momento, uma nova oportunidade, uma nova vida.
Quais as expectativas do canal para os próximos anos, marcados por grandes eventos esportivo no mundo o no Brasil, em um cenário de crescimento da TV por assinatura?
Não é apenas uma questão de vocação. É uma questão de necessidade. A emissora cresce sem limites e assim deve continuar. Todas as reuniões, todas as discussões são em cima sempre de aumentar audiência e número de assinantes, exposição e qualidade, independência e novos profissionais. Claro que o fato do Brasil receber eventos do porte de uma Olimpíada e de uma Copa do Mundo chama atenção maior da imprensa mundial e dos investidores. Pronto: é um campo fértil para intensificar nossos investimentos e nossa atuação profissional. Temos uma cara, um jeito, uma forma de ver a vida e a profissão, de ver o que o jornalismo exige de todos nós e o que o nosso compromisso com a profissão exige de todos nós.
Como avalia o jornalismo esportivo e a importância dos veículos especializados?
As TVs por assinatura, os sites, os jornais especializados deram um novo status ao jornalismo esportivo. Há muito mais profissionais dedicados exclusivamente a isso, e muito mais qualidade no ar. Antes havia, sim, muito preconceito com a turma do esporte. Eu mesmo trabalhei como repórter de economia e política em televisão exatamente porque o jornalismo esportivo, meu sonho, vivia no canto da redação. Ao mesmo tempo, ainda cabe uma crítica à forma despojada e pouco profunda com que muitos de nós ainda atuam. Não sou favorável às piadinhas no ar, às gracinhas desnecessárias, à conversa que não tenha relação com a informação que pretende transmitir e à opinião com argumento sobre o que se está falando. Nada pode ser pior que a piada interna. Por vezes, há muita presunção e arrogância no ar. O jornalista, seja esportivo ou não, às vezes se acha muito engraçado, ri das próprias piadas e erra o tom.
Sua carreira exclusiva no esporte começou após a cobertura do acidente com o Fokker 100 da TAM, em 1996. Que fator dessa cobertura te fez "largar" esse "tipo" de jornalismo? Há algo hoje na cobertura esportiva que poderia te motivar a mudar novamente de área?
Chega de mudanças. Se considerar que a transição de repórter para apresentador e narrador, e de apresentador e narrador para diretor, atuação executiva, são mudanças de profissão, então já cumpri minha cota nesta vida. Já estava cansado da vida de repórter. Adoro a profissão e as circunstâncias que a cercam, mas o dia a dia de um repórter era muito desgastante e o resultado pouco motivador naquele momento. E o que vi no acidente da TAM, não queria mais isso para mim. Passei dias e dias com o cheiro do acidente e da morte nas roupas e na lembrança. Foi tudo muito triste. Coincidiu com a proposta para que ficasse apenas na ESPN (durante quase dois anos trabalhei na TV Cultura e na ESPN). E então, queria cumprir o sonho de criança, sonho de narrar num estádio o que fazia no jogo de botão. Consegui. Agora é outra etapa: a de manter a ESPN no lugar de respeito que conquistou. E, claro, fazer com que cresça, sempre.
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