Veículos de imprensa da periferia destacam importância de mostrar o olhar dos moradores

A palavra “periferia” é usada para designar lugares no entorno da região central de uma cidade. Por se tratarem de áreas afastadas do agito das metrópoles, esses subúrbios, geralmente, acabam tendo uma visibilidade menor da mídia.

Atualizado em 29/11/2013 às 16:11, por Igor dos Santos*.

Apesar disso, os veículos criados e geridos por pessoas dessas comunidades ajudam a levar informação aos moradores, bem como falar sobre o bairro para quem é de fora.
Crédito:Divulgação Grupo que colabora para o Blog do Mural, da "Folha"
Construir a credibilidade desses canais de comunicação é uma da maiores dificuldades, segundo Rene Silva, editor-chefe do , que cobre diferentes comunidades do Rio de Janeiro. Na opinião dele, as pessoas ainda não estão habituadas com novas mídias e acham que só existem os grandes veículos para informá-las. “As pessoas ainda não sabem que, todos nós, cidadãos, possuímos uma grande mídia através da nossa voz. Basta falar, comunicar, colocar na internet, imprimir em um papel e compartilhar essas informações”, afirma.
Jéssica Moreira, correspondente comunitária de Perus para o , espaço que a Folha de S.Paulo reserva para os moradores da periferia escreverem sobre a realidade de seus bairros, a maior dificuldade é construir uma imagem positiva para a região e mostrar que, apesar dos problemas, também ocorrem coisas positivas nesses lugares.
Na opinião de Ana Carolina Rodrigues, editora de conteúdo do jornal Viver Campo Limpo , o maior problema está na divulgação. “Tentamos fazer com que todas as pessoas do bairro fiquem informadas com o nosso jornal, mas levar as matérias para toda a região é a maior dificuldade”, diz.
Integração com os moradores
A integração desses canais de comunicação com os moradores é importante, afinal eles podem sugerir pautas, dar ideias e até criticar o veículo, dando sugestões para melhorar a cobertura. A opinião desses cidadãos tem papel-chave sobre a forma como gostariam de ser representado.
Jéssica, que faz parte dos movimentos sociais de seu bairro, diz que tem contato direto com o cotidiano de seu bairro. Para ampliar o acesso à informação, ela costuma divulgar suas matérias por meio das redes sociais. “Temos exemplo no blog do Mural de sugestões de leitores que se transformaram em matérias e, consequentemente, acabaram gerando transformações no bairro”, diz. E acrescenta: "É muito importante que as pessoas se sintam representadas pelo veículo".
Crédito:Divulgação "Viver Campo Limpo" trabalha lado a lado com os moradores
Ana Carolina Rodrigues, do jornal Viver Campo Limpo , comenta que a maior integração entre o jornal e os moradores ocorre via redes sociais. É por este canal que os cidadãos enviam sugestões de pautas, críticas e observações.
O editor-chefe do Voz das Comunidades reafirma que a relação com os moradores é muito “natural”, tanto é que o veículo trabalha com a comunidade e sua estrutura e apoio parte dos próprios moradores, desde a sugestão de pauta até a reportagem final. Para ele, esse contato é importante “porque as matérias não são feitas para a favela, mas com a favela. Esse é o diferencial.”
Grande mídia
A forma como a grande mídia retrata a periferia incomoda esses jornalistas dedicados à cobertura dessas comunidades, pois acreditam que faltam matérias positivas sobre os locais. “Uma coisa que incomoda muito a mim e meus colegas do Blog do Mural é ver que nossa região só é mostrada quando acontece algum acidente. Mas lá também ocorrem atividades culturais, esportivas, e muitas outras coisas interessantes, que são muito benéficas para o bairro. Só que essa parte não é mostrada”, diz Jéssica.

Ana Carolina conta que costuma fazer uma pesquisa diária nos veículos da grande mídia sobre as notícias do seu bairro, mas afirma que a maioria das reportagens que encontra falam sobre violência, o que prejudica a região.
“A grande [mídia] retrata da maneira como acham que é”, comenta Silva. Na sua opinião, a cobertura feita por grandes veículos de comunicação só se preocupa em cobrir ocasiões que julgam importante para os leitores que vivem foram daquela realidade.
Apesar disso, o editor-chefe do Voz das Comunidades diz que algumas pessoas também acham que apenas a grande mídia tem poder para resolver os problemas sociais e, muitas vezes, acabam não dando entrevistas para veículos locais. “Muita gente não tem noção da dimensão que uma simples matéria numa mídia comunitária pode repercutir em qualquer outro grande veiculo também”, afirma.
Abordagem de um morador
Para finalizar, os jornalistas falam sobre a importância de o próprio morador retratar sua região. Afinal, ele a conhece melhor do que alguém de fora e tem um carinho pela comunidade que pode ser benéfico.
“A gente sabe o que está acontecendo, tem a visão das pessoas que estão lá. Mais do que isso, a moramos no bairro e temos um carinho maior ao dar a notícia. Quem é de fora acaba noticiando de uma forma superficial”, afirma Ana.
Silva acredita que o veículo local acaba tendo maior credibilidade entre as pessoas de fora da favela, pois passaria para "uma verdade absoluta". “Pense bem: você tem um jornal da grande mídia falando sobre tiroteio e morreram dois, logo você tem um jornal da mídia comunitária dizendo que morreram mais de cinco. Em quem você acreditaria? Quem mora lá ou aquele que foi apenas pegar dados com a polícia, ligar a câmera e ir para o ar?”
"Uma pessoa que conhece aquele local vivencia tanto as coisas boas quanto as ruins. E, por isso, essa pessoa vai ter mais responsabilidade para escrever, fazendo o texto de uma forma mais reflexiva, para mostrar como as coisas podem mudar”, conclui Jéssica.
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves