Vargas é o “personagem mais importante da história brasileira”, afirma Lira Neto
A relação com a imprensa reflete o perfil contraditório de Vargas. Em seu começo, fechou jornais; no final, foi atacado, mas não revidou.
Atualizado em 18/08/2014 às 15:08, por
Christh Lopes*.
No dia 24 de agosto de 1954 a república brasileira ficava órfã do líder mais contraditório e importante de sua história, como descreve o jornalista Lira Neto. Na obra final, lançada nos 60 anos da morte do ex-presidente, o autor da trilogia sobre a vida de Getúlio Vargas desmitifica os versos agonizantes da carta-testamento.
Crédito:Renato Parada Lira Neto encerra trilogia sobre Getúlio Vargas e se prepara para novo projeto
A obra descreve os bastidores dos últimos anos de vida do ex-presidente, vivenciados tanto no “retiro” em São Borja, no interior do Rio Grande do Sul, como no quarto mais cobiçado do Rio de Janeiro à época, onde foi disparado o tiro no peito que deu ponto final a sua trajetória.
À IMPRENSA, o jornalista Lira Neto destaca o papel de Vargas para a história brasileira, passando por acontecimentos marcantes e por figuras que vão de Samuel Wainer a Carlos Lacerda, Gregório Fortunato a Eisenhower e Tancredo Neves a Nelson Rockfeller.
IMPRENSA: Após cinco anos e 1800 páginas sobre Getúlio, qual sua análise sobre o papel e a importância do ex-presidente para o Brasil? Como escreveu o historiador Boris Fausto na quarta capa do primeiro volume da biografia, Getúlio Vargas é, "para o bem e para o mal, o personagem mais importante da história brasileira no século XX”. Eu ousaria ir ainda além e dizer que Getúlio é o personagem mais importante de toda a história brasileira. O legado da chamada “Era Vargas” é inegável, no que nos deixou de positivo e negativo, não só no campo político, mas também nas esferas da economia, da sociedade e da cultura. Getúlio modernizou o Brasil, conduzindo um país agrário, semi-feudal, rumo ao desenvolvimento industrial.
Foi o fundador da Petrobras, do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico – que mais tarde, se torna ‘e Social’), da siderúrgica de Volta Redonda, o idealizador da Eletrobrás, entre outros grandes empreendimentos. Ao lado disso, instituiu um relativo equilíbrio na relação entre capital e trabalho em um país que, poucas décadas antes, vivia sob a mancha deplorável da escravidão. Ao mesmo tempo, durante o Estado Novo, impôs um regime de exceção, onde imperava a institucionalização da tortura e da violência policial, a perseguição a adversários políticos, a prisão de jornalistas e intelectuais, a mordaça total à imprensa.
A obra marca dois pontos altos da vida do político: a "volta pela consagração popular ao suicídio". Haverá novos fatos ainda não revelados sobre a vida de Vargas? Para escrever este terceiro volume, lancei mão de um acervo documental muito pouco explorado até aqui e, em sua grande maioria, inédito: as mais de 1.600 páginas da correspondência trocada entre Getúlio, em São Borja, e a filha Alzira, entre 1945 e 1951, ou seja, após a derrubada do ex-ditador pelos militares e a volta ao poder como presidente constitucionalmente eleito, por consagradora votação popular. Este é um período pouco trabalhado pela historiografia.
A maior parte da bibliografia disponível sobre o tema resume o chamado “retiro” em São Borja a poucos parágrafos ou, no máximo, a algumas poucas páginas. Nas cartas entre pai e filha, porém, revela-se, com preciosa e impressionante minúcia, toda a articulação política para o retorno de Getúlio ao cenário político. Também tive acesso aos rascunhos do segundo volume de memórias de Alzira, que ficou inacabado e jamais foi publicado. Nesses papéis, especificamente, a crise de agosto de 1954, que resultou no suicídio de Getúlio, é narrada a partir de uma perspectiva privilegiada, de alguém que acompanhou o cotidiano das pressões e testemunhou a angústia final do biografado.
No trecho revelado pela Piauí , há a frase 'Se for jornalista que vem aí, mando enforcar'. Como avalia a relação entre Getúlio e a imprensa e o papel da mídia na ascensão e queda do político? Durante o Estado Novo, Getúlio manteve a imprensa sobre implacável censura. Publicações foram fechadas, outras sofreram sanções econômicas, redações foram invadidas por soldados de metralhadora em punho. Quando retornou ao poder, em 1951, Getúlio governou então com os jornais praticamente todos contra si. Mesmo assim, nesse período final, aceitou as regras do jogo democrático e enfrentou campanhas sistemáticas de desmoralização pública que, em alguns momentos, assumiram o contorno de verdadeiros linchamentos morais pela imprensa. Em nenhum momento, dessa vez, procurou silenciar os adversários. Governou sobre pressão constante até 1954, quando o cerco se fechou. Crédito:Divulgação Obra conta os últimos anos da vida de Getúlio Vargas
Existe um paralelo entre Getúlio e algum outro presidente do Brasil? Getúlio Vargas é um personagem singular, incomparável. Não é possível traçar nenhum paralelo histórico entre ele e qualquer outro chefe de Estado que veio a seguir.
Após 60 anos, no seu entender, por que Getúlio Vargas ainda desperta interesse dos leitores? Mesmo 60 anos após sua morte, Getúlio continua despertando julgamentos apaixonados, devoções sinceras e rejeições radicais. Seu poder de controvérsia extrapola o tempo. Algumas das questões que lançou continuam a dividir opiniões e pontos de vista extremados. Isso significa, no mínimo, que muitas das polêmicas que suscitou ainda continuam a nos assolar.
Por fim, já tem algum outro projeto de fôlego como este? Acabo de fechar contrato com a Companhia das Letras para um novo projeto de fôlego, que me tomará os próximos anos de trabalho. Prefiro manter o tema ainda sob reserva. No momento, tenho que trabalhar o lançamento do último volume da trilogia e, após a maratona de lançamentos, descansar a cabeça antes de assumir a nova empreitada.
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves
Crédito:Renato Parada Lira Neto encerra trilogia sobre Getúlio Vargas e se prepara para novo projeto
A obra descreve os bastidores dos últimos anos de vida do ex-presidente, vivenciados tanto no “retiro” em São Borja, no interior do Rio Grande do Sul, como no quarto mais cobiçado do Rio de Janeiro à época, onde foi disparado o tiro no peito que deu ponto final a sua trajetória.
À IMPRENSA, o jornalista Lira Neto destaca o papel de Vargas para a história brasileira, passando por acontecimentos marcantes e por figuras que vão de Samuel Wainer a Carlos Lacerda, Gregório Fortunato a Eisenhower e Tancredo Neves a Nelson Rockfeller.
IMPRENSA: Após cinco anos e 1800 páginas sobre Getúlio, qual sua análise sobre o papel e a importância do ex-presidente para o Brasil? Como escreveu o historiador Boris Fausto na quarta capa do primeiro volume da biografia, Getúlio Vargas é, "para o bem e para o mal, o personagem mais importante da história brasileira no século XX”. Eu ousaria ir ainda além e dizer que Getúlio é o personagem mais importante de toda a história brasileira. O legado da chamada “Era Vargas” é inegável, no que nos deixou de positivo e negativo, não só no campo político, mas também nas esferas da economia, da sociedade e da cultura. Getúlio modernizou o Brasil, conduzindo um país agrário, semi-feudal, rumo ao desenvolvimento industrial.
Foi o fundador da Petrobras, do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico – que mais tarde, se torna ‘e Social’), da siderúrgica de Volta Redonda, o idealizador da Eletrobrás, entre outros grandes empreendimentos. Ao lado disso, instituiu um relativo equilíbrio na relação entre capital e trabalho em um país que, poucas décadas antes, vivia sob a mancha deplorável da escravidão. Ao mesmo tempo, durante o Estado Novo, impôs um regime de exceção, onde imperava a institucionalização da tortura e da violência policial, a perseguição a adversários políticos, a prisão de jornalistas e intelectuais, a mordaça total à imprensa.
A obra marca dois pontos altos da vida do político: a "volta pela consagração popular ao suicídio". Haverá novos fatos ainda não revelados sobre a vida de Vargas? Para escrever este terceiro volume, lancei mão de um acervo documental muito pouco explorado até aqui e, em sua grande maioria, inédito: as mais de 1.600 páginas da correspondência trocada entre Getúlio, em São Borja, e a filha Alzira, entre 1945 e 1951, ou seja, após a derrubada do ex-ditador pelos militares e a volta ao poder como presidente constitucionalmente eleito, por consagradora votação popular. Este é um período pouco trabalhado pela historiografia.
A maior parte da bibliografia disponível sobre o tema resume o chamado “retiro” em São Borja a poucos parágrafos ou, no máximo, a algumas poucas páginas. Nas cartas entre pai e filha, porém, revela-se, com preciosa e impressionante minúcia, toda a articulação política para o retorno de Getúlio ao cenário político. Também tive acesso aos rascunhos do segundo volume de memórias de Alzira, que ficou inacabado e jamais foi publicado. Nesses papéis, especificamente, a crise de agosto de 1954, que resultou no suicídio de Getúlio, é narrada a partir de uma perspectiva privilegiada, de alguém que acompanhou o cotidiano das pressões e testemunhou a angústia final do biografado.
No trecho revelado pela Piauí , há a frase 'Se for jornalista que vem aí, mando enforcar'. Como avalia a relação entre Getúlio e a imprensa e o papel da mídia na ascensão e queda do político? Durante o Estado Novo, Getúlio manteve a imprensa sobre implacável censura. Publicações foram fechadas, outras sofreram sanções econômicas, redações foram invadidas por soldados de metralhadora em punho. Quando retornou ao poder, em 1951, Getúlio governou então com os jornais praticamente todos contra si. Mesmo assim, nesse período final, aceitou as regras do jogo democrático e enfrentou campanhas sistemáticas de desmoralização pública que, em alguns momentos, assumiram o contorno de verdadeiros linchamentos morais pela imprensa. Em nenhum momento, dessa vez, procurou silenciar os adversários. Governou sobre pressão constante até 1954, quando o cerco se fechou. Crédito:Divulgação Obra conta os últimos anos da vida de Getúlio Vargas
Existe um paralelo entre Getúlio e algum outro presidente do Brasil? Getúlio Vargas é um personagem singular, incomparável. Não é possível traçar nenhum paralelo histórico entre ele e qualquer outro chefe de Estado que veio a seguir.
Após 60 anos, no seu entender, por que Getúlio Vargas ainda desperta interesse dos leitores? Mesmo 60 anos após sua morte, Getúlio continua despertando julgamentos apaixonados, devoções sinceras e rejeições radicais. Seu poder de controvérsia extrapola o tempo. Algumas das questões que lançou continuam a dividir opiniões e pontos de vista extremados. Isso significa, no mínimo, que muitas das polêmicas que suscitou ainda continuam a nos assolar.
Por fim, já tem algum outro projeto de fôlego como este? Acabo de fechar contrato com a Companhia das Letras para um novo projeto de fôlego, que me tomará os próximos anos de trabalho. Prefiro manter o tema ainda sob reserva. No momento, tenho que trabalhar o lançamento do último volume da trilogia e, após a maratona de lançamentos, descansar a cabeça antes de assumir a nova empreitada.
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves





