Vanusa e outros desafinados
Vanusa e outros desafinados
Se como os personagens de novelas cada pessoa tivesse uma música tema, a minha seria aquela do Chico Buarque "Até o Fim". "Quando nasci veio um anjo safado, o chato de um querubim, que decretou que eu estava predestinada, a ser errada assim, já de saída minha estrada entortou, mas vou até o fim".
E como diz esse meu tema musical, por conta de umas questões paralelas, há dois meses comecei a fazer terapia com um psicólogo. Meu plano de saúde não oferece muitas opções e tive que pegar um profissional americano, Larry, 20 anos mais velho que eu, com inúmeros diplomas pregados nas paredes e reputação de ser muito competente.
Esmiuçar neuroses, problemas familiares, manias, esquisitices e outras desgraças emocionais falando Português já seria um desafio. Fazer isso num outro idioma e para alguém com idade e referências culturais tão diversas das minhas é coisa para louca. Mas, para ser fiel ao meu tema musical, vou até o fim.
Dia desses, meio irritada com a insistência dele na questão de eu ter vários conhecidos, mas raros amigos americanos, cortei o papo. Falei que meus amigos brasileiros, pela Internet ou pelo telefone, me dão muito mais suporte e apoio emocional do que os poucos americanos com quem eu tenho uma relativa afinidade. E que, portanto, eu não estava a procura de amigos americanos. E nem estava ali para falar sobre isso que ele considera um problema e, para mim, é só mais um dos fatos a que tive que me adaptar vivendo num país estranho. E expliquei que isso acontece não só porque eu e meus amigos brasileiros falamos a mesma língua, mas principalmente porque pensamos e sentimos as coisas de uma maneira que é diferente da americana.
E ele então quis saber no que nós, brasileiros, somos tão diferentes das pessoas que vivem por aqui. E por uma dessas coisas que talvez Freud soubesse explicar, mas eu não faço a menor idéia, no mesmo instante o pensamento que me veio à cabeça foi de um email que eu tinha recebido naquele dia, de um amigo do Brasil, mostrando um vídeo da Vanusa cantando mal e porcamente o Hino Nacional numa solenidade aí em Brasília (DF). Desafinando, misturando as estrofes, errando a letra, cantando fora da ordem, do tom, do ritmo, um desastre total.
E lembrei também das autoridades, presenciando, impassíveis, aquela atuação deprimente, mesmo vendo, ouvindo e sabendo que algo de muito errado estava se desenrolando ali. Pra piorar muitos até aplaudiram. Talvez na tentativa de encurtar o constrangimento e dar a deixa para cantora -- de questionáveis recursos vocais e inquestionável despreparo para cantar o hino -- parar com aquela tortura aos ouvidos alheios.
E de repente emudeci. Fiquei olhando pro Larry, (que parece o homônimo dele dos Três Patetas, quase careca no alto da cabeça com tufos de cabelos crescendo nas laterais), mas lembrando da Vanusa. E de como todo aquele episódio deprimente que ela protagonizou é um retrato bem atual das coisas que continuam acontecendo em nosso país.
E, de repente, fui inundada por uma saudade dolorosa de meus amigos no Brasil. Gente inteligente, honesta, calorosa, divertida, sem conexões mal explicadas com famílias poderosas do Maranhão e caciques em Brasília. E senti uma ternura, misturada com tristeza, pela minha Pátria, terra adorada sim. Senti vontade de pegá-la no colo, de embalá-la, de protegê-la como se faz com um bebê, ou com alguém que foi agredida ou vítima de uma tremenda injustiça. E senti uma agonia, uma vontade urgente de ter poderes mágicos para eliminar, de uma vez por todas, os safados de plantão que tão mal representam nosso povo. E que, como Vanusa fez com o Hino Nacional, desafinam na ética, na decência, no respeito ao patrimônio público e comum a todos nós. E nos roubam, não só dinheiro, mas os meios de construir para todos um futuro mais digno e justo.
E essa avalanche de pensamentos e sentimentos durou um minuto, um minuto e meio talvez, enquanto o psicólogo me olhava, esperando pela resposta. Que não veio. Porque, mesmo que eu quisesse, jamais saberia explicar isso tudo para ele. E tenho certeza que Larry -- apesar de todos aqueles diplomas e cursos de especialização nas complexidades do psiquismo humano -- também jamais conseguiria entender. Justamente porque ele é americano.
Enquanto vocês, que me leem agora, tem mais chances de me entender, porque provavelmente já devem ter se sentido assim também. Complicado esse negócio de viver não é? Saí da sessão aquela noite mais confusa do que tinha entrado. Ou como diz a música que considero meu tema nessa vida "eu já nem lembro pra onde mesmo que eu vou, mas vou até o fim. Como já disse, era um anjo safado, o chato de um querubim, que decretou que eu estava predestinada, a ser errada assim, já de saída minha estrada entortou, mas vou até o fim".
Fim!






