Válvula impossível
Válvula impossível
Atualizado em 06/05/2010 às 12:05, por
Silvia Dutra.
Quando saí do Brasil, anos atrás, uma das coisas que mais me incomodava era as pessoas fazendo perguntas estúpidas. Ainda incomoda, mas agora já estou mais conformada. Uma vizinha minha, no Canadá, em 1989, me perguntou se eu conhecia carros, geladeira e máquina de lavar antes de morar em Ottawa. Na cabeça dela o Brasil inteiro era uma selva tropical e eu, meu marido e filho, companheiros de cipó da Chita e do Tarzan. Ela devia pensar que tínhamos descido recentemente das árvores, ou saído das cavernas, antes de aterrisar naquele freezer gigante que é o país dela. Anos depois, na California, dias após o ataque terrorista de 11 de setembro, uma americana responsável pela biblioteca onde eu fazia trabalho voluntário me perguntou - num tom e com um olhar de suspeita - se o Brasil ficava perto do Afeganistão.
Fiquei pasma. A mulher tinha um diploma de bibliotecária, supostamente deveria ser um pouco mais culta que a população em geral. Rindo com incredulidade, respondi que o Brasil ficava na América do Sul e o Afeganistão na Ásia e ela, com cara de boba, me disse que não tinha entendido. Eu respondi que curiosamente aquilo não me surpreendia e meu olhar fixo deve ter mostrado o quanto eu estava irritada. Peguei minha bolsa e fui embora, nem perdi meu tempo tentando explicar. Certas burrices são imperdoáveis, ainda mais quando elas vem emboladas com arrogância e orgulho besta. Parei de frequentar a biblioteca. Em parte por conta dessa ignorância dela. E também porque o clima de hostilidade contra estrangeiros em geral ficou ainda mais visível e palpável naqueles dias terríveis.
Tempos depois, levei minha filha ao médico. Durante a consulta de rotina, ele notou que ela, então com 14 anos, tinha um leve desvio na coluna. Eu disse que já sabia, falei inclusive o grau do desvio, que posteriormente ele pode comprovar com uma radiografia. E então expliquei, inocentemente, que aos 7 anos de idade ela havia sido diagnosticada com escoliose, e que a ortopedista do Brasil tinha recomendado Reeducação Postural Global (RPG) que ela fez durante um ano, com uma fisioterapeuta experiente de Campinas. Ele balançou a cabeça e riu, desconsolado. Disse que eu falava besteira, que RPG era coisa sem qualquer validade científica. Não adiantou dizer que a ortopedista era professora numa importante Universidade brasileira e que eu guardava as radiografias de antes e depois do tratamento que comprovavam a eficácia da técnica. Ele continuou sem acreditar.
Quando no verão de 2007 o galão de gasolina passou de 4 dólares e a população estava brava, falando em carros elétricos e alternativas pra não mais depender de petróleo estrangeiro, comentei com meu vizinho, Steven, rapaz dos seus 20 e poucos anos, que o Brasil desde a década de 70 tem carros rodando com etanol e que desenvolvemos tecnologia para fazer carros que podem circular com gasolina ou alcool. E ele me respondeu sem hesitação: "eu não acredito". "A troco do que eu iria mentir pra você?", perguntei, e ele continuou repetindo "eu não acredito", e mais não disse. Seus argumentos acabaram ali, naquela recusa infantil e obstinada. É meu vizinho, mas assim como o médico ao qual nunca mais voltei, vive em Denial, o mais populoso estado americano.
Não lembram que eu já falei que todos os dias vejo alguma notícia vinda de Denial? Agora com esse desastre ecológico acontecendo no Golfo do México, com milhões de galões de óleo vazando sem controle de um poço de petróleo e ameaçando no momento toda a vida marinha da costa oeste da Florida e outros estados americanos, o que mais tenho visto é habitantes de Denial fazendo o que eles mais sabem fazer: fugir dos assuntos espinhosos, se recusar a ver o óbvio e tentar tapar o sol com a peneira.
Doug Suttles, funcionário da British Petroleum -- empresa que sub-empreitou o serviço pra outras companhias exploradoras mas que é a principal responsável pelo desastre que deve trazer mais de um bilhão de dólares em danos econômicos e ambientais -- foi recentemente entrevistado pela jornalista Robin Roberts, no programa Good Morning América. E ela questionou porque a BP não utiliza uma válvula usada pela Noruega e pelo Brasil, países experientes na exploração de petróleo no mar, que poderia ter evitado toda essa tragédia.
A resposta dele é típica dos moradores de Denial: "eu não tenho conhecimento dessa válvula. Nós temos toda a tecnologia exigida pela legislação que regulamenta o setor. Eu não sei como nem porque isso tudo aconteceu. Isso será determinado em investigações posteriores".
Como todos os burocratas, falou falou e nada disse. Suttles e provavelmente os executivos da BP, assim como meu vizinho e o médico que duvidou da eficácia de uma terapia já comprovada no Brasil, França e outros países, tem certeza que não podem aprender nada com ninguém. Como a bibliotecária que me insultou na California, se escondem atrás de um patriotismo orgulhoso, ufanista e idiota, sobem num pedestal de arrogância e rejeitam experiências externas das quais muito se poderiam beneficiar. Pena que ainda não inventaram nenhuma válvula forte o suficiente para conter tamanha ignorância que tanto estrago causa no mundo.
Quem quiser ver o vídeo da entrevista entre Roberts e Suttle, .

Fiquei pasma. A mulher tinha um diploma de bibliotecária, supostamente deveria ser um pouco mais culta que a população em geral. Rindo com incredulidade, respondi que o Brasil ficava na América do Sul e o Afeganistão na Ásia e ela, com cara de boba, me disse que não tinha entendido. Eu respondi que curiosamente aquilo não me surpreendia e meu olhar fixo deve ter mostrado o quanto eu estava irritada. Peguei minha bolsa e fui embora, nem perdi meu tempo tentando explicar. Certas burrices são imperdoáveis, ainda mais quando elas vem emboladas com arrogância e orgulho besta. Parei de frequentar a biblioteca. Em parte por conta dessa ignorância dela. E também porque o clima de hostilidade contra estrangeiros em geral ficou ainda mais visível e palpável naqueles dias terríveis.
Tempos depois, levei minha filha ao médico. Durante a consulta de rotina, ele notou que ela, então com 14 anos, tinha um leve desvio na coluna. Eu disse que já sabia, falei inclusive o grau do desvio, que posteriormente ele pode comprovar com uma radiografia. E então expliquei, inocentemente, que aos 7 anos de idade ela havia sido diagnosticada com escoliose, e que a ortopedista do Brasil tinha recomendado Reeducação Postural Global (RPG) que ela fez durante um ano, com uma fisioterapeuta experiente de Campinas. Ele balançou a cabeça e riu, desconsolado. Disse que eu falava besteira, que RPG era coisa sem qualquer validade científica. Não adiantou dizer que a ortopedista era professora numa importante Universidade brasileira e que eu guardava as radiografias de antes e depois do tratamento que comprovavam a eficácia da técnica. Ele continuou sem acreditar.
Quando no verão de 2007 o galão de gasolina passou de 4 dólares e a população estava brava, falando em carros elétricos e alternativas pra não mais depender de petróleo estrangeiro, comentei com meu vizinho, Steven, rapaz dos seus 20 e poucos anos, que o Brasil desde a década de 70 tem carros rodando com etanol e que desenvolvemos tecnologia para fazer carros que podem circular com gasolina ou alcool. E ele me respondeu sem hesitação: "eu não acredito". "A troco do que eu iria mentir pra você?", perguntei, e ele continuou repetindo "eu não acredito", e mais não disse. Seus argumentos acabaram ali, naquela recusa infantil e obstinada. É meu vizinho, mas assim como o médico ao qual nunca mais voltei, vive em Denial, o mais populoso estado americano.
Não lembram que eu já falei que todos os dias vejo alguma notícia vinda de Denial? Agora com esse desastre ecológico acontecendo no Golfo do México, com milhões de galões de óleo vazando sem controle de um poço de petróleo e ameaçando no momento toda a vida marinha da costa oeste da Florida e outros estados americanos, o que mais tenho visto é habitantes de Denial fazendo o que eles mais sabem fazer: fugir dos assuntos espinhosos, se recusar a ver o óbvio e tentar tapar o sol com a peneira.
Doug Suttles, funcionário da British Petroleum -- empresa que sub-empreitou o serviço pra outras companhias exploradoras mas que é a principal responsável pelo desastre que deve trazer mais de um bilhão de dólares em danos econômicos e ambientais -- foi recentemente entrevistado pela jornalista Robin Roberts, no programa Good Morning América. E ela questionou porque a BP não utiliza uma válvula usada pela Noruega e pelo Brasil, países experientes na exploração de petróleo no mar, que poderia ter evitado toda essa tragédia.
A resposta dele é típica dos moradores de Denial: "eu não tenho conhecimento dessa válvula. Nós temos toda a tecnologia exigida pela legislação que regulamenta o setor. Eu não sei como nem porque isso tudo aconteceu. Isso será determinado em investigações posteriores".
Como todos os burocratas, falou falou e nada disse. Suttles e provavelmente os executivos da BP, assim como meu vizinho e o médico que duvidou da eficácia de uma terapia já comprovada no Brasil, França e outros países, tem certeza que não podem aprender nada com ninguém. Como a bibliotecária que me insultou na California, se escondem atrás de um patriotismo orgulhoso, ufanista e idiota, sobem num pedestal de arrogância e rejeitam experiências externas das quais muito se poderiam beneficiar. Pena que ainda não inventaram nenhuma válvula forte o suficiente para conter tamanha ignorância que tanto estrago causa no mundo.
Quem quiser ver o vídeo da entrevista entre Roberts e Suttle, .






