Uso do termo ‘vandalismo’ na cobertura de protestos no Carrefour divide opiniões entre jornalistas
Âncoras de TV se referiram aos manifestantes como vândalos, mas outros profissionais da imprensa discordaram do termo e viram inversão dos f
A cobertura dos protestos contra a rede Carrefour no fim de semana, onde o cliente José Alberto Silveira Freitas foi assassinado por seguranças, em uma loja na cidade de Porto Alegre, no dia 19, dividiu opiniões até entre jornalistas.
Crédito:Reprodução / Leo OrestesNa CNN e na Globo, âncoras de programas jornalísticos classificaram como vandalismo os atos praticados por manifestantes em alguns supermercados, onde prateleiras foram quebradas e objetos queimados, para chamar atenção para a violência e o racismo na rede varejista.
As palavras “vândalos” ou “vandalismo” foram usadas por William Bonner no Jornal Nacional, Patrícia Poeta no É de Casa, Monalisa Perrone na CNN Brasil e pelo site da CNN.
Além da repercussão no Twitter onde os nomes dos apresentadores figuraram no trend topics, outros profissionais da imprensa consideraram a referência errada.
Diego Sarza, âncora também da CNN, escreveu no Twitter que vandalismo é o racismo praticado no Brasil. “Vandalismo é ter medo de apanhar, de morrer por causa da cor da pele. Vandalismo é ter menos oportunidades e por aí vai... Minha solidariedade a todos os familiares do Beto e, por extensão, a todas as vítimas de racismo no Brasil. Vidraças voltam pro lugar. Vidas não. Noite!”
Victor Ferreira, repórter da Globo News, recorreu ao dicionário para defender que a palavra “revolta” teria mais a ver com os atos que ocorreram no fim de semana do que “vandalismo”.
“Ao dicionário: as vidraças quebradas do Carrefour têm muito mais a ver com revolta do que com vandalismo. Vandalismo, aliás, pressupõe destruição gratuita. Um sujeito alcoolizado que derruba um orelhão por esporte é um vândalo. Revolta, indignação, insurreição... são outra coisa. Não se trata de defender ou não a atitude de quem jogou pedras no Carrefour, não entrei nesse mérito; mas de dar aos fatos o nome que eles têm. Neste caso foi uma revolta provocada pelo assassinato brutal de um homem. O resto é diversionismo.”
No programa Brasil Urgente, na Band, Luiz Datena disse que repudiava o vandalismo, mas considerou que a cobertura jornalística inverteu a relevância dos fatos.
“É claro que eu tenho que repudiar o vandalismo, isso é inaceitável, mas mais inaceitável ainda é um lugar público, que recebe clientes, matar uma pessoa que é um cliente dessa maneira, isso é o mais execrável”, afirmou.
“O que não justifica é ter um ato racista, canalha e assassino e de repente querer inverter a história das coisas”, completou Datena.
Douglas Belchior, fundador da organização Uneafro, a pedido do colunista Ricardo Kotscho, do UOL, avaliou as manifestações. Ele questionou o fato de haver mais comoção com vidraças e prateleiras quebradas do que com os negros assassinados, e disse que a invasão a algumas lojas do Carrefour foi uma “reação legítima do movimento [...]. Não foram vândalos, foram manifestantes. Foi uma reação de manifestantes do movimento negro revoltados com a situação [...]. Jovens negros que estão cansados de ser mortos pela polícia, e que de alguma maneira precisavam dar uma resposta à altura".





