“Uma sobe e puxa a outra”, por Roberta Lippi

Eu mesma levei décadas para entender como a rede de apoio feminina foi fundamental na minha vida e o quanto eu sempre fui impactada pela “sí

Atualizado em 26/05/2023 às 10:05, por Roberta Lippi.

Opinião

Cresci ouvindo que as mulheres não eram muito confiáveis. Que elas eram competitivas, que ficavam de olho no homem da outra, que os papos entre os homens eram sempre muito mais interessantes. Que deveríamos aguentar determinados desaforos e estarmos sempre lindas e cheirosas para que o nosso parceiro não saísse em busca de outra. As mulheres da minha geração normalizavam assédio e tendiam a enxergar os homens como os mais inteligentes. Demorou muito tempo para descobrirmos que isso não passava de uma falácia criada pelo universo machista em que vivemos, interessado em manter o status quo.


ndrome da impostora”. Algumas amarrações só consegui fazer recentemente, quando tive de escolher um recorte da minha trajetória para contar no livro recém-lançado “Uma Sobe e Puxa a Outra”, um coletivo de histórias de mulheres muito diversas que, em comum, alcançaram o sucesso (independentemente do que o sucesso representa para cada uma) e hoje se unem na missão de impulsionar outras mulheres para tornar esse mundo mais humano, justo e gentil. O livro, organizado em tempo recorde, já teve duas edições publicadas, com um total de 113 autoras – e muitas histórias emocionantes e inspiradoras!


Crédito:Reprodução

Eu tinha o feriado do carnaval e um espaço de 12 mil caracteres para preencher com a minha autobiografia, vejam bem. Parecia quase impossível abordar, em apenas seis páginas de um livro, os diferentes chapéus que já ocupei (e alguns que ainda ocupo) na vida: mãe, mulher, filha, repórter, blogueira de maternidade, executiva, voluntária, mentora. Ao mesmo tempo – e olha a síndrome da impostora aí de novo –, eu questionava se deveria mesmo ter aceitado esse convite, afinal minha história era muito normal perto de mulheres tão incríveis e poderosas que estavam também escrevendo seus capítulos.


Não sei quantas vezes li, reli, apaguei, reescrevi, odiei e me emocionei nesse processo. Optei por contar histórias que se entrelaçam a partir de um fio condutor: as referências femininas e a luta por um mundo com mais equidade, diversidade, humanidade e amor. Quando finalmente terminei, fiquei com um misto de sentimentos: de alívio, de orgulho, de emoção, de vergonha de me expor, de dúvida se havia escolhido os trechos certos para contar e, ao mesmo tempo, de muita vontade de continuar escrevendo e resgatar outras tantas experiências que me levaram a ser a pessoa que sou hoje.


Escrever esse capítulo autobiográfico me fez também refletir sobre o quanto cada mulher com quem cruzo todos os dias tem uma história linda e forte para contar. Quando nos humanizamos, quando falamos sobre nossas dores e fraquezas, nos unimos mais, nos fortalecemos, crescemos juntas. Hoje consigo entender a dimensão desse nosso grande valor, dessa potência. Minhas filhas terão mais sorte do que a minha geração – elas já nasceram muito mais empoderadas. Mas sempre é tempo de nos observarmos, de nos reconhecermos, de entendermos o quanto apoiar outras pessoas nos torna seres humanos melhores, profissionais melhores.


Independentemente de onde nossa história será contada, a escrita tem um poder transformador. Desde que fiz alguns cursos de escrita criativa com a Daniele Moraes (recomendo muito!), eu havia retomado o hábito de escrever como um hábito não só profissional ou criativo, mas também terapêutico e de auto-conhecimento. E confesso que foi uma catarse retomar depois de adulta o hábito dos diários e poesias que eu tinha na adolescência. Tenho indicado esse exercício para todas as pessoas com quem converso e para as mulheres que mentoro.


Depois que coloco meus pensamentos no papel, me reorganizo. Limpo as sujeiras, os vieses, os sentimentos mais amargos. Tento colocar os pensamentos nas suas devidas caixinhas e a escrita tem me ajudado muito a não dar um peso maior para cada caixa do que ela merece ter. Ah, e digo papel porque, exceto no caso do capítulo do livro, que fiz no computador, a escrita que me refiro tem se dado no bom e velho papel em branco, à mão. Mantenho sempre meus cadernos (sim, são vários e separados por temas) ao lado da cama e, quando me dá vontade, escrevo páginas e mais páginas sem parar.


Recomendo que vocês, leitoras e leitores, também escrevam a sua autobiografia no papel, mesmo que nunca seja publicada em um livro (ou talvez, quem sabe?). É libertador, emocionante e muito poderoso, acreditem!


Crédito:Arquivo Pessoal

* é sócia da Brunswick Group, consultoria internacional de comunicação estratégica. Jornalista com pós-graduação em gestão empresarial pelo Insper e especialização em comunicação internacional pela Universidade de Syracuse/Aberje, tem 25 anos de experiência na área de comunicação, com foco em posicionamento corporativo, mídia, crises, comunicação interna e treinamento de executivos.