“Uma resposta possível”, por Rafiza Varão
Mais que um detalhe, religião é central na vida política brasileira
Opinião
No último texto que publiquei pela Imprensa Educa, indiquei que os jornalistas, durante a eleição atual, deveriam se preocupar não só em cobrir a questão religiosa (como têm feito cada vez mais neste segundo turno), mas deveriam se perguntar, para compreender, os motivos que fazem com que a religião seja definidora de campanhas e pleitos em nosso país. Noticiar é função primordial do jornalismo, da mesma forma deveria ser tentar explicar os acontecimentos.
Não demorou muito, acompanhamos por dias a fio o aumento das discussões sobre maçonaria, demônio, satanismo, confusão desrespeitosa no dia da padroeira do Brasil, fakes sobre templos que serão fechados, campanhas dentro das igrejas, ofensas a autoridades religiosas cristãs (com pouca repercussão sobre ofensas a outras crenças, muitas vezes associadas também ao diabo), o velho discurso do mal comunista etc. A extrema direita brasileira, que conhece melhor os meandros dessa fusão entre religião e política como meio para se ganhar eleições, produz novas imagens e avança sobre aquilo que vem se convencionando chamar de agenda de costumes. É o caso da fictícia ideologia de gênero, que nos legou os indetectáveis kit gay e mamadeiras de piroca, e agora nos oferece um temor novo: o banheiro compartilhado por vários gêneros.
A partir desse último ponto, construo aqui uma possível resposta, entre tantas outras prováveis, à pergunta que sugeri ser feita, ainda que com as lacunas da análise brevíssima. O brasileiro, como todos outros povos e nações, vota segundo sua bússola moral. No nosso caso, entretanto, esta continua apontando para o Norte de uma moral que busca na religião sua completa ou parcial justificativa e não necessariamente pensa em direitos civis. Não é à toa que a desinformação, que encontra suporte para sua propagação em crenças e não em fatos, encontre o terreno adubado para se espalhar de maneira viral no Brasil.
Essa moral majoritária, ligada à religião e à fé, permeia o cotidiano brasileiro como uma herança de séculos de colonização sem autonomia (éramos proibidos de imprimir até o século XIX, por exemplo) e uma submissão aos comandos de Roma (o último tribunal da inquisição foi encerrado no mesmo século). Os problemas sociais foram, por muito tempo, explicados sob uma lógica determinista e divina. Lembro de ouvir, na infância e adolescência, explicações racistas para a desigualdade entre pobres e ricos, negros e brancos no país, esculpidas de forma inescrupulosa debaixo de um apelo à Bíblia.
Eram tempos em que muitos confundiam o homem cordial, de Sérgio Buarque de Hollanda, com um brasileiro cheio de afeto, gentileza, simpatia e acolhimento indefectíveis. Ignorava-se, em grande medida, que o termo se refere às emoções colocadas sempre à frente da racionalidade, ao coração, músculo involuntário, decidindo as ações. Esquecia-se que Hollanda também falava de hipocrisia, mau trato da coisa pública, de fingimento e superficialidade. É assim que ele nos diz sobre essa cordialidade: “Detém-se na parte exterior, epidérmica, do indivíduo, podendo mesmo servir, quando necessário, de peça de resistência. Equivale a um disfarce que permitirá a cada qual preservar inatas suas sensibilidades e suas emoções”. A essa percepção, não se pode deixar de associar nossa relação com o imaginário religioso e seu uso em campanhas que recorrem ao emocional. Somos um povo movido por credos, sentimentos e devoções. Desse modo, estes têm sido um pano de fundo para justificar desde um golpe militar, como o de 1964, até o caráter duvidoso de candidatos que não se alinhem à sua agenda tradicional – que engloba uma ideia de pátria, de família e de religião muito específica.
Hoje, associado a isso, está a promessa que muitas igrejas têm feito, sobretudo nos espectros que se distanciam de Roma, de uma vida próspera na Terra, não no além, com símbolos muito comuns desde o pós-guerra: carro, casa própria, emprego. No caldo da desigualdade social brasileira, essas juras se entrelaçam ao ressentimento e sensação de abandono que muitos possuem em relação ao Estado. Ou, então, se unem à certeza de que outros muitos tem sobre seu quinhão de bençãos a ser preservado, afastando projetos de coletividade.
Esses dois fatores nos apontam igualmente para a questão econômica, à qual esses posicionamentos acenam. O moralismo se expande, pois o que se opõe aos credos é imediatamente inimigo, mesmo que nosso país seja constitucionalmente laico. Ora, a religião, como definidora do certo e errado, igualmente nos dirá sobre o acerto e o erro na esfera política a partir dos dogmas do Bem e do Mal, conforme temos assistido em 2022. O Brasil vem se movendo por universos imaginários que, de tão fortes e reais, fortalecem o autoritarismo e a violência. O que são os direitos civis diante de uma guerra sobrenatural que não se enxerga?
É claro que isso não nos é exclusivo nem muito menos novo. Em 1925, o cientista político Harold Lasswell já alertava que uma das etapas primordiais de uma campanha política é a demonização do oponente. Segundo ele, para o sucesso de uma propaganda de guerra, "o inimigo deve ser satanás, e satanás deve ser o inimigo”. A moral desse opositor deve ser desgastada até as últimas consequências. Só assim se garantirá adesão ao que é defendido pelo “lado certo”. Pesquisas mais recentes também falam sobre isso.
O que assistimos nos últimos anos, portanto, não é um fenômeno recente, mas a sua diversificação e amplificação nos cenários políticos, com a sua entrada nas mídias sociais e sua consequente inserção no ecossistema de desinformação atual. Trata-se de um fenômeno cultural, não episódico, mas sedimentado no passado, com novos atores, mas velhas crenças. Em sociedades democráticas, a liberdade religiosa é garantida. É um direito escolhermos o que acreditamos (e o que desacreditamos). A espiritualidade é um dos traços culturais mais universais da humanidade. Mas já faz um bom tempo que a vemos ser utilizada de forma vexatória, hipócrita, baixa, antiética e abusiva para angariar votos. Nenhuma religião deve governar países.
O jornalista deve explicar isso a seu público? Com certeza, isso deve ser feito em materiais de análise e reportagens. Mas, mais que isso, precisa estar em sua mente quando cobre eleições que tudo isso não se trata de um detalhe, algo a ser apenas apontado, mas um componente fulcral da nossa vida política – embora não devesse – e que vem sendo utilizado de maneira inescrupulosa. Não é por acaso. Quem ganhou as eleições há quatro anos sabe disso.
* é doutora em Comunicação pela Universidade de Brasília (2012), na área de Teoria e Tecnologias da Comunicação. É mestre em Comunicação também pela Universidade de Brasília (2002), na área de Imagem e Som. Graduou-se em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo (1999). Leciona na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília e trabalha especialmente com Teorias da Comunicação, Ética e Redação Jornalística. Coordena o projeto SOS Im-prensa e é co-ordenadora editorial da FAC Livros.





