“Uma pergunta a ser feita”, por Rafiza Varão
Embora não deixe de cobrir o avanço da pauta religiosa no cenário político brasileiro, jornalismo deveria buscar compreender mais as motivaç
Opinião
Há alguns dias, um dos comentaristas da CNN brasileira afirmou que a estratégia discursiva em que se coloca a eleição de 2022 como uma luta do bem contra o mal (sobretudo como no apelo de Michelle Bolsonaro aos evangélicos) trata-se de uma atualização do “nós contra eles”, que se agigantou nos últimos anos de polarização política no Brasil. Em que pese o fato de o “nós contra eles” ser tomado como quase uma novidade, e não um dos pilares da política de forma geral, o que mais chama atenção nesse comentário é a subvalorização de um elemento antigo em pleitos no país e no mundo: o uso deliberado do imaginário religioso em campanhas.
A permanência e a força da religião no cenário político, entretanto, têm sido apontadas continuamente pela mídia brasileira, ainda que muitas vezes a partir de um olhar pouco especializado. É o que se constata facilmente a partir de uma busca simples (usando as palavras religião e eleições) no Google retorna nada menos que 5.080.000 de resultados na aba “Notícias”. A percepção de que o apelo ao embate bem e mal não é uma releitura, mas se constitui como elemento indissociável da vida política – não só a brasileira –, deveria ser ponto fulcral para pensar de maneira mais contundente as permanências, rupturas e interpretações possíveis do contexto que se apresenta agora, em 2022.
Desde o início do século passado, as ciências políticas tentam compreender como a religião (em especial a cristã), é usada como instrumento de propaganda no sentido de estabelecer mesmo uma guerra entre aqueles seriam bons (pensemos aqui na ideia de “cidadão de bem”) e aqueles que ameaçam esses bons, os maus, os que espalham o terror e, assim, devem ser associados a forças malignas. Desse modo, por exemplo, o cientista político estadunidense Harold Lasswell, ao avaliar a propaganda na Primeira Guerra Mundial, identificou como uma das cinco estratégias para derrotar o inimigo a demonização deste. Diz Lasswell: “ é seguro para fortalecer a mente da nação com exemplos da insolência e depravação do inimigo. O culpado é satânico e satânico é o culpado”. Associada a essa perspectiva, também é importante desmoralizar o adversário, tornando-o vil.
Esses dois pontos são fundamentais para compreender como o apelo à religião se torna elemento indispensável, então, em campanhas políticas (embora essa indispensabilidade deva ser profundamente problematizada nas sociedades democráticas contemporâneas, fundadas sobre o princípio da laicidade, entre outros). A religião toca em uma das mais importantes esferas do humano: a moralidade. Muitas das nossas normas de conduta advém do predomínio da racionalidade religiosa em nosso cotidiano, seja qual religião professemos – e mesmo quando não professamos nenhuma.
No Brasil, 90% da população afirma ter alguma religião. O catolicismo ainda é a que apresenta mais adeptos, mas outras crenças cristãs ou que dialogam com o Cristianismo ajudam a compor o quadro que nos transforma no segundo maior país cristão do mundo. Sabemos, também, que o Brasil repele as religiões de matriz africana ou mesmo as de origem indígena, e outras minoritárias, o que as coloca quase sempre como alvo do discurso de ódio e de intolerância. Portanto, é sobre esse imaginário cristão e de uma cosmogonia entre bem e mal que nossa política avança também, reclamando uma moralidade que vem por meio de regras que não são as dos cidadãos, normas do Estado de direito, mas que pairam acima deles. Hoje, o lugar que foi do catolicismo no passado (quando o comunismo foi identificado como o inimigo demoníaco) é ocupado, em parte, pelas diversas igrejas evangélicas que ascenderam a partir da década de 1990 e cujos representantes começam a chegar cada vez mais ao poder, a partir desse início de século vinte. Isso também é natural: grupos que se fortalecem exigem seu lugar no espaço político.
Dessa forma, a longa tradição de se misturar política e religião (vejam só, dois dos componentes que o ditado popular diz que não se discutem), segue firme e avança sobre as agendas diariamente, amealhando eleitores aqui e ali. Não é coisa nova, não é uma releitura. E, embora não seja sempre assim, há abusos religiosos no processo eleitoral. Talvez coubesse aos jornalistas começar a se perguntar: por que a religião continua ditando os rumos da política no Brasil? E, depois, claro, responder à indagação.
* é doutora em Comunicação pela Universidade de Brasília (2012), na área de Teoria e Tecnologias da Comunicação. É mestre em Comunicação também pela Universidade de Brasília (2002), na área de Imagem e Som. Graduou-se em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo (1999). Leciona na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília e trabalha especialmente com Teorias da Comunicação, Ética e Redação Jornalística. Coordena o projeto SOS Im-prensa e é co-ordenadora editorial da FAC Livros.





