Uma leitura crítica da pauta na TV, por Cidoval Morais de Sousa

Uma leitura crítica da pauta na TV, por Cidoval Morais de Sousa

Atualizado em 20/07/2005 às 11:07, por Cidoval Morais de Sousa*.

Por No final dos anos 1980 o jornalista Raul Bastos, na época coordenador do Núcleo de Afiliadas da Rede Globo, dizia, nos seus treinamentos, que a pauta, em televisão, é o começo de tudo. Não só dizia, como nos levava a acreditar pela forma como conduzia suas falas e ações. Para ele não bastava organizar as reuniões, coletar sugestões e negociar prioridades do dia ou da semana. Havia uma outra tarefa fundamental: produzir a pauta.

Sim, uma boa pauta, dizia ele, é uma grande reportagem, bem amarrada em seus propósitos, com texto claro, enxuto, correto, investigação segura, fontes confiáveis e um bom roteiro para orientar repórteres e cinegrafistas no seu trabalho campo. Em televisão não se pode perder tempo, insistia. As equipes de rua não podem partir do zero, nem correr atrás do que já está disponível.

Pragmático, Bastos não dava muita importância às discussões que, durante muito tempo, ganharam corpo nas redações envolvendo pauteiros, chefes de reportagem, produtores e repórteres sobre o que se chamava, na época, de camisa de força da pauta. Uma ferramenta com essas características exigia mais dos pauteiros e/ou produtores, e, teoricamente, menos das equipes de rua, que, para o telespectador que não conhece as rotinas produtivas da TV, ficavam com o mérito do trabalho.

Como o nosso herói não queria saber de vaidades, mas de resultados, deu pouca importância para as discussões. Quem passou por sua escola aprendeu a sentir falta, nos livros e manuais de telejornalismo, de referências à pauta. Na realidade, todos os títulos disponíveis hoje no mercado foram produzidos ou por repórteres ou por editores de textos. O pauteiro ainda não teve tempo de escrever o seu. É que se ele parar, não tem matéria.

Nas propostas multifuncionais que tomam conta das redações hoje em dia, repórteres que dividem a rua com a produção, editores apuram, entre tantas outras novidades, o pauteiro não teve problema para se adaptar às chamadas novas exigências do mercado. Ele já era polivalente. O texto, a seguir, é uma tentativa de problematizar o lugar da pauta na televisão.

O que é de fato
Nas emissoras de televisão a reunião de pauta é a arena onde as negociações sobre o que e como veicular nos telejornais são realizadas, onde se busca o consenso, diga-se de passagem, temporário, sobre o significado e as possíveis repercussões de determinados conteúdos junto à audiência e o mercado, e onde as relações de poder são evidenciadas em batalhas tensas pela demarcação do lugar, de cada um, na redação.
É, também, na reunião de pauta, que são negociadas (e distribuídas) tarefas, prazos, tempos médios das matérias (são medidas em segundos), fontes que devem ser ouvidas e, principalmente, a orientação, ou seja, o enfoque que determinado tema deve receber. Críticas e sugestões, quase sempre, se misturam num universo de interesses heterogêneos, que vão da necessidade de afirmação profissional à omissão intencional para agradar clientes.

Costuma-se dizer, no meio jornalístico, que a pauta é o pulmão das redações. É, ao mesmo tempo, um setor, com características próprias, tarefas definidas (garantir matérias para os telejornais, por exemplo), pessoal especializado (produtores, pauteiros, chefes de reportagem); uma estratégia de planejamento (não só define o que fazer, como articula, apura, investiga, contata fontes, viabiliza a produção); e um documento (texto base com informações chaves que orienta as equipes nas ruas e os editores nas redações).

Dimensões
A pauta expressa pelo menos cinco dimensões: a tarefa a ser cumprida, o consenso da empresa, as nuances do processo, pré-seleção de fontes e informações e a questão pedagógica.

A tarefa é a missão, aprovada nas reuniões e referendada pela empresa, representada, quase sempre, pelo diretor de jornalismo, que se espera ver cumprida nos prazos preestabelecidos. O jornalista quando recebe a pauta (documento escrito) sabe que recebeu mais do que isso: recebeu uma ordem.

O consenso da empresa aparece, primeiro, nas retrancas (palavras chaves), que expressam o assunto a ser coberto; depois, no resumo da idéia negociada na reunião de pauta, caracterizada sob alcunha de "objetivo" e/ou "proposta".
Por fim, nas recomendações de tratamento que se espalham pelo corpo do texto, sem lugar fixo (às vezes de forma explícita: "queremos a matéria assim"; às vezes de forma implícita: "o assunto é polêmico").

No que diz respeito às nuances, nem sempre o documento final expressa claramente as discussões, crises, críticas, tensões, interesses em jogo, seleções, pré-seleções, acordos, negociações. A pauta carrega tudo isso e muito mais: é, essencialmente, uma rede de disputas.

As tensões se concentram, quase sempre, na interpretação dos valores-notícia, no confronto entre interesses jornalísticos e interesses comerciais, na natureza e cultura da organização e no conceito de qualidade.

É importante destacar que as disputas em torno da aplicação dos chamados valores-notícia (características que impregnam aos fatos visibilidade jornalística: revelação, descoberta, sensação, drama, tragédia, curiosidade, serviço etc.) são clássicas no universo do jornalismo: decorrem, em grande medida, das leituras de mundo e de mercado presentes nas redações, que são construídas, de um lado, no processo de formação acadêmica (graduação, aperfeiçoamento, pós-graduação), e, de outro, na experimentação cotidiana da ação jornalística nos diferentes meios.

Mesmo quando, aparentemente, um evento reúne todas condições "exigidas" para ser classificado como notícia, ainda há pendências a serem resolvidas, como o tratamento editorial que deve receber, por exemplo.

Outra disputa não menos clássica nas reuniões de pauta é a tênue fronteira entre jornalismo e publicidade: uma proposta de matéria sobre tecnologias de tratamento de esgoto pode passar sem resistência se a fonte for uma universidade ou centro de pesquisa (a matéria, nesse caso, é entendida como prestação de serviço); mas pode, também, se transformar num campo de batalha se a fonte for uma empresa privada (aqui a matéria pode ser interpretada como publicidade gratuita).

É na reunião de pauta que tem início o processo de seleção, primeiro, de informações, fatos, acontecimentos, fragmentos de realidades, e, depois, de fontes que darão a esses mesmos fragmentos, fatos, acontecimentos, sustentabilidade como produto midiático.
Essa dimensão coletiva, contudo, é precedida de uma outra não menos importante, interna, individual - aquela em que os filtros de toda ordem interagem, no indivíduo, construindo e desconstruindo significados, organizando os discursos que serão submetidos à apreciação do grupo.

A dimensão pedagógica da pauta contempla as recomendações, sugestões, orientações, algumas de natureza técnica, outras de forma e condução de conteúdos centradas, em grande medida, nos saberes do campo jornalístico.

As recomendações, orientações e sugestões nem sempre estão expressas no documento; mas nenhuma equipe sai a campo sem uma conversa com o pauteiro, produtor ou chefe de reportagem de plantão, para trocar idéias sobre a pauta e verificar que tipo de apoio a redação vai oferecer à produção.

As dimensões aqui exploradas não estão separadas, nem se manifestam por fases; são representações, leituras de um processo que oportuniza relações de toda sorte, que vão da cooperação ao conflito. No entanto, como o próprio título pontua, são apenas apontamentos à espera de críticas e desconstruções.

* Jornalista, Doutor em Ciência pela Unicamp, professor de Sociologia da Universidade de Taubaté (SP). Trabalhou como editor, chefe de reportagem e de redação em afiliadas do sistema globo por mais de 13 anos e como diretor de jornalismo de emissoras da Rede Brasil.