Uma "contra-história" do Tropicalismo - Por Eugênio Rego / UEP(PI)

Uma "contra-história" do Tropicalismo - Por Eugênio Rego / UEP(PI)

Atualizado em 02/05/2005 às 12:05, por Eugênio Rego e  estudante de jornalismo da Universidade Estadual do Piauí.

Por Uma publicação no mínimo polêmica foi lançada no mês de abril, na Academia Piauiense de Letras. "Todos os Dias de Paupéria: Torquato Neto e a Invenção da Tropicália" é o título da obra originária da tese de mestrado do professor piauiense Edwar de Alencar Castelo Branco, defendida na Universidade Federal de Pernambuco, em fevereiro de 2004.

Ao contrário do que se possa pensar pelo que sugere o título, o livro não pretende sacudir as bases da pesquisa histórica, alardeando novos achados. O autor ressalta que "o foco de sua pesquisa foi mostrar como os jovens envolvidos com manifestações culturais nos anos 60 interagiram com os acontecimentos da época - a mais atípica da História nacional".

Bem antes de virar livro, a tese do piauiense, ao que parece, já despertava curiosidade de um público bem diversificado por jogar mais luz sobre manifestações que ficaram um pouco de lado dentro do Tropicalismo. "O movimento é multifacetado mas as demais manifestações ficaram na sombra da música e das imagens de Caetano Veloso e Gilberto Gil. O tropicalismo não foi apenas música mas literatura, artes plásticas, entre outros ", observa Edwar.

O professor ressalta que, apesar de figurar no título da obra, Torquato Neto é apenas uma das figuras ao lado de Tom Zé, José Agripino de Paula, Jomard Muniz de Brito, entre outros, que tiveram seu trabalho usado como pano de fundo para a tese.

Torquato, coloca o autor "traduz bem a vertigem existencial que afetou os brasileiros que assistiram o País acordar para a pós-modernidade, principal marca dos anos 60". "Quero provar também que a morte do poeta piauiense é uma simbologia de que o Brasil atrasado e cafona que tanto o amedrontava acabou vencendo", defende.

ANOS DE ARQUIVO : Durante quatro anos, Edwar Castelo Branco, que é professor do Departamento de História da Ufpi, empenhou-se em esmiuçar arquivos alusivos ao tema em quatro cidades nordestinas: Recife e Caruaru, em Pernambuco, João Pessoa, na Paraíba e Teresina.

O trabalho, escrito em mais de trezentas páginas, foi examinado por uma banca composta pelos Professores Doutores Durval Muniz (Ufrn) Margareth Rago (Unicamp), Teresinha Queiroz (Icf), Lourival Holanda) e Antonio Paulo Rezende (ambos da Ufpe), sendo aprovado com distinção e indicado para publicação.

O tema polêmico, despertou o interesse de uma editora nacional e o livro, mesmo antes de ser lançado em sua terra natal, o título já alcançou cinco estrelas na cotação dos leitores no site da Livraria Cultura. A apresentação de "Todo os Dias de Paupéria..." é do historiador Durval Muniz de Albuquerque Junior e o prefácio é da piauiense Teresinha Queiroz.

Edwar acredita que o viés universal de seu livro foi um dos atrativos para que uma editora de alcance nacional se interessasse em publicá-lo. "A 'contra-história' é desconcertante sempre desperta o interesse principalmente porque anda lado a lado com a polêmica e é isso que as editoras querem", analisa.

Ele diz não ter sofrido nenhum tipo de desvirtuamento ou crítica por ir de encontro ao que está decantado como história. "Em nenhum momento ataco as 'verdades tropicais' que foram colocadas com o Tropicalismo. Meu intuito é fazer com o público perceba a importância que movimentos menos incensados mas que compõem parte importante do movimento".

ISSO É PIAUÍ: Outro intuito do agora Professor Doutor piauiense é divulgar a essência do seu estado através da obra. "O Piauí está presente a partir da capa que é uma reprodução 'Manhã Tropical', de Manoel Ricardo Arraes Filho", diz ele.

Para quem já leu a obra, ela é "indicação fundante para quem tenha o intereesse de compreender a tropicália e outras manifestações culturais que marcariam profundamente a vida brasileira a partir dos anos 60. Um presente ao leitor".