Uma arte feita de questionamentos, por Eugênio Rego / UESP

Uma arte feita de questionamentos, por Eugênio Rego / UESP

Atualizado em 10/03/2005 às 12:03, por Eugênio Rego e  estudante de jornalismo da Universidade: Universidade Estadual do Piauí.

Por Piauiense mestre em Artes Visuais e professor de escola de artes no Rio de Janeiro fala sobre os significados da arte contemporânea e suas implicações na formação do homem

Uma jangada colocada em um grande salão. Troncos de madeira sob a forma de lápis e empilhados. Uma estante com livros. Para o espectador a visualização desses objetos numa exposição podem causar estranheza ou questionamentos do tipo "mas isto é arte?".
Para os mais desavisados todos estes objetos são obras de Arte Contemporânea e, propositalmente, estão ali para provocar a imaginação, o intelecto e a percepção de mundo de quem os observa.
É o que esclarece o piauiense David Cury, mestre em Artes Visuais pela UFRJ e professor da Escola de Artes do Parque Laje, na capital carioca: "A arte na atualidade é um agente de provocação contínua de reflexão sobre o mundo em formação. Dada essa dinamicidade, o artista contemporâneo se empenha em refutar valores estáveis, em contestar noções tradicionais que pudessem fornecer a falsa idéia de um mundo estável ao espectador".
De férias em Teresina, Cury concedeu entrevista ao Galeria após palestra com arte educadores, estudante de artes e artista com o tema "Cena Geral da Arte Contemporânea", na Casa da Cultura.
Ele analisa que "a arte contemporânea brasileira é um dos grandes destaques do segmento em nível mundial". "A presença de obras nacionais nas coleções de instituições reputadas como o Modern Art Museum, o MoMa, em New York, a Fundação Cartier, em Paris, Fundação Ludwig, em Berlim, na Tate Gallery, em Londres, indica que o artista nacional possui o entendimento necessário a que ela se propõe", completa David Cury, destacando artistas como Ernesto Neto, Tunga, Cildo Meireles, Valtércio Caldas, Beatriz Milhazes, Patrícia Varejão na cena atual.
ESTRANHAMENTO: O piauiense, que também é especialista em História da Arte pela PUC - RJ diz que a "obra de arte contemporânea é, por excelência, uma experiência estranha porque ela evita provocar no espectador uma falsa familiaridade. A função deste tipo de obra de arte é questionar a visão de mundo que o observador tenha".
"Visitar uma exposição de arte contemporânea é um programa de exploração das idéias, dos materiais, formas, procedimentos de arte existentes. Hoje em dia não se julga mais uma pintura por padrões tradicionais, por exemplo. Não interessa mais se a pintura é feita sobre um quadro, uma lona, etc", completa.
"O mundo atual está cheio de acontecimentos coletivos que exigem do homem contemporâneo uma posição crítica. O artista contemporâneo se coloca como esse provocador de opiniões, um analista destas ações e isso está igado à atualidade de forma umbilical", completa.
MARCO EM ABERTO: David Cury coloca que a datação do marco da arte contemporânea no Brasil é problemática mas declara que é um consenso entre os historiadores que pode-se considerar neste segmento toda a produção feita desde o pós-guerra, isto é, da II Guerra Mundial.
"Com o Conceitualismo nos anos 60 é que se fundam os alicerces da arte contemporânea no Brasil e Hélio Oiticica e Lígia Clark são dois dos grandes ´desinibidores` da arte conceitual no Brasil a partir deste período", relata.
Segundo ele, estes dois artistas são os mais estudados fora do Brasil e têm tido sua obra constantemente exibida e reavaliada por historiadores, teóricos de arte e museus em todo o mundo.
Sobre o teor político das obras deste segmento, Cury coloca que a "a arte contemporânea é uma arte de contracultura porque foi criada num período de luta pelos direitos humanos, liberdade sexual, revoltas políticas". "Ser de contracultura neste caso é ser contra a homogeneização das diferenças e ela se manifesta no sentido de salientar e dar visibilidade das diferenças", completa.

Obras questionam público e artista

David Cury declara que é absolutamente normal que o público pergunte se a arte contemporânea é arte realmente. "Quando o artista propõe ao espectador um questionamento sobre o que é e o que não é arte ele quer por extensão que você saiba que este é conceito é provisório assim como o tudo na atualidade", explica.
Essa transitoriedade de conceitos constitui-se, na verdade, em queixas da maioria sobre o sentido de determinada tela ou instalação que pode parecer absurda ou completamente sem sentido para quem as contempla.
Isso se deva, talvez, ao pouco contato com as manifestações artísticas de um modo geral - como conferir exposições de arte, por exemplo. Outro fato seria a falta de boa vontade do espectador em tentar dialogar com a tela, escultura ou instalação, ação necessária para o entendimento e passo fundamental para o entendimento e conhecimento da função educativa destas vertentes artísticas.
Uma das nuances mais controversas das obras é seu tempo de duração: muitas delas são absolutamente descartáveis. "Isto remete imediatamente a tal transitoriedade. Nada neste mundo é definitivo. Este lado questiona sobre a nocividade da geração de valores estáveis para o ser humano. A vida é uma experiência circunstancial, do aqui e agora", diz Cury.
Sobre a interatividade das obras de arte contemporânea que muitas vezes convida o espectador a entrar por túneis, salas, entre outras situações, segundo o professor, é uma forma de dizer que espectador e artista estão em contato através daquela obra. "A interatividade é um reforço da simultaneidade. A obra acontece junto com o momento presente da visitação. O espectador é a parte do mundo que se relaciona com a obra e vice-versa. O que se estabelece é um jogo que requer um comportamento crítico sobre você e o mundo ao seu redor. São normais ter sentimentos de constrangimento ou embaraço em determinadas situações de contato com a produção do artista", explica.