"Uma ameaça ao jornalismo", diz repórter da Al Jazeera sobre policiais em Ferguson
IMPRENSA conversou com Aaron Ernst, da Al Jazeera dos EUA, que ouviu de um policial: "vou estourar sua cabeça".
Atualizado em 11/09/2014 às 15:09, por
Lucas Carvalho*.
Michael Brown era um jovem negro de 18 anos que vivia em Ferguson, cidade no estado de Missouri, região centro-leste dos Estados Unidos. No dia 9 de agosto, ele foi assassinado por um policial local, que o acusou de ter roubado cigarros de uma loja de conveniência. O caso reacendeu a discussão sobre discriminação racial no país e deflagrou uma onda de violentos protestos que estamparam as manchetes internacionais.
Dentre os inúmeros confrontos entre manifestantes e policiais na região de Ferguson, jornalistas faziam seu trabalho. Alguns profissionais foram presos, outros atingidos por pedras ou gás lacrimogênio, e muitos foram intimidados e ameaçados pelos dois lados do conflito. Aaron Ernst, repórter da Al Jazeera America, ouviu de um policial: “vou estourar a sua cabeça”. Crédito:Divulgação Aaron Ernst, da Al Jazeera, foi ameaçado por um policial apenas por filmar uma via pública Ernst foi abordado por uma dupla de agentes na cidade vizinha de Kinloch, próximos a fronteira com Ferguson. O jornalista, ao lado de um cinegrafista da emissora, gravava uma reportagem sobre a cultura racial na região, entrevistando moradores e filmando imagens de apoio na estrada.
No vídeo divulgado pela Al Jazeera, um agente da polícia diz que os profissionais não poderiam fazer seu trabalho naquela região à noite, sem maiores explicações. "Você não precisa filmar nada. Você precisa cair fora daqui. [...] Você ouviu o que eu disse? Você quer ir para a cadeia? Nós vamos! Vou te prender! Vou estourar sua cabeça aqui mesmo!", disse o policial.
Aaron Ernst conta como a mídia norte-americana foi tratada durante as manifestações, comentando o próprio caso e dando sua visão sobre a liberdade de imprensa no país.
IMPRENSA: Na sua visão, como os jornalistas foram tratados enquanto cobriam os protestos em Ferguson? AARON ERNST: Eu só estive em Ferguson por três dias, principalmente ajudando com uma visão mais externa. Então, eu não estava no meio dos protestos e não tive contato com muitos outros jornalistas na maior parte do tempo. Naquele incidente, minha sensação é de que os dois policiais tinham uma visão muito baixa sobre nós jornalistas.
Na atitude deles, a segurança pública, como eles se justificavam, superava qualquer outra consideração, inclusive a liberdade de imprensa. Nesse contexto, eles trataram a imprensa como um incômodo, que estava lá só para arranjar confusão. Essa é a única explicação que eu tenho para a forma como nossa equipe foi tratada.
E como você definiria a maneira como foram tratados? De forma abominável. Nos foi dada uma ordem ilegal para deixarmos uma área pública, onde nenhum toque de recolher estava em vigor. Na minha opinião, isso é abuso de autoridade.
A polícia chegou a ser uma ameaça ao jornalismo durante os protestos? É difícil fazer qualquer afirmação sobre “a polícia”, pois havia diversos departamentos de segurança envolvidos. De qualquer maneira, eu sinto que os policiais com os quais cruzamos eram definitivamente uma ameaça ao jornalismo. A atitude deles dizia que poderiam fazer o que quisessem, sem enfrentar qualquer tipo de consequência. Esse é um pensamento perigoso, do tipo que torna extremamente difícil para jornalistas fazer seu trabalho.
Vocês tentaram algum diálogo com a polícia de Kinloch após o incidente? A sensação que tive foi de que aquele departamento não estava interessado em qualquer tipo de diálogo. Liguei para a delegacia local para tentar identificar o agente que me ameaçou e desligaram na minha cara.
Em algum momento você teve medo de ir a Ferguson? Não. Enquanto eu estive lá, não parecia um local perigoso ou arriscado. Senti que o máximo que poderia acontecer era eu ser preso ou ter meu material confiscado. A Al Jazeera providenciou máscaras de gás, as quais nunca precisei usar enquanto estive lá, apesar de muitos colegas terem usado.
Após o incidente com os policiais em Kinloch, como você se sentiu em relação à liberdade de imprensa na região? Me senti incrivelmente frustrado quando fui ameaçado de agressão física apenas por estar fazendo meu trabalho. Eu tive plena consciência do desequilíbrio de poder. Ele e seu parceiro estavam armados, poderiam me prender junto com minha equipe sem razão legítima, tendo todo o apoio do sistema legal a sua disposição.
Mas fiquei também muito grato por estar acompanhado de outro cinegrafista. Se eu fosse o único com uma câmera gravando, acredito que teria sido preso e teria de enfrentar quaisquer acusações que o policial quisesse me impor. Não estava tão preocupado com minha integridade física quanto com as questões legais que teria de enfrentar. E, novamente, com absolutamente nada sendo feito a respeito do agente que me ameaçou e nos deu uma ordem ilegal.
Assista ao vídeo da ameaça (em inglês):
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves
Dentre os inúmeros confrontos entre manifestantes e policiais na região de Ferguson, jornalistas faziam seu trabalho. Alguns profissionais foram presos, outros atingidos por pedras ou gás lacrimogênio, e muitos foram intimidados e ameaçados pelos dois lados do conflito. Aaron Ernst, repórter da Al Jazeera America, ouviu de um policial: “vou estourar a sua cabeça”. Crédito:Divulgação Aaron Ernst, da Al Jazeera, foi ameaçado por um policial apenas por filmar uma via pública Ernst foi abordado por uma dupla de agentes na cidade vizinha de Kinloch, próximos a fronteira com Ferguson. O jornalista, ao lado de um cinegrafista da emissora, gravava uma reportagem sobre a cultura racial na região, entrevistando moradores e filmando imagens de apoio na estrada.
No vídeo divulgado pela Al Jazeera, um agente da polícia diz que os profissionais não poderiam fazer seu trabalho naquela região à noite, sem maiores explicações. "Você não precisa filmar nada. Você precisa cair fora daqui. [...] Você ouviu o que eu disse? Você quer ir para a cadeia? Nós vamos! Vou te prender! Vou estourar sua cabeça aqui mesmo!", disse o policial.
Aaron Ernst conta como a mídia norte-americana foi tratada durante as manifestações, comentando o próprio caso e dando sua visão sobre a liberdade de imprensa no país.
IMPRENSA: Na sua visão, como os jornalistas foram tratados enquanto cobriam os protestos em Ferguson? AARON ERNST: Eu só estive em Ferguson por três dias, principalmente ajudando com uma visão mais externa. Então, eu não estava no meio dos protestos e não tive contato com muitos outros jornalistas na maior parte do tempo. Naquele incidente, minha sensação é de que os dois policiais tinham uma visão muito baixa sobre nós jornalistas.
Na atitude deles, a segurança pública, como eles se justificavam, superava qualquer outra consideração, inclusive a liberdade de imprensa. Nesse contexto, eles trataram a imprensa como um incômodo, que estava lá só para arranjar confusão. Essa é a única explicação que eu tenho para a forma como nossa equipe foi tratada.
E como você definiria a maneira como foram tratados? De forma abominável. Nos foi dada uma ordem ilegal para deixarmos uma área pública, onde nenhum toque de recolher estava em vigor. Na minha opinião, isso é abuso de autoridade.
A polícia chegou a ser uma ameaça ao jornalismo durante os protestos? É difícil fazer qualquer afirmação sobre “a polícia”, pois havia diversos departamentos de segurança envolvidos. De qualquer maneira, eu sinto que os policiais com os quais cruzamos eram definitivamente uma ameaça ao jornalismo. A atitude deles dizia que poderiam fazer o que quisessem, sem enfrentar qualquer tipo de consequência. Esse é um pensamento perigoso, do tipo que torna extremamente difícil para jornalistas fazer seu trabalho.
Vocês tentaram algum diálogo com a polícia de Kinloch após o incidente? A sensação que tive foi de que aquele departamento não estava interessado em qualquer tipo de diálogo. Liguei para a delegacia local para tentar identificar o agente que me ameaçou e desligaram na minha cara.
Em algum momento você teve medo de ir a Ferguson? Não. Enquanto eu estive lá, não parecia um local perigoso ou arriscado. Senti que o máximo que poderia acontecer era eu ser preso ou ter meu material confiscado. A Al Jazeera providenciou máscaras de gás, as quais nunca precisei usar enquanto estive lá, apesar de muitos colegas terem usado.
Após o incidente com os policiais em Kinloch, como você se sentiu em relação à liberdade de imprensa na região? Me senti incrivelmente frustrado quando fui ameaçado de agressão física apenas por estar fazendo meu trabalho. Eu tive plena consciência do desequilíbrio de poder. Ele e seu parceiro estavam armados, poderiam me prender junto com minha equipe sem razão legítima, tendo todo o apoio do sistema legal a sua disposição.
Mas fiquei também muito grato por estar acompanhado de outro cinegrafista. Se eu fosse o único com uma câmera gravando, acredito que teria sido preso e teria de enfrentar quaisquer acusações que o policial quisesse me impor. Não estava tão preocupado com minha integridade física quanto com as questões legais que teria de enfrentar. E, novamente, com absolutamente nada sendo feito a respeito do agente que me ameaçou e nos deu uma ordem ilegal.
Assista ao vídeo da ameaça (em inglês):
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves





