Um "release" orientou a divulgação da primeira transmissão radiofônica
Um "release" orientou a divulgação da primeira transmissão radiofônica
Um "release" orientou a divulgação da primeira transmissão radiofônica
Semana passada registrei neste espaço a minha percepção em torno do "fiasco" que teria sido a primeira transmissão radiofônica realizada no Brasil em 7 de setembro de 1922, no contexto das comemorações do Centenário da Independência. Volto ao assunto para destacar, primeiro uma "coincidência" e depois uma dúvida em torno de um registro que os historiadores do rádio fazem questão de mencionar, a suposta existência de 80 receptores, aparelhos de rádio que teriam sido distribuídos em pontos estratégicos para irradiar o discurso do Presidente da República Epitácio Pessoa e à noite, os acordes da opera "O Guarani", direto do Teatro Municipal.
Para começar há dois registros jornalísticos relevantes da primeira transmissão radiofônica: um do "Jornal do Commercio", o outro do jornal "A Noite", este último propriedade do Irineu Marinho, pai do Roberto Marinho. Ambos os veículos noticiaram em 08/09/1922, o evento com expressões coincidentes, dedicaram-lhe o mesmo espaço e o teor da matéria está mais para um "release" do que para a descrição do fato propriamente dito. A impressão que me dá é que os americanos da Western/Westinhouse responsáveis pela instalação e operação dos equipamentos e cujo intuito era "vender" a idéia do rádio para o Governo, cuidaram dessa questão da assessoria de imprensa. Ou seja, podemos estar diante, atenção pesquisadores, de uma ação pioneira de comunicação empresarial, num período em que sequer se cogitava a possibilidade de terceiros distribuírem conteúdos para a imprensa.
Caracterizado
O fato é que ambos os jornais, pertencentes a empresas diferentes, destacaram com as mesmas palavras: "a instalação de uma possante estação transmissora no alto do Corcovado e outros aparelhos de transmissão" e mais adiante, também usando as mesmas palavras: "à noite, no recinto da exposição, em frente ao posto de telefone público, por meio do telefone alto-falante...". Em seguida, com ligeiras variações, os jornais se reportam à transmissão da opera "O Gurani" que o JC publicou": como era cantada no Teatro Municipal" e "A Noite" disse: " Estava sendo cantada do Teatro Municipal". E o JC publicou: " foi ouvida por numerosa assistência" e "A Noite" disse: " foi ali distintamente ouvida". Ambos os veículos tiveram o cuidado de frisar que era um serviço da Rio de Janeiro and São Paulo Telephone Company com a Westinhouse Internacional Company e a Western Electric Company. Está mais do que caracterizado o "release".
Aí é que entra a minha dúvida. Se o "release" oficial que virou noticia, quase que no seu formato de distribuição, em nenhum momento menciona os 80 receptores, qual é a fonte que válida essa informação? Os jornais deixam bem claro que a recepção foi através de alto-falantes e não aparelhos de rádio. Incomoda-me a idéia de que não há registro fotográfico dos receptores e não sei de nenhum colecionador que tenha um "Aeriola" do consórcio RCA-Westinhouse-General Electric que, fora os aparelhos de galena, eram praticamente os únicos fabricados naquele tempo nos Estados Unidos. É claro que os gringos podem ter trazido e levado de volta os receptores, até por que se tratava de um item escasso e caro.
Mas, fica aqui a minha sugestão para se investigar melhor esse assunto, recorrendo aos registros históricos de guias de importação no Arquivo Nacional ou, melhor, às pastas do Ministério (me parece era o de Viação) que encampava a repartição dos Correios e Telégrafos. É claro que a nossa melhor fonte para se elucidar essa e outras questões em torno da primeira transmissão radiofônica está lá, em Washington, nos arquivos que pertenceram à Radio Corporation Of América, protagonista de todo esse processo.






