Um livro de Barbosa Lima Sobrinho
Um livro de Barbosa Lima Sobrinho
Barbosa Lima Sobrinho era Alexandre José, mas o Brasil nunca ficou sabendo disso. Foi com o seu sobrenome que escreveu em torno de 25 livros, assumiu uma cadeira de deputado federal, presidiu a Associação Brasileira de Imprensa por 16 anos (1925-29 e 1978-92) e tornou-se imortal da Academia Brasileira de Letras por mais de seis décadas. Faleceu no ano 2000, ainda lúcido, aos 103 anos de idade, reverenciado pela mídia. Mereceu. O fato é que Alexandre José Barbosa Lima Sobrinho escreveu apenas dois livros sobre imprensa: o primeiro, objeto deste artigo, publicado em 1923 com o título "O Problema da Imprensa", hoje (primeira edição) uma raridade bibliográfica de colecionador; o segundo, mais conhecido, publicado em 1979, a "Antologia do Correio Braziliense".
Aos 26 anos de idade, então residindo no Rio de Janeiro, na época redator político do Jornal do Brasil, ex-colaborador do Diário de Pernambuco, Jornal Pequeno(PE), Correio do Povo (RS), Jornal do Commercio (RJ) e Gazeta (SP), Barbosa Lima Sobrinho lançou a obra aqui referida. "O Problema da Imprensa" editado por Álvaro Pinto, impresso na Tipografia do Almanak Laemmert, 286 páginas. O tema não poderia ser mais atual (na época). Oportunidade que o jovem bacharel farejou, num momento em que o Brasil discutia as conseqüências da nova lei de imprensa, denominada de "lei infame" que o Governo autoritário de Arthur Bernardes acabaria por sancionar e que na prática representava um retrocesso. A referida legislação aumentava as penas já previstas no Código Penal, proibia o anonimato e relativizava as supostas ofensas, doravante um critério subjetivo do juiz.
A contradição estado de sitio X lei de imprensa
A polêmica em torno do projeto de lei apresentado pelo deputado Adolfo Gordo envolvia, naquele momento, políticos, juristas, proprietários e funcionários de jornais, desta vez unidos em torno da mesma causa. O debate em torno da "lei infame" de fato influenciou Barbosa Lima Sobrinho. No prefácio da obra revela essa sua motivação: "Num momento em que tanto se avolumou a campanha contra o jornalismo, alvo de uma lei opressora, pareceu-me oportuno expor os verdadeiros aspectos da imprensa, na coragem com que venceu obstáculos e na constância com que prepara o mundo para o porvir". Tinha plena consciência do verdadeiro objetivo da lei em curso, opinião que revela, já no escopo da obra: "Não custa a reconhecer que a campanha atual por uma lei de imprensa, surge, como todas as outras que se tem travado, de motivos de ordem política".
No capítulo A Campanha Atual e Seus Projetos expõe com todas as letras o seu ponto de vista: "Muita gente pensa, e não faz sigilo dessa convicção, que só se deve suspender o estado de sitio, depois de sancionada a lei de imprensa. Semelhante correlação entre matérias tão diversas e até opostas (o estado de sitio sendo realmente a suspensão de direitos individuais e a lei de imprensa uma demonstração da existência deles), levou os legisladores à adoção de medidas opressoras no seu projeto de lei". E conclui: "Seria mais liberal que se discutisse e votasse uma lei dessa natureza em época de completa liberdade de imprensa". Expõe, ainda, a sua convicção sobre o conceito de abuso: "Não há crimes propriamente ditos de imprensa: há abusos que são apenas da alçada da opinião pública".
Paixões violentas
Nos 26 capítulos do livro o autor faz um registro das restrições à imprensa no mundo e no Brasil e as tentativas de se encontrar "O meio termo ideal entre a licença e a tirania" e finalmente as conquistas obtidas a muito custo, naquele momento ameaçadas pelo projeto de lei em trâmite. Mas, o que torna a obra diferenciada em relação a outras do gênero é que Barbosa Lima Sobrinho não ficou apenas no registro histórico, faz uma profunda reflexão sobre o assunto, expõe abertamente as suas idéias; pretendia de alguma forma influenciar o debate parlamentar. Pena que não tenha conseguido, dadas as circunstâncias da época.
No ano seguinte (1924) o jornalista era promovido a redator principal do JB. Um degrau superior na sua carreira como um mirante para melhor observar na prática as conseqüências da lei que no seu livro, com sabedoria, antecipou, seria extremamente nociva; expunha os motivos de sua convicção: "está impregnada de paixões violentas e generalizadas".






