Um jornal como deveria ser, por Diego Antonelli
Um jornal como deveria ser, por Diego Antonelli
As controvérsias entre imprensa e empresa ainda repercutem entre jornalistas, estudantes de jornalismo e donos de veículos de comunicação. Porém, os meios por mais fama e lucro que busquem e alcancem não podem, ou melhor, não deveriam ser tratados como uma mera indústria na qual o que interessa é a busca constante por dinheiro. Para um jornal resistir com dignidade não deve ceder ao mercado. Deve, sim, resgatar a alma jornalística. Aquela que poucos profissionais lembram: o compromisso social do meio com a sociedade. Para isso acontecer é necessário aliar talento, competência e dever social. Alberto Dines em seu livro O Papel do Jornal aponta dicas para uma comunicação humana, profissional e criativa, contemplados de relatos profissionais do autor.
A maior dificuldade do jornalista é e sempre continuará sendo o papel em branco. Por mais complicada que seja a realização de uma reportagem, só ficará comprovado que o trabalho foi bem executado quando a matéria for redigida. Ela deve ser concisa e ao mesmo tempo recheada de dados. Não pode esquecer de citar nada e cuidar com as palavras e os termos usados, pois em uma ou duas frases o profissional pode destruir a vida de qualquer cidadão.
A imprensa atual está e é vendida. Ela informa como ela quer, forma opiniões que ela quer, com os interesses mercadológicos que a beneficiem. A crise da imprensa está aí. É visível a necessidade de montar uma imprensa com um novo papel. Que papel seria esse? Parece-me que ao resgatar a indignação dos jornalistas e da população às barbáries humanas damos um passo ao um jornalismo ideal tanto para a sociedade quanto para os profissionais éticos e leais com o espírito jornalístico. Papel. Este papel em que escrevemos e lemos um jornal também passa por crises. Ele custa muito. Para a empresa-imprensa não sofrer prejuízos sente-se que é fundamental ´afinar` o jornal. Ao afiná-lo deve ser repensado desde seu preço nas bancas ao custo da publicidade. Mas se o jornalista investir em seu talento, criatividade, competência e compromissos sociais, enfim, tentar fazer um jornal novo, completo e isento, não será acumulado prejuízo algum. Os leitores pagarão quanto for pelo conteúdo do meio e não por seu tamanho, desde que o preço não seja um absurdo se comparado ao salário de um trabalhador comum.
Na tentativa de ganhar dinheiro muitos confundem veículo popular com um jornal sensacionalista, conhecidos de "aperta que sai sangue". Este jornal abaixa o nível do que vem a ser Jornalismo. Aliás não devem nem ser tratados como tal. É uma forma de ganhar dinheiro em cima de fotos e fatos apelativos, além de expor muitas pessoas humildes que não gostariam de ver suas vidas sendo usadas para dar dinheiro a terceiros. "Jornal sangrento e sensacionalista é o substituto forçado do jornal que não pode ser verdadeiramente popular"(p.39).
A história da grande maioria dos jornais lembra o que Hegel propôs: tese-antítese-síntese. Os meios de comunicação nascem restritos a um determinado público, almejam a fama, circulam de forma massificada para, depois, não querendo tornar-se um meio desgastado, voltam a ser restritos, agora, a um público mais ´cult`.
Ao visitar um jornal, alguém que não é do ramo se assusta com a aparente bagunça que a redação se apresenta. Esta ´bagunça` é explicada pela rapidez que um meio diário exige devido a sua periodicidade. Outros fatores, além da velocidade, contribuem para a realização de um jornal, tais como: paciência, persistência, indignação e vontade. Toda gota de força de vontade do jornalista colabora para atingir a imagem final. Os seus acertos e erros não duram somente 24 horas. A composição final do produto é a interligação de cada edição. "Todo jornal continua amanhã", escreve Dines na página 48 de seu livro. Não pode esquecer que o leitor não tem a obrigação de arquivar todos os acontecimentos e, infelizmente, nem de ler o jornal todo dia.
Para evitar um processo mecânico do fazer jornalismo a maior arma que o profissional tem em suas mãos é a criatividade, uma meta dinâmica que o jornalista deveria perseguir diariamente e mentalmente. Porém deve sempre ter em mente que o único que nunca deve ser prejudicado é o leitor. Não importa o estilo de escrita, seja puxando para um linguagem mais literal, seja mais funcional, a informação deve ser a mesma. Um ponto a favor dos meios impressos é que a televisão e o rádio apenas informam o superficial, o "lead". Um meio que tem condições de aprofundar e situar o assunto é o jornal
Mas, "afinal o que quer o público?" (p.56). O que interessa ao jornalista, interessa ao leitor? Existe o leitor-padrão? A subjetividade e a individualidade são marcas da sociedade. O indivíduo não é estável. O profissional da imprensa tem a obrigação de escrever bem para uma orquestra de pessoas e de idéias. Não pode escolher os assuntos que mais o agradem, tem que pensar no leitor. A meta do jornal sempre será ele.
A amizade e intimidade com as pessoas fazedoras de notícia, como políticos, prejudicam o trabalho do jornalista. Por outro lado, estas pessoas se aproximam dos homens de imprensa para tentar estar sempre na mídia e, de preferência, com alguma atitude que seja bem vista pelos leitores. Esse é um cuidado que o jornalista deve ter: fugir do convívio extraprofissional e para possuir a liberdade de escrever a verdade sobre determinada "personalidade".
Um estilo para criar novos leitores é o new journalism. Um estilo próximo ao da literatura, algo entre a crônica, a reportagem e o depoimento pessoal do repórter. Um velho estilo que poderia ser utilizado para reformular esse padrão funcional de agulha hipodérmica que existem nos jornais atuais. Para produzir nesse formato jornalístico é necessário ter o cuidado de não esquecer os dados essenciais e acabar ficando preso aos detalhes supérfluos que o new journalism permite. O leitor não quer somente o básico, ele quer o desdobramento das matérias, interligação dos fatos, projeções futuras. Enfim, não basta usar um estilo atrativo, é dever do profissional fornecer matérias completas que informem de fato o cidadão. E não fingir que o que fazem nos dias atuais é suficiente para a sociedade.
Outro estilo de reportagem esquecido pelos atuais homens de impressa é a investigativa. O jornalismo investigativo não é aquele que muitos pensam, no qual prevalece os escândalos e apelação. Está relacionado com o jornalismo interpretativo, já que busca as ligações dos fatos e oferece a explicação do acontecimento. Não é restrito de denúncias, comporta também atitudes graves, estudiosas e responsáveis, como o autor escreve na página 92. Isto proporciona que o espírito crítico e questionador, atualmente desencarnado do jornalista e da sociedade, renasçam.
Muitos donos de jornais são taxados de empresários. Quando o proprietário do meio é jornalista temos o chamado ´jornalista-empresário`. Não deveria haver o compromisso da imprensa com demais empresas, especialmente as que fornecem publicidade a este veículo. Entretanto, isto ocorre muito e de forma perceptível. Ao pensar que o proprietário de determinado meio de comunicação é jornalista o primordial seria o compromisso de preservar os valores jornalísticos e não os financeiros. Como pode isto, um dia, mudar? Somente quando tivermos profissionais que se interessem com a qualidade de jornalismo e não com a quantidade de dinheiro provindo da publicidade e dos acordos políticos que os oligopólios da informação submetem-se.
O jornalista deve ser inquieto, teimoso, inflexível. Ele não pode desistir fácil de seus objetivos. Deve correr atrás dos fatos e das possíveis denúncias que pretende fazer em benefício da população. Mas para isso ocorrer é necessário liberdade. Passou a época de censura no Brasil e a liberdade de imprensa ainda não existe por completo. Os acordos já citados e interesses em publicar tais visões dos fatos permeiam os meios de comunicação como um todo, o que castra a liberdade dos repórteres. "Uma nação de grandes jornais é uma grande nação"(p.139). Jornais que tenham coragem de publicar o que for da visão mais isenta possível certamente colocarão medo em políticos e demais pilantras que existam nesse país.
A objetividade é uma lenda do jornalismo. Isso porque o profissional sempre seleciona e opta que palavras usar, que assuntos cobrir, o que será cortado, nunca esquecendo que "cada palavra é uma decisão"(p.120). A conformidade é inimiga do profissional. Qualquer fato anormal onde quer que aconteça deve ser investigado.
O diferencial do jornalista é quando ele persegue uma melhoria em sua profissão, um aperfeiçoamento subjetivo é uma meta que todo profissional tem a obrigação de buscar. Essa busca constante de melhoria profissional é uma das formas de extirpar a desinformação que permeia alguns meios de comunicação, como boatos e rumores de possíveis acontecimentos. Falar a verdade é a solução. Intrigas e mentiras dificultam a prática jornalística. "O papel do jornal (...) mais escasso, não pode alterar o papel do jornal"(p.139) que deve estar essencialmente ligado a indignação dos seus profissionais, contemplados por uma constante alma crítica e fiel aos valores jornalísticos.






