Um ensaio para 1.226.069 pessoas
Um ensaio para 1.226.069 pessoas
Toda quinta feira, ás 17hs, o jornalista Roberto Pompeu de Toledo tem um compromisso inadiável: enviar sua coluna para a redação da Veja . Apesar do cargo de editor especial, ele não edita nada na semanal mais lida do país - são 1.226.069 exemplares de circulação, segundo o IVC. Seu único compromisso é caçar um assunto e trabalhar em cima. Sua redação particular é um escritório repleto de livros em seu apartamento, no bairro de Higienópolis, em São Paulo. Ele confessa que muitas vezes chega em cima do prazo sem ter um assunto definido para preencher a coluna, batizada de "Ensaio", localizada no espaço mais nobre da revista, a última página. " Corro o risco de escrever uma coluna ruim. Já escrevi muitas colunas ruins", confessa. Ruins ou não, o fato é que Roberto é, ao lado de Diogo Mainardi, um dos campeões de cartas da Veja .
Entre os mistérios do jornalismo contemporâneo, um em especial intriga o colunista da Veja: "Quanto mais avança a tecnologia, menor sãos os prazos de fechamento". Alheio a esta contradição contemporânea, Pompeu tem dedicado boa parte de seu tempo a outra atividade: a literatura. Entre seus livros publicados, destacam-se "A capital da solidão", uma observação intensa dos paradoxos de São Paulo, e Leda, que marcou sua estréia na ficção. Nesta entrevista para IMPRENSA, Pompeu fala como escreve em sua coluna: de tudo um muito, sem perder o foco.
IMPRENSA - Muita gente lê revista de trás para frente. Sua coluna está no espaço mais nobre, na última página da Veja . Você fala sobre muitos assuntos e é sempre contundente. Quando e como define a pauta da semana?
Roberto Pompeu de Toledo - Meu fechamento é na quinta feira. Fico ligado em tudo. Muitas vezes o assunto não pode ser outro, como no caso do desastre do avião da TAM. O ângulo tem que ser sempre diferente daquele que já foi exaustivamente explorado pela imprensa diária. A regra de ouro é evitar chover no molhado. Em outros casos, um fiapo de coisa vira uma assunto.
Já aconteceu de chegar na quinta feira sem assunto?
Já. Diversas vezes.
Quando isso acontece, não é arriscado escrever uma coluna fraca, sem convicção, só para cumprir o prazo?
Corro o risco de escrever uma coluna ruim. Já escrevi muita coluna ruim.
Veja é uma revista engajada politicamente?
Veja teve várias fases. Na época da ditadura era uma revista combativa. A partir de um certo momento, na democratização, começou a despontar como a revistas de denuncias contra as malfeitorias dos governos. Isso, aliás, é uma anomalia do Brasil. No mundo todo as semanais é que vão atrás do jornal. O diário devia ter mais agilidade que a revista, que sai uma vez semana. No Brasil, as pessoas dos jornais não têm tempo para olhar as coisas á longo prazo. Exige-se cada vez mais do jornalista, em menos tempo.
Hoje, Veja é o alvo preferido da esquerda brasileira, especialmente a festiva. Na sua época também era assim?
Desde o "mensalão" é assim. Mas na época do Collor era o contrário. Veja era a revista querida da esquerda e do PT, que cansou de ser fonte. Evidente que a revista não é, nem nunca foi, de esquerda.
Mudou muita coisa no modelo de fazer revista hoje em relação a sua época de editor e correspondente da Veja, nos anos 80 ?
Coluna, por exemplo, é uma coisa nova, que não existia em revista. Também não existia, na fórmula original da Time e da Veja a assinatura nas matérias. Era tudo da "redação". Na Economist ainda é assim .Veja era uma revista muito elaborada e hierarquizada. Hoje não sei como é.
O ambiente do jornalismo mudou muito desde os anos 60?
Faz tempo que estou fora, escrevendo de casa. Continuo funcionário da Veja. S ou editor especial, mas não edito nada. Faço a coluna e eventualmente algumas matérias. Consegui minha carta de alforria. A ecologia das redações mudou muito. Os ambientes são assépticos, silenciosos. Às vezes parece até uma nave espacial. Há um contraste enorme com as redações dos meus primeiros tempos: eram sujas, barulhentas, cheias de papel. Os papéis de telex...O telex fazia um barulho enorme. Outra grande diferença: as redações eram notívagas. Os jornalistas eram, portanto, mais boêmios. O pessoal saia de madrugada com a cabeça super estimulada e não ia para casa, ia para os bares. Hoje em dia as redações fecham às 19hs. Uma coisa espantosa. No meu tempo no Jornal da Tarde, fechávamos ás 2, 3 horas da manhã. Quanto mais avança a tecnologia, menor são os prazos de fechamento. Isso é uma contradição da era contemporânea.
Como consumidor voraz de notícia, não sente falta de um aprofundamento maior da mídia nas pautas? Cai o avião, o Renan some. Chega o Pan, some o avião...
No Brasil, a imprensa é monotemática. Um assunto substitui o outro. Especialmente no caso dos escândalos. Ninguém mais lembra da "Gautama". É um grande alívio para eles. As coisas precisam depender um pouco menos da mídia. As instituições do país são movidas a imprensa. Tão logo ela sai de cena, as instituições afrouxam.
Em 1987, quando você era correspondente da Veja em Paris, entrou em vigor o código de ética do jornalismo, elaborado pela FENAJ. Recentemente, esse código foi remodelado. Você conhece e segue as regras do código?
Nunca li. Muitas questões que são tratadas como ética são, na verdade, técnicas. Não é preciso existir uma ética jornalística. Duvido que esse código de ética da FENAJ traga alguma novidade para mim. Não preciso lê-lo para saber que não trará nada de novo para o padrão que eu sigo. Essa FENAJ me dá um certo arrepio. Travestido de código de ética e de conselho, existe uma tentativa de balizar as coisas.
Quando o PT era oposição, pautava melhor a mídia do que os tucanos e Democratas?
O PT era maravilhoso na oposição. Tenho saudade. Eles definiam o quadro político brasileiro. A partir do PT se estabelecia uma gradação. Hoje, é uma geléia geral. Com o partido no governo, a imprensa perdeu a referência. Concordassem ou não, havia uma linha importante para os jornalistas. O PT foi substituído pelo Lula, que é imensamente mais forte que o partido. Os Democratas e tucanos não tem vocação para oposição. Eles estão vivendo um período de crise de identidade.
O PSOL é o PT de ontem?
É, mas sem a figura do Lula e sem os sindicatos. Esse é o grande ponto. A figura do Lula é impar na história brasileira.
Leia matéria completa da edição 228 de IMPRENSA (out/2007)






