Um distanciamento de obviedades

Um distanciamento de obviedades

Atualizado em 05/02/2009 às 15:02, por Igor Ribeiro.

Recentemente, entrevistando o Paulo Vinicius Coelho para a revista IMPRENSA de dezembro de 2008, ouvi reflexões bastante coesas e substanciais. Concordei muitas delas. Algumas corajosas pela forma emblemática como foram ditas. Ele falou, por exemplo, que "Jornalista não é para ter amigo."

Dita assim, parece defender uma espécie de misantropia jornalística. Mas no contexto, essa frase ganha um sentido legítimo e muito forte. PVC criticava o fato de alguns colegas conseguirem acesso privilegiado à informação pelo fato de se tornarem íntimos de suas fontes. Ele ponderava que isso é legítimo, mas pernicioso sob o viés da liberdade de apuração e da qualidade de informação.

Assino embaixo. Já pensava assim antes e sempre me policiei para não vacilar assim com meus leitores. Particularmente, quando o público sou eu, ler, assistir ou ouvir reportagens nas quais percebo que o jornalista ultrapassou esses limites é uma dedicação incômoda. E infelizmente não é raro.

São frequentes os textos permeados por opiniões inclinadas pela intimidade. Opinar em si não é o pior dos problemas, até mesmo porque é difícil contornar uma asserção pessoal sem mecanizar demais o texto. Mas o julgamento baseado em algum nível de intimidade com a fonte é, além de nocivo, comum. Acontece muito em editorias de cultura, mas toda esfera do noticiário sofre com isso, de política a esportes. Até mesmo revistas inteiras parecem ter sido forjadas como um Rat Pack jornalístico.

Não defendo o isolamento absoluto do repórter como prerrogativa para a manutenção de uma suposta credibilidade. O jornalista pode fazer amizades com eventuais entrevistados, bem como não deve se abster de recorrer a um amigo caso ele seja, por exemplo, uma fonte capacitada o suficiente para determinada pauta. O fato é que esse contato deve ser extremamente parcimonioso. Quando o texto aferir uma notícia com diversos lados ou crítica de juízo, um distanciamento da relação pessoal com a fonte é fundamental. Não fazê-lo é produzir um texto necessariamente falso, entremeado por referências pessoais e achismos e, por isso, irresponsável com o leitor.

É importante destacar que esse distanciamento é irrevogável tanto no sentido positivo como no negativo. É falacioso achar que ódio ou antipatia pela fonte significa um olhar mais crítico e, portanto, isento. Pelo contrário, essa espécie de desdém denota um juízo ainda mais corruptível e influenciável pelo gosto pessoal.

Essa questão atinge o auge da insanidade quando o jornalista é um fã que vai entrevistar o ídolo. Bastidores de matérias concebidas nesse clima chegam a ser patéticos, tamanha a falta de reservas do repórter perante sua pauta. Como na recente apresentação do filme "Operação Valquíria", com Tom Cruise, no Rio de Janeiro. Chegou a ser vergonhosa a pieguice dos repórteres, pedindo autógrafos e fotos durante uma coletiva de imprensa que deveria se concentrar em perguntas sobre o trabalho do ator. Aliás, essa "histeria VIP" fica ainda mais evidente não só porque muitas pessoas a testemunham, mas porque elas formam uma espécie de platéia - para o imbecil do repórter, e não para a celebridade.

A confusão de propósitos em atitudes como essa são nocivas de uma forma que ultrapassa o público e atinge o próprio entendimento que a fonte possui sobre seu interlocutor. O Tom Cruise, que também faz filmes ruins - e não são poucos - pode voltar para Los Angeles pensando: "Tenho que produzir um blockbuster no Brasil. O povo e a mídia me adoram. Não importa o quão ruim seja, vai ser um sucesso. O Stalone que sabe das coisas."

É muito comum que os repórteres passem pela situação de entrevistar um ídolo ou alguém que muito admiram. Eu mesmo já passei por isso. Numa dessas ocasiões, estava tão nervoso que tive de pedir desculpas e explicar à entrevistada o porquê da minha emoção. Solicitei que esperasse por alguns segundos, respirei fundo, acalmei os ânimos e continuamos. Outra sugestão é preparar-se antecipadamente e pensar a pauta com profissionalismo, não se abstendo de perguntas que sejam de interesse público, desconfortáveis ou não para o entrevistado. Manter a calma até se esgotar a apuração é essencial. Se houver predisposição e receptividade do entrevistado cabe, sempre com bom senso e ao fim da reportagem, uma conversa sobre autógrafos e preferências.

Claro que muita gente sabe disso tudo e para estes um texto assim é chover no molhado. Também acho que escrever sobre esse assunto é tão repetitivo quanto triste. Faz repensar nas obviedades cíclicas às quais estamos submetidos. Numa lógica controversa, tudo que é evidente não precisa ser dito, já que é evidente. E para mim, é tão óbvia a ruindade de apurações banhadas por intimidade quanto a ilegalidade de um homicídio - qualquer homicídio. Mas como evidências são muitas vezes espúrias, diversas pessoas apoiam a pena de morte e eu tenho que reservar horas e laudas para escrever obviedades que tentem oxigenar os juízos menos sagazes. Espero que pelo menos nessas situações, as obviedades tenham um outro sentido. Além do óbvio, claro.