Último capítulo do caso Vlado - Furo ou Barriga?

Último capítulo do caso Vlado - Furo ou Barriga?

Atualizado em 27/10/2004 às 10:10, por Redação Portal Imprensa.

Afinal, de quem são as fotos que monopolizaram manchetes nas últimas semanas, detonaram uma guerra de informação e contra informação entre Correio Braziliense e Folha de S.Paulo e inauguraram nova crise no Governo Federal: do jornalista Vladimir Herzog ou do padre canadense Leopoldo dAstous? O jornal Correio Braziliense, autor do furo, permanece irredutível na defesa de sua matéria. Três são os argumentos. O primeiro e mais forte, é o depoimento da viúva de Herzog, Clarice, que reconheceu pelo menos uma das imagens como sendo de Vlado. "Ela foi muito segura no reconhecimento da foto em que Vladimir aparece de frente com as mãos na cabeça. Reconheceu o formato do rosto, da boca, o relógio do marido", afirma Oswaldo Buarim, editor de política do Correio.

O segundo argumento é um laudo do perito da UNICAMP Ricardo Molina, repercutido na mídia. "Não é possível dizer que não é ele. Tem muita compatibilidade". O último remete às declarações do próprio padre, feitas aos dois jornais.

Na contramão, a Folha declarou guerra ao Correio em manchete publicada em 22 de outubro: "Fotos divulgadas são de padre, e não de Vladimir". Por trás de tanta segurança da reportagem, assinada por Iuri Dantas e Fernanda Krakovics, está um dossiê da Agência Brasileira de Informação (ABIN), órgão subordinado ao Executivo e herdeiro do Serviço Nacional de Informação (SNI). Diz trecho do lead. "O arquivo à disposição da presidência, e ao qual Folha teve acesso, possui 30 fotos mostrando o padre com uma mulher". Faltou explicar de onde vem a certeza de que nenhuma delas é de Vlado.

Feridas abertas

Mais relevante que a polêmica em torno do furo envolvendo Folha e Correio é a seqüência de feridas reabertas pelo caso no alto escalão do governo. Aos fatos. 1 - Assim que tomou conhecimento da reportagem do Correio Braziliense, o Centro de Comunicação Social do Exército divulgou nota oficial em que escancara sua nostalgia em relação ao período da ditadura e defende a corporação nos casos de tortura. Seguem trechos: "As medidas tomadas foram uma legítima resposta à violência", "O movimento de 1964 criou condições para um novo Brasil". 2 - Diante da atitude tomada por membros da ativa do Exército, Lula se viu obrigado a responder à altura. Exigiu retratação imediata. O Exército cedeu, mas o mal estar estava instalado. 3 - Com o caso nas primeiras páginas, o movimento pela abertura dos arquivos da ditadura ganhou força. 4 - Durante o imbróglio surge a contra informação, plantada pela ABIN, defendida pelo governo e ampliada pela Folha, de que as fotos não seriam de Vlado. 5 - Independente da polêmica sobre as fotos, a crise está instalada. Depois do pedido de retratação, o governo passa a afagar os militares publicamente. A pressão dos movimentos de direitos humanos aumenta. José Viegas, ministro da Defesa, afirma querer abrir arquivos sem reabrir feridas, enquanto José Dirceu diz que abertura não está na agenda do governo. Colocados os fatos na mesa, seguem as perguntas. 1 - Nilmário Miranda, ministro dos direitos humanos, foi usado pelo Exército, via ABIN, como laranja para remediar o impacto das fotos? 2 - Qual a intenção da ABIN em "revelar" que as imagens são do padre canadense e não de Herzog? Frente a questões tão delicadas, a que menos interessa é: a reportagem do Correio foi um furo ou uma barriga?