TV Digital: Um outro olhar
TV Digital: Um outro olhar
Grande parte da mídia nacional restringiu os debates sobre a TV digital às mudanças provocadas pela sua implantação no Brasil. No entanto, a opção do presidente Lula pelo padrão japonês é mais profunda e envolve, inclusive, a revisão do marco regulatório das comunicações.
O que? Como? Quando? Onde? Quanto? Durante o debate em torno da implantação da TV digital no Brasil e a escolha do seu padrão, a imprensa restringiu a pauta basicamente a essas cinco perguntas. Longe dos holofotes e manchetes, porém, organizações, políticos e entidades ligadas à comunicação, tentaram a todo custo aproveitar essa oportunidade para aprofundar o debate. Muito mais importante que a escolha de um padrão, no caso o japonês, a chegada da TV digital impõe uma agenda voltada para acabar com a concentração dos meios, promover políticas de inclusão digital e, acima de tudo, rever os marcos regulatórios, ultrapassados por não incluírem as novas plataformas de mídia.
Argumentam os ativistas, que o espectro eletromagnético por onde trafegam os sinais é público. Com os mesmos 6 MHz - que só comportam uma programação analógica - a TV digital pode carregar até oito programações. Sendo assim, o dever do governo é redistribuir a faixa dos 6MHz, multiplicando os canais e possibilitando a entrada de novos programadores no espectro, de preferência públicos. Além disso, a escolha do padrão japonês foi duramente criticada, pois estaria servindo aos interesses dos grandes grupos de mídia, que conseguem, com tal tecnologia, excluir as empresas de telefonia do processo de transmissão de conteúdo para receptores móveis.
Para elucidar dúvidas técnicas, práticas, políticas, ideológicas e operacionais, além de mostrar o que muda na vida do telespectador com o advento da TV digital, IMPRENSA ouviu três especialistas na área: Ethevaldo Siqueira, jornalista especializado em novas tecnologias e colunista do jornal O Estado de S. Paulo, Fernando Bittencourt , diretor da Central Globo de Engenharia e coordenador do grupo técnico de TV digital da Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão) e Gustavo Gindre , diretor do Intervozes (um dos grupos mais críticos quanto à adoção de uma tecnologia internacional de TV digital).
Quais as principais diferenças entre as TVs analógica e digital?
As principais vantagens da TV digital em relação à analógica, são:
1- Um enorme aumento de qualidade de imagem e som com o HDTV(televisão em alta definição). As imagens no formato tela ampla e definição igual a cinema. Mais prazer e mais envolvimento com os programas.
2- A possibilidade de assistir TV com qualidade em carros, ônibus, metrôs, barcas etc., a possibilidade de acessar gratuitamente a programação das emissoras de TV aberta através de aparelhos portáteis.
3- A interatividade que possibilitará que o telespectador possa acessar através do seu televisor, conteúdo multimídia adicional aos programas de televisão.
Quais exemplos podem ser dados no que diz respeito à interatividade?
Numa novela, por exemplo, o relógio usado pelo ator poderá ser comprado na hora, através do controle remoto. O telespectador seleciona, vai para um canal de compras, que mostrará a marca, o valor e depois pode comprar. Será possível responder pesquisas em tempo real, participar de enquetes e acessar a Internet, em alta velocidade, pela televisão. A interatividade trará uma sensível mudança na forma de assistir TV e na forma de comercializá-la.
O que está por trás da escolha do modelo japonês?
Preferido pelas emissoras de TV e repelido pelas operadoras de telefonia, o padrão japonês possibilita a transmissão de conteúdo para dispositivos móveis sem que tenha que se associar a uma empresa de telefonia.
Para o Intervozes, o ideal seria que o padrão adotado no Brasil fosse desenvolvido no próprio país, sem a necessidade de decidir por um modelo pré-existente. "Não havia razão para tamanha pressa na escolha do modelo. Era melhor esperar mais tempo e desenvolver um modelo nacional, que atendesse às necessidades do país. Não uma escolha apressada para atender, obviamente, a interesses eleitoreiros. Para mim, o melhor modelo, o mais democrático, seria o nacional", opina Gustavo Gindre, do Intervozes.
Ethevaldo Siqueira também acredita que a decisão tenha sido equivocada. "A Globo achou que o modelo japonês fosse mais sofisticado. Ele é, mas também é mais caro. Só para dar uma idéia, o sistema americano é usado em cinco países, o europeu, em mais de 100 países. O japonês só é usado no Japão".
Já Fernando Bittencourt, da Globo, afirma que o sistema japonês é o único que permite as aplicações de TV digital em TV portátil, TV móvel e interatividade, utilizando apenas um canal de TV. "Em qualquer outro sistema, ou a televisão brasileira perderia uma ou mais dessas aplicações ou o consumidor brasileiro deixaria de tê-las de forma aberta e gratuita", disse.
Para assistir sinais digitais em aparelhos analógicos, será necessário um conversor. Ele terá um preço acessível? Quando chegará às lojas?
Deve haver vários tipos de conversores, com diferentes especificações. Uns servirão, unicamente, para transformar o sinal digital em analógico. Os primeiros receptores comerciais deverão estar disponíveis 18 meses após a decisão do sistema brasileiro, ou seja, somente no ano que vem.
No início, o preço dos conversores, segundo Ethevaldo Siqueira, deve ficar em torno de R$ 300,00 - o modelo mais simples - podendo chegar a patamares inferiores a R$ 100,00 com a produção em maior escala. É possível que o Japão importe conversor, mas os produzidos no Brasil devem chegar ao mercado só no ano que vem.
As pessoas que não tiverem um conversor não conseguirão assistir TV?
As pessoas que não tiverem adquirido um receptor digital poderão continuar assistindo às transmissões analógicas nos mesmos canais atuais. É por esse motivo, segundo Fernando Bittencourt, que as emissoras irão receber canais adicionais para a transmissão digital. Os canais analógicos permanecerão por pelo menos 10 anos, prazo previsto para que todas as transmissões de TV sejam digitais. Após esse período de transição, os canais analógicos hoje utilizados pelas emissoras de TV serão devolvidos para o governo.
Ethevaldo Siqueira acredita que este prazo deva ser prorrogado pelo governo brasileiro, levando em consideração a condição sócio-econômica da população. "Grande parte da população, ou a maior parte dela, não vai se interessar pela alta definição. Se conseguirem ter acesso à TV, como têm agora, tudo certo".
Para o Intervozes, a democracia do serviço está em xeque. "Não dá para garantir nem que os serviços chegarão a todos e nem que os serviços continuarão gratuitos. Essa decisão deveria ter sido protelada".
Leia matéria completa na edição 215 de IMPRENSA






