Tupis-guaranis não conseguem fumar o cachimbo da paz - por Willian Novaes, de SP
Tupis-guaranis não conseguem fumar o cachimbo da paz - por Willian Novaes, de SP
A Aldeia Guarany está localizada num dos lugares mais apropriados para um índio viver: inclusa na mata do Pico do Jaraguá, numa região belíssima, em meio a muito verde e quedas d`água. Parece o cenário perfeito, mas não é, pois a tribo está dividida em dois grupos, literalmente, em pé de guerra. A aldeia instalada ao lado da Mata Atlântica é liderada pela cacique Jandira, que assumiu o posto após a morte do marido e acusa a outra tribo, acampada na região que faz limite com a cidade, liderada pelo cacique José Fernandez, de iniciar a guerra ao difundir inverdades sobre sua gestão. Ela diz que é acusada de unir-se aos brancos para acabar de vez com a cultura e costumes indígenas nas escolas dos curumins. O cacique Fernandez, entretanto, nega a guerra iminente entre as duas aldeias e afirma que existem apenas divergências de opiniões entre os dois caciques. "O que eu e minha tribo queremos é manter nossas raízes. Já abandonamos a caça e perdemos a cachoeira, que está poluída. Não podemos perder mais nada".
Diferenças ideológicas desagregam tupis-guaranis
A divisão entre os tupis-guaranis, segundo a cacique Jandira, é político-ideológica. Ela conta que herdou o posto de cacique do marido Mateus, após sua morte, e que a tribo era feliz até a chegada do índio José Fernandes, que uniu-se ao grupo após ser expulso de outra tribo indígena existente na Zona Sul. Afirma Jandira que suas idéias não batem com as do índio Fernandes, que decidiu, então, fundar sua própria tribo. "Ele age de forma ditatorial: agregou dois postos, o de cacique e pajé, unindo assim os poderes político e o espiritual para subjugar as 50 famílias indígenas que o seguiram.
"O clima entre as duas tribos não é nada amigável, segundo Jandira. Ela conta que a briga começou porque o agora cacique José Fernandes está colocando sua aldeia contra a dela. "Eles hostilizam nosso povo, nos acusam de termos nos misturado aos brancos e de não ensinar às crianças a cultura indígena, enfim, que estamos perdendo nossas raízes".
Já o cacique José Fernandes diz que não há guerra, apenas uma simples divergência de idéias. "Aqui em nossa aldeia todas as crianças falam a nossa língua nativa e somente depois é que eles aprendem o português nas escolas da região." Um outro integrante da aldeia, Pedro Luiz ou Karai Tatende, no nome indígena, complementa: "o objetivo da tribo é manter a cultura indígena em alta entre nós, pois já abandonamos a caça, não podemos mais usar a cachoeira, que está poluída e, agora, tentamos manter algumas raízes, como a língua, as rezas e o artesanato. Não podemos perder mais nenhuma característica". Por isso, insiste José Fernandes, não é briga, mas "desentendimentos ideológicos e políticos, pois eu acredito nas minhas idéias, com relação à preservação da nossa cultura a qualquer preço".
Preconceito e abandono social condenam o índio à miséria
A Aldeia Guarany foi fundada de uma forma totalmente diferente de outras comunidades indígenas. No final da década de 50, o índio Mateus foi convidado a trabalhar como caseiro para uma fazenda do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo. A proposta foi aceita, porque Mateus não conseguia se adaptar na sua aldeia na Cidade Dutra, Zona de Sul de São Paulo. Ele trouxe consigo sua esposa, a atual cacique Jandira, e os quatro filhos que já tinham. Mateus tornou-se, então, cacique e, com o tempo, o departamento da USP doou um pedaço da terra para ele morar com os seus outros parentes, que chegavam de outras aldeias para se refugiar na fazenda, um lugar completamente isolado. Hoje, no local vivem quatorze famílias, comandadas por Jandira.
Com o passar dos anos e o desenvolvimento da cidade, os índios foram se esquecendo de suas raízes: o casamento entre eles deixou de ser obrigatório e a maioria das famílias é um exemplo de integração racial, compostas de brancos, índios e negros. Mas o que é realmente preocupante é que a cachoeira, lugar sagrado para o banho diário, está poluída e os índios banham-se num chuveiro elétrico. A caça não existe mais, porque são poucos os animais que sobreviveram. Poucas crianças falam o tupi, que ainda é o idioma dos mais velhos.
Entre outras mudanças, a aldeia conta com um agente de saúde que vive dentro da tribo e atende os dois grupos. Há, ainda, uma escola, construída para facilitar o aprendizado das duas culturas: o guarani e o Português. Na aldeia Guarany 1, como é chamada, moram setenta pessoas, que vivem de doações de voluntários e da venda de artesanato. Alguns índios trabalham fora, como marceneiros, ajudantes de serviços gerais e caseiros. Segundo o agente de saúde Isaac Augusto Martins, ou Karany Mirim, "os índios de hoje não são os mesmos do passado, pois com a baixa infra-estrutura da tribo e com o preconceito que ainda existe, não conseguem mais uma vaga no mercado de trabalho".
Para Benedito Prezia, assessor do Conselho Indigenista Missionário e coordenador da pastoral indigenista da Arquidiocese de São Paulo, "a situação dos índios na Aldeia do Jaraguá não é diferente da dos demais, porque a pobreza e a miséria atingem todas as aldeias paulistas. Há índios morando em favelas e em prédios como o Cingapura, projeto da Prefeitura de São Paulo, no governo Maluf". Diz ainda que, embora em pé de guerra, as duas aldeias têm uma única coisa em comum: o abandono dos órgãos governamentais, como a FUNAI. Este abandono provém de uma política que já dura anos, na qual o índio e sua cultura não têm o menor valor. Apesar disso, acrescenta Benedito Prezia, "o último censo revelou que o número de índios no Brasil saltou de 92 mil nos anos 1970, para 720 mil, hoje em dia."






