Tudo se recicla, por Silvia Bessa
Quando notei, um pesado portão de ferro havia se fechado às minhas costas. Três detentas riam usando o canto da boca e se entreolhavam com i
Atualizado em 11/06/2015 às 16:06, por
Silvia Bessa.
Eu, com 22 anos, uma estudante em fim de curso, e uma caderneta na mão. “Está com medo?”, provocou uma das jovens. Não respondi. “Se veio aqui é porque quer ver como é. Tem de aguentar”, emendou a companheira.
Continuei a perguntar sem parar. Passaram-se uns dez longos minutos até a chegada da guarda, que havia desviado a atenção de mim. Voltei lá algumas vezes; sempre as reencontrava. Acenava, participava das refeições em certos dias com elas. Fotografei algumas no cotidiano. Uma deu-me confiança e sempre fazia questão de me recepcionar.
Apresentava toda a prisão, falava sobre a noite detrás das grades, o dia sem ver o filho crescer, a sensação de ter o marido em outro complexo de segurança máxima, a culpa, o arrependimento. “De tudo, o pior é saber que mudei não só minha vida, mas a de minha mãe e de meus filhos”, disse a bela moça, líder de ala, e que, salvo engano, atendia pelo nome de Lucicleide.
Já formada, com sete anos de redação, juntei notícias espaçadas sobre a superlotação para propor a minha primeira série de reportagens especiais. Era sobre prisões. Com um crachá de imprensa, tive dificuldades de apuração, furei alguns bloqueios, ouvi relatos de presos de quase todas as unidades, inclusive da Barreto Campelo – onde ainda estava o marido de Lucicleide.
“Você tem medo de se passar por um familiar?”, indagou um rapaz de uma organização religiosa que me ajudou. Marquei data para me integrar ao grupo. Tirei vários domingos para conhecer a fila da visita. Imagem triste, de uma maioria feita de mulheres que vinham de longe com sacolas de farofa, frango, bolo e frutas. De um garotinho, me lembro bem. Estava encostado no meiomuro que antecedia a muralha. Escorava-se, como se seu corpo pesasse mais do que uma tonelada. Tinha mais ou menos 6 anos. Acompanhava a avó e visitaria o pai.
Na semana seguinte, pretendia pedir a bênção à mãe em outra unidade. Conversei por 15 minutos com ele. Foi suficiente. “E você sabe o que quero ser quando crescer?”, questionou. Eu temia a resposta. “Quero ser da Rocam. Eu não tenho medo”, disse, referindo-se ao grupo de Ronda Ostensiva da Polícia de Pernambuco. O menino, cujos olhos brilhantes ainda me lembro, criou um link entre tempos diferentes da minha carreira. Pude comprovar que, no jornalismo, a gente vai vivendo experiências nas ruas e sempre as reutiliza para uma nova reportagem – provavelmente muito mais madura. É quase um reencontro. E tende a ser muito bom





