Tropeços tipográficos
Tropeços tipográficos
Atualizado em 01/10/2010 às 13:10, por
Silvia Dutra.
Há muitos anos, quando eu era jovem e solteira, recebi flores de um rapaz que pretendia ser meu namorado. Meu entusiasmo murchou antes que as rosas quando li no cartãozinho: " Desejo que você seje muito feliz. Fulano de Tal". Aquele "seje" abortou minha embrionária paixonite.
Pode ser superficial, mas sei que seria difícil eu ficar feliz ao lado de alguém que escreva "seje". Naquele momento tive a intuição de que se eu relevasse aquele deslize mais para frente teria que enfrentar coisas piores, como "chanche". Ou "menas". E ficaria mortalmente ofendida quando ele, exasperado pela minha compulsão de revisora, me mandasse um cartãozinho derradeiro errando na grafia da palavra "basta!". Achei melhor evitar tantos problemas. Ou, como ele provavelmente diria, "poblemas". Que aliás, parafraseando Chico Anysio, se alguém diz que tem um "poblema" já sabemos que na verdade tem dois, um deles sendo o problema de falar poblema. Ou a variante, "pobrema".
Eu não sabia, mas já eram os primeiros sinais de uma de minhas estranhas manias: fico incomodada com erros impressos. Os meus e os alheios. Deve ser uma doença, alguns transtorno obsessivo compulsivo meu. Já me peguei corrigindo panfletos distribuídos em sinaleiros, grifando erros em cardápios de restaurantes, acertando plural em avisos de condomínio pregados dentro do elevador ou colocando pontos de exclamação quando o erro é daqueles do quilate de um "seje".
Felizmente essa semana descobri que se isso for uma doença não sou a única. Tem muita gente como eu, com olho clínico para achar erros em material publicado. E alguns empresários do setor aqui na América do Norte estão aproveitando essa idiossincrasia, que pelo visto é bem disseminada, para aumentar o envolvimento dos leitores com suas publicações.
Um exemplo disso é o jornal online "New Haven Independent". Produzido por jornalistas e moradores da cidade de New Haven, em Connecticut, o jornal lançou uma campanha convocando os leitores a informar à redação todos os erros que encontrarem nas matérias. Humildemente a direção informa que o orçamento apertado não permite a contratação de revisores e que portanto a participação dos "Caçadores de Erros" -- "Typo", em Inglês -- é essencial para melhorar a qualidade do material. O jornal mantém uma tabela com os nomes dos participantes na competição e periodicamente premia com uma caneca aqueles que apontaram a maior quantidade de erros.
Já no Canadá a revista de variedades Prairie Dog, da cidade de Regina, lançou campanha semelhante. Não por carência de revisores no quadro de empregados, mas por admitir uma verdade incontestável na prática do Jornalismo: os erros acontecem e se tornam públicos, apesar de todos os cuidados. A cada número os editores escolhem um entre os leitores participantes e o vencedor leva 10 dólares e uma camiseta com o símbolo da campanha, um cachorro batizado de Typo Wiener. Valem erros ortográficos, gramaticais e também de estilo, como frases sem sentido e o uso de palavras estrangeiras que dificultem o entendimento da matéria. Para conhecer alguns dos ganhadores clique aqui (http://www.prairiedogmag.com/extras/?c=typo-wiener)
Outra publicação canadense, a revista Taddle Creek, foi ainda mais longe. Circulando desde 1997, com cobertura e distribuição nacional, especializada na divulgação de eventos literários e publicação de prosa e poesia por escritores daquele país, a Taddle Creek se orgulha de ter um afiado departamento de revisão e de verificação de fatos. Apesar desse compromisso declarado com a exatidão, os editores admitem ser impossível uma publicação chegar às bancas completamente isenta de erros. Mesmo que só tenha duas edições ao ano, como é o caso.
Os responsáveis pela Taddle Creek informam que se sentem felizes por jamais terem publicado um erro grave, mas admitem terem cometido uma variedade de pequenos enganos. Eles lamentam as falhas, mas se orgulham de assumir a responsabilidade, publicando a correção (http://www.taddlecreekmag.com/corrections). Para provar o que pregam, disponibilizam na Internet todos os escorregões já publicados em suas páginas, desde o primeiro número, independentemente do grau de gravidade do erro. Nesses 13 anos, 26 edições, cometeram 28 erros, de acordo com a página de correções. Nada mau. E em maio de 2010 anunciaram que a revista dará dois anos de subscrição grátis para os leitores que encontrarem enganos nas edições futuras. O objetivo é chegar à perfeição.
Eu não queria estar na pele do chefe dos revisores dessa Taddle Creek, e você? Acho essa postura meio exagerada e extremamente rígida. Considero mais inteligente e saudável a atitude tolerante e bem humorada dos editores da revista Prairie Dog em relação ao assunto.
Precisão nas informações e clareza no texto são a base do bom jornalismo, mas ninguém está livre de uns momentos de desatenção, uma vista cansada, um ponto final não colocado no atropelo dos minutos fatais no fechamento de uma edição. Não acho razoável não fazer uma distinção entre os diferentes tipos de enganos.
Excetuando os mais grosseiros como o "seje" do meu ex-apaixonado, ou um "Psicultura" que vi uma vez numa publicação brasileira num artigo sobre a criação de peixes -- ou piscicultura -- acho que dá para aceitar com resignação um erro aqui ou acolá.

Pode ser superficial, mas sei que seria difícil eu ficar feliz ao lado de alguém que escreva "seje". Naquele momento tive a intuição de que se eu relevasse aquele deslize mais para frente teria que enfrentar coisas piores, como "chanche". Ou "menas". E ficaria mortalmente ofendida quando ele, exasperado pela minha compulsão de revisora, me mandasse um cartãozinho derradeiro errando na grafia da palavra "basta!". Achei melhor evitar tantos problemas. Ou, como ele provavelmente diria, "poblemas". Que aliás, parafraseando Chico Anysio, se alguém diz que tem um "poblema" já sabemos que na verdade tem dois, um deles sendo o problema de falar poblema. Ou a variante, "pobrema".
Eu não sabia, mas já eram os primeiros sinais de uma de minhas estranhas manias: fico incomodada com erros impressos. Os meus e os alheios. Deve ser uma doença, alguns transtorno obsessivo compulsivo meu. Já me peguei corrigindo panfletos distribuídos em sinaleiros, grifando erros em cardápios de restaurantes, acertando plural em avisos de condomínio pregados dentro do elevador ou colocando pontos de exclamação quando o erro é daqueles do quilate de um "seje".
Felizmente essa semana descobri que se isso for uma doença não sou a única. Tem muita gente como eu, com olho clínico para achar erros em material publicado. E alguns empresários do setor aqui na América do Norte estão aproveitando essa idiossincrasia, que pelo visto é bem disseminada, para aumentar o envolvimento dos leitores com suas publicações.
Um exemplo disso é o jornal online "New Haven Independent". Produzido por jornalistas e moradores da cidade de New Haven, em Connecticut, o jornal lançou uma campanha convocando os leitores a informar à redação todos os erros que encontrarem nas matérias. Humildemente a direção informa que o orçamento apertado não permite a contratação de revisores e que portanto a participação dos "Caçadores de Erros" -- "Typo", em Inglês -- é essencial para melhorar a qualidade do material. O jornal mantém uma tabela com os nomes dos participantes na competição e periodicamente premia com uma caneca aqueles que apontaram a maior quantidade de erros.
Já no Canadá a revista de variedades Prairie Dog, da cidade de Regina, lançou campanha semelhante. Não por carência de revisores no quadro de empregados, mas por admitir uma verdade incontestável na prática do Jornalismo: os erros acontecem e se tornam públicos, apesar de todos os cuidados. A cada número os editores escolhem um entre os leitores participantes e o vencedor leva 10 dólares e uma camiseta com o símbolo da campanha, um cachorro batizado de Typo Wiener. Valem erros ortográficos, gramaticais e também de estilo, como frases sem sentido e o uso de palavras estrangeiras que dificultem o entendimento da matéria. Para conhecer alguns dos ganhadores clique aqui (http://www.prairiedogmag.com/extras/?c=typo-wiener)
Outra publicação canadense, a revista Taddle Creek, foi ainda mais longe. Circulando desde 1997, com cobertura e distribuição nacional, especializada na divulgação de eventos literários e publicação de prosa e poesia por escritores daquele país, a Taddle Creek se orgulha de ter um afiado departamento de revisão e de verificação de fatos. Apesar desse compromisso declarado com a exatidão, os editores admitem ser impossível uma publicação chegar às bancas completamente isenta de erros. Mesmo que só tenha duas edições ao ano, como é o caso.
Os responsáveis pela Taddle Creek informam que se sentem felizes por jamais terem publicado um erro grave, mas admitem terem cometido uma variedade de pequenos enganos. Eles lamentam as falhas, mas se orgulham de assumir a responsabilidade, publicando a correção (http://www.taddlecreekmag.com/corrections). Para provar o que pregam, disponibilizam na Internet todos os escorregões já publicados em suas páginas, desde o primeiro número, independentemente do grau de gravidade do erro. Nesses 13 anos, 26 edições, cometeram 28 erros, de acordo com a página de correções. Nada mau. E em maio de 2010 anunciaram que a revista dará dois anos de subscrição grátis para os leitores que encontrarem enganos nas edições futuras. O objetivo é chegar à perfeição.
Eu não queria estar na pele do chefe dos revisores dessa Taddle Creek, e você? Acho essa postura meio exagerada e extremamente rígida. Considero mais inteligente e saudável a atitude tolerante e bem humorada dos editores da revista Prairie Dog em relação ao assunto.
Precisão nas informações e clareza no texto são a base do bom jornalismo, mas ninguém está livre de uns momentos de desatenção, uma vista cansada, um ponto final não colocado no atropelo dos minutos fatais no fechamento de uma edição. Não acho razoável não fazer uma distinção entre os diferentes tipos de enganos.
Excetuando os mais grosseiros como o "seje" do meu ex-apaixonado, ou um "Psicultura" que vi uma vez numa publicação brasileira num artigo sobre a criação de peixes -- ou piscicultura -- acho que dá para aceitar com resignação um erro aqui ou acolá.






