Tribuna da Imprensa. A imprensa é que foi sua Tribuna

Tribuna da Imprensa. A imprensa é que foi sua Tribuna

Atualizado em 08/12/2008 às 09:12, por Nelson Varón Cadena.

Repercutiu na mídia brasileira o fim da Tribuna da Imprensa que deixou de circular em 02 de dezembro, um mês após o dia de finados, a data apenas uma referência: o jornal estava praticamente morto há mais de cinco décadas, falido nas mãos de seu proprietário original Carlos Lacerda, falido ainda na transição comandada por Nascimento Brito (1960) e falido desde a sua aquisição por Hélio Fernandez em 1962 que, então, assumiu um incômodo passivo e nunca mais equilibrou as contas.

A Tribuna da Imprensa é um desses títulos que nunca deu certo do ponto de vista empresarial e também nunca se firmou como um jornal de grande circulação. Nos anos 50 era chamado de "lanterninha", no Rio de Janeiro, por ter a menor acolhida do público. Lacerda, então, fez do limão uma limonada e mandou criar a vinheta de uma lanterna para identificar o seu produto. Respondia assim à provocação de seus desafetos.

Capital emocional
Mas, se a Tribuna da Imprensa nunca foi uma referência de veículo de comunicação consolidado, o por que da repercussão em torno de seu fechamento? Na verdade o título tinha um capital emocional acumulado e a imprensa refletiu isso: de um lado, o papel desempenhado nos acontecimentos políticos que resultaram no suicídio do Presidente da República, Getúlio Vargas, em 1954; do outro, a resistência à ditadura militar e a coragem e caráter de Hélio Fernandez que não se dobrou às pressões, atentados à bomba, processos na justiça, desterro e ao cárcere de que foi vítima em mais de uma ocasião.

Fernandez, a pesar de tudo, manteve a sua coerência, a sua linha editorial independente, denunciou o arbítrio e pagou por isso. Muitos anos depois esqueceu a máxima de seu irmão Millor __ "Jornal é oposição, o resto é armazém de secos e molhados" ___ e alinhou-se ao Governo, tomou partido a favor de Leonel Brizola que comandava o Rio de Janeiro; também pagou por isso.

Pesou, ainda, na repercussão do fechamento do jornal, o último editorial onde Helio Fernandez, fiel a seu estilo combativo, denunciou a morosidade da justiça e fez o contraponto do inusitado: os militares não conseguiram fechar a Tribuna e a justiça que deveria reparar os prejuízos causados, naqueles anos de arbítrio, acabou sendo o seu algoz.

Dinheiro udenista
A Tribuna da Imprensa nasceu (1949) com o dinheiro de uma subscrição pública, verbas doadas por empresários e a classe média afinada com a proposta udenista de atazanar e se possível derrubar o governo Vargas. Presente de Natal, tanto que começou a circular em 27/12. Lacerda arrecadou doze milhões de cruzeiros, um bom dinheiro que deu para adquirir o prédio da Rua do Lavradio, comprar equipamentos, contratar funcionários e ainda o capital de giro para tocar o negócio.

Mas, dois anos depois estava falido e requeria do erário um empréstimo de cinco milhões. Acertou as condições com Lourival Fontes, que mesmo obtendo o sinal verde do chefe, não conseguiu viabilizar a operação. Lacerda tinha muitos inimigos dentro do Governo e, nessas circunstâncias, a burocracia encarregou-se de derrubar o auxílio.

Por uma ironia da vida essa mesma quantia, 5 milhões de cruzeiros, dinheiro emprestado pelo Banco do Brasil (numa operação nebulosa) ao jornal de Samuel Wainer, Última Hora, foi o combustível para as denúncias elencadas pela Tribuna da Imprensa contra o Governo de Vargas, cujo desfecho foi o atentado da Rua Tonelero, Copacabana, e semanas depois o suicídio do Presidente. Denúncias que ganharam capilaridade, não pela força da Tribuna que rodava apenas 20 mil exemplares (contra 140 mil do Última Hora), mas pela exposição e repercussão em outros veículos, em especial a Radio Globo de Roberto Marinho, a TV Tupi de Assis Chateaubriand e O Estado de São Paulo, da família Mesquita.

O fim adiado
Em 24 de agosto de 1954 a Tribuna da Imprensa foi atacada pelo povo, o veículo mais visado entre os vários que sofreram agressões, considerados pelo populacho, co-responsáveis pelo desfecho trágico no Palácio do Catete. Nunca mais seria protagonista da história, nem teria uma grande circulação, a pesar dos esforços nesse sentido, no período de transição quando contou com um respeitável corpo de colaboradores: Carlos Castelo Branco, Murilo Melo Filho, Amaral Neto, Newton Carlos, Caio Pinheiro...

A verdade é que a Tribuna da Imprensa foi ao longo de toda sua história a Tribuna de um homem só: Carlos Lacerda durante uma década e Hélio Fernandez durante 46 anos. Um e outro fizeram o jornal praticamente sozinhos. Imprimiram um estilo pessoal (e radical nos seus propósitos, ou convicções) que lhes granjeou admiradores, mas não o apoio maciço do mass media. Por isso nunca foi um jornal de expressiva circulação ainda que em alguns períodos de sua existência tenha contabilizado tiragens, nunca auditadas, de até 30 mil exemplares.

A sua nomenclatura já é um paradoxo. Nasceu para ser uma Tribuna da Imprensa, deveria refletir os outros e acabou sendo exatamente o contrário. A imprensa é que foi a sua Tribuna, do início ao fim.