Traumas psicológicos podem afetar jornalistas que atuam em coberturas de riscos
Mais do que sequelas físicas, jornalistas enviados para coberturas em áreas de risco, conflitos ou tragédias podem sofrer traumas psicológic
Atualizado em 12/10/2011 às 15:10, por
Pamela Forti e Thaís Naldoni.
Marcas Invisíveis
"Tive três medos no Vietnã depois do acidente com a perna: primeiro, o medo de morrer. Quando fui levado para o hospital e vi que não morreria mais, passou. O segundo medo era de tornar-me uma pessoa com uma deficiência física de tal gravidade que não pudesse mais ganhar a vida com o meu trabalho. O terceiro, era de ser carimbado como um repórter que fez somente a cobertura do Vietnã e nada mais", declara o jornalista José Hamilton Ribeiro, ao lembrar-se do período em que esteve no front. Ribeiro acompanhava a cavalaria norte-americana quando foi atingido por uma mina terrestre e perdeu parte da perna esquerda. Ele conta que não deixou a peteca cair: logo nos primeiros dias depois do acidente - e a bordo de uma cadeira de rodas -, começou a entrevistar enfermeiros e médicos. Na volta ao Brasil, conseguiu se desvencilhar do estigma que tanto temia e deu continuidade à carreira, de forma brilhante. "Eu admito que meus traumas foram resolvidos, com exceção do físico. Até hoje carrego essa lembrança", diz.Com o propósito de trazer ao público sempre a informação "mais quente", os profissionais do jornalismo acabam se expondo a uma série de riscos que podem resultar em sequelas físicas, sobretudo, as emocionais. Segundo dados do Dart Center for Journalism and Trauma, entidade norte-americana especializada no estudo dessa problemática -, algo entre 86% e 98% dos jornalistas são expostos a alguma situação de trauma durante o exercício da profissão. Dentro das redações, o mito é de que o jornalista deve atender às expectativas dos superiores e aguentar todos os "trancos" em nome da notícia e pouco se fala (já que muitos nem admitem) dos pesadelos e dores que certas coberturas podem causar. Embora os mais propensos sejam os profissionais que fazem reportagens em regiões de guerras e conflito armado, a prática cotidiana também pode ser estressante e traumática em certas ocasiões.
A questão chamou a atenção do professor de psiquiatria Anthony Feinstein, da Universidade de Toronto e autor do livro "Journalists Under Fire: the Psychological Hazards of Covering War" (Jornalistas sob ataque: os danos psicológicos da cobertura de guerra, em tradução livre). "Há uma falta de reconhecimento entre os profissionais da imprensa sobre a própria vulnerabilidade", afirmou Feinstein, que até hoje mantém o site "Guerra, Jornalismo e Stress". Nele, o jornalista que quiser ser voluntário de sua pesquisa e receber um feedback sobre sua saúde psicológica, pode preencher um questionário relatando sua própria experiência. O acesso é feito por meio de uma senha personalizada e a confidencialidade de cada participante é garantida pelo site. De acordo com o estudo, os sintomas mais comuns nos correspondentes de guerra são depressão, estresse póstraumático e ingestão excessiva de álcool.
Crédito:Marcello Casal Jr./ABr Carro blindado da marinha leva jornalistas ao Complexo do Alemão (RJ)
SEM SUPORTE
A professora doutora Elizabeth Cardinalli, supervisora do curso de psicologia da PUC-SP, explica que, em geral, pessoas que presenciam eventos violentos, como guerras, assassinatos, tragédias naturais ou outras situações que envolvem morte, grave ferimento ou ameaça da integridade própria ou de outros, podem desenvolver transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) ou transtorno de estresse agudo (TEA). Grosso modo, os dois distúrbios causam medo excessivo, sensação de impotência, revivência aflitiva da situação, pesadelos, insônia e dificuldade de concentração. E o mal é progressivo. "Um dado interessante que observamos é que as pessoas que viveram diversas situações traumáticas ficam cada vez mais suscetíveis de desenvolver os sintomas. Assim, penso que os jornalistas que viveram eventos violentos e mostram algum tipo de sofrimento deveriam ser encaminhados para um trabalho psicoterápico individual ou grupal, de preferência com um profissional que tenha experiência com esta problemática", afirma a professora. O estudo de Feinstein indica que cerca de 12% dos repórteres sofrem de transtorno pós-traumático.
Antônio Marcos Pimenta Neves, ex-diretor de redação de O Estado de S. Paulo e assassino confesso da namorada e também jornalista Sandra Gomide, alegou, em sua defesa, sofrer do transtorno apontado pela professora, o que o teria levado a cometer o crime. O argumento foi corroborado pelo médico psiquiatra Marcos Pacheco de Toledo Ferraz, professor da Unesp, que o examinou dois dias após o homicídio. No site oficial de Pimenta Neves, o depoimento de Roberto Appy, editorialista sênior do mesmo jornal, dá conta do mesmo sintoma: "Em meados de 2000, eu e alguns colegas notamos mudanças acentuadas no comportamento de Pimenta Neves. Ele vinha trabalhando num ritmo crescente e exaustivo. Mostrava graves sinais de estresse e preocupava-se com a doença das filhas (que haviam sido diagnosticadas com câncer), queixava-se da perda de visão e falava em deixar o jornal, contra o que todos reagimos. Ruy Mesquita, diretor responsável do Estado, disse depois ao grupo de editorialistas subordinados diretamente a ele que havia recusado o pedido de demissão de Pimenta Neves e lhe havia indicado um psiquiatra conhecido".
Formalmente, é quase inexistente a assistência dada aos profissionais. Não há serviço específico para os jornalistas que fazem cobertura de risco, embora algumas empresas decidam pelo apoio quando ele for realmente necessário. "Nesta questão de segurança, a TV Globo sempre deixou claro que a minha segurança, da minha equipe e das nossas famílias eram as maiores prioridades. A ordem que recebi era de que deveríamos fazer a melhor cobertura possível sem correr riscos. Isso me deu a tranquilidade necessária para trabalhar", observa Roberto Kovalik, atualmente correspondente da emissora no Japão. O repórter diz que nunca teve nenhum tipo de trauma. Seu único medo é o de não conseguir transmitir a notícia em meio a situações atribuladas, tal como os terremotos e tsunamis no país. "Depois que vai ao ar, todo o stress passa", explica.
José Hamilton Ribeiro conta que a Editora Abril se responsabilizou pelo contato com o Exército norte-americano e foi obrigada a arcar com um seguro de vida, por exigência militar. Após o acidente, a editora bancou as despesas do hospital que o atendeu, nos EUA. "Eu acho que o ideal para o repórter que for cobrir uma guerra é ter um curso antes de algumas aulas de situações que ele vai encontrar por lá, bem como algumas simulações e modelos de situações para ele poder se virar, o seguro deve ser inevitável", opina.
SOB AMEAÇA
Não são apenas as coberturas de guerra que são capazes de causar prejuízos à saúde emocional do jornalista. Fabiano Maisonnave - que também foi correspondente de guerra e atualmente é correspondente da fixo da Folha de S.Paulo em Pequim - relata que um dos episódios mais assustadores de sua carreira aconteceu durante uma reportagem local, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Entre 2002 e 2003, o repórter apurava fraudes relacionadas ao governo estadual. Foi o alto risco de sofrer algum tipo de violência que precipitou sua saída da cidade. "O ambiente se tornou muito hostil: cheguei a ser agredido verbalmente e a tapas num comício do PT [partido do governo] e dava uma volta no quarteirão antes de abrir o portão da casa, por medo de alguma emboscada. Até uma cunhada deixou de frequentar minha casa, com medo de estar na hora errada e no lugar errado!", conta.
Na época, sua esposa tinha um cargo comissionado no governo estadual e acabou sendo demitida. Além disso, policiais fizeram uma "visita" à casa de seus pais, em busca do jornalista.
PHD EM TRAUMAS JORNALÍSTICOS
O Dart Center for Journalism and Trauma é um projeto da Escola de Jornalismo da Universidade de Columbia, situada nos EUA, cujo objetivo é reunir informações sobre as situações de conflito, violência e tragédias vividas por um jornalista no exercício da profissão. O embrião do instituto surgiu em 1994, quando a Dart Foundation decidiu dar suporte a um projeto da Universidade de Michigan, que abordava a problemática da violência em coberturas jornalísticas. A atuação nesse meio foi crescendo ao apoiar massivamente programas do gênero. Entre outras questões, a fundação deu assistência ao projeto do professor Roger Simpson, que previa a criação da disciplina de ética para cobertura de abuso sexual, violência doméstica e eventos traumáticos, na Universidade de Washington. O instituto foi oficialmente criado em 1999, por meio de uma parceria entre Simpson e a Dart Foundation.
Desde então, o instituto investe em uma série de estudos, programas de treinamento e parcerias, com intuito de aproximar jornalistas, profissionais da área de saúde, pesquisadores e professores de jornalismo, oferecendo assistência aos profissionais que passam por situações traumáticas e chamando a atenção dos grandes órgãos de imprensa sobre os impactos desse tipo de cobertura para os profissionais envolvidos e para o público. Hoje, o instituto tem unidades e parcerias na Austrália, na Rússia, no Reino Unido, na Bélgica, na Alemanha, na Colômbia, no Canadá e na Indonésia.
No mês passado, por ocasião do aniversário de dez anos dos atentados de 11 de setembro, o Dart Center produziu uma série de artigos sobre os efeitos emocionais que a data - e a exploração dela pela mídia - poderia causar nos jornalistas que vivenciaram a tragédia há dez anos. O instituto conta com o apoio de profissionais das áreas de psicologia e psiquiatria, e possui cartilhas sobre como fazer coberturas delicadas, tais como guerras, catástrofes naturais e episódios envolvendo crianças. O endereço do site é http://dartcenter.org.
Maisonnave já fez diversas coberturas em ambiente instável, como na guerrilha colombiana ou na guerra civil haitiana, mas considera o episódio vivido em Campo Grande como o mais traumático até hoje. No Haiti, ele se lembra de que alguns colegas de trabalho chegaram a pegar infecções. "Na maioria das vezes, não há tempo para se preparar, mas o fundamental é ter o máximo de informação sobre o local", diz.
Outro caso emblemático acontecido no Brasil teve como vítima a jornalista Nadja Haddad, da Band. Em agosto de 2005, a repórter foi baleada durante um tiroteio entre policiais e traficantes no Morro Dona Marta, em Botafogo, no Rio de Janeiro. Atingida no tórax, sentada no carro de reportagem da emissora, ela foi operada. "Não há como o psicológico não ficar comprometido. Nesse momento, contei muito com o apoio da minha família, da minha fé e, sim, recorri a terapias", conta. As seções com a psicóloga, afirma, começaram já no hospital.
Para ela, todo repórter de campo deveria receber algum treinamento para aprende a lidar com situações extremas, bem como acessórios que pudessem garantir alguma segurança. "O custo de um carro blindado é muito alto, mas não chega perto à vida de um ser humano. Contar com o bom senso de cada um é um risco muito alto. Contudo, há casos e casos. No meu, eu nem sequer estava dentro da favela, estava ainda sentada dentro do carro. Ou seja, não houve qualquer tipo de abuso da minha parte", completa.
De acordo com dados da ONG Repórteres sem Fronteiras, desde o início da guerra no Iraque, por exemplo, em 2003, mais de 230 jornalistas já morreram. No período da guerra do Vietnã, entre 1955 e 1975, 63 profissionais de imprensa perderam a vida. Além das baixas, existe a possibilidade de outro tipo de perda entre aqueles que vivenciam situações-limite: a perda de noites de sono, da preciosa tranquilidade individual. Jornalistas são os grandes mediadores da sociedade e, certamente, estão e precisam estar diante dos fatos. Entretanto, é preciso saber reconhecer as próprias vulnerabilidades, lidar com os fatos e, quando necessário, pisar no freio. É nesse ponto que toda assistência será sempre bem-vinda.
Matéria publicada na edição de outubro (272) da Revista IMPRENSA






