Tragédia recorrente

Tragédia recorrente

Atualizado em 15/10/2007 às 12:10, por Maira Escovar.

Na última semana, mais uma tragédia em Cleveland, Ohio, me fez refletir sobre a sociedade norte-americana e a recorrência de fatos como este, afinal, desde o atentado em Columbine, infelizmente podemos dizer que essa notícia é rotineiras nos Estados Unidos.

E o mais impressionante é que quando comento com alguns amigos americanos sobre esse fato eles sequer se assustam. Dizem apenas que são mais algumas crianças loucas dos Estados Unidos, como se a notícia fosse apenas sobre um garoto que levou uma suspensão na escola. Por que os americanos chegaram a esse ponto? Fico me questionando se isso é resultado dos problemas de socialização da competitiva sociedade norte-americana ou da influência da mídia sobre as crianças, ou ainda consequência da facilidade para se obter armas por aqui.

Não podemos desconsiderar que tiroteios em escolas, parques, shopping centers e outros lugares públicos também acontecem em outros países, até mesmo no Brasil. Todos lembram do universitário, em São Paulo, no Shopping Morumbi, que atirou contra a platéia de uma sala de cinema ferindo dezenas de pessoas e assassinando três, em 1999.

Porém, nos Estados Unidos, a frequência de casos deste é muito maior e a preferência pelo ambiente escolar para os ataques me chama a atenção. Talvez isso se deva ao fato de que na maioria dos estados americanos o porte de armas nas escolas é probido (apesar dos sensores de armas raramente serem utilizados, como no caso recente de Cleveland) e, portanto, não se prevê nenhuma reação. Além disso, a maioria dos tiroteios em escolas acontece em comunidades pequenas e isoladas, onde um garoto com dificuldades para fazer amigos é definido como diferente e marginalizado, o que explicaria seu desejo de vingança. E não há local mais fácil de se atingir uma comunidade inteira numa cidade pequena do que um atentado numa escola pois reúne representantes e conhecidos de todas as famílias da região, não é mesmo?

Todos os jornais norte-americanos criticam a facilidade de se obter uma arma de fogo no país e pedem controles mais rigorosos. Mas o direito à propriedade e ao porte de armas de fogo está inscrito na segunda emenda à Constituição dos Estados Unidos e, em muitos dos casos, os próprios pais adquirem as armas para seus filhos.

Também a apologia a violência em games, músicas e filmes são fatores sempre levantados por estudiosos da área para justificar tais tragédias. Entretanto, recentemente o jornal The New York Times examinou uma centena de casos de matadores em escolas concluindo que apenas seis tinham claro interesse em videogames violentos e outros sete em filmes violentos. É claro que não podemos eximir a mídia de seu importante papel na divulgação de exemplos, mas acredito que ela não é a única responsável.

E se não bastasse a tragédia de Cleveland, no mesmo dia, na Filadélfia, um menino de 14 anos armado com um rifle e granadas caseiras foi preso após confessar que também planejava um ataque na sua escola. No quarto do garoto foi encontrado nada menos do que um rifle 9 milímetros com mira a laser, 30 projéteis e quatro granadas de mão, uma já pronta e outras três em fase de montagem. Dá para imaginar a tragédia que estava sendo planejada?

Mas, como sabemos, a notícia que chama a atenção de leitores, ouvintes e telespectadores, seja no Brasil ou nos Estados Unidos, é aquela que mostra alguma novidade, relatos de acontecimentos que saem da rotina e que têm o poder de causar alguma repercussão e mudanças na sociedade. E, infelizmente, assim como os tiroteios no Rio de Janeiro e os escândalos políticos de Brasília, o que notei nesta última semana nos jornais norte-americanos foi que, apesar de trágico, o ataque na escola de Ohio não trouxe nenhuma novidade para os leitores daqui.