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Colunista da Folha de S.Paulo há mais de meio século, Dr. Júlio Abramczyk coleciona prêmios jornalísticos e furos de reportagem

Atualizado em 03/07/2013 às 14:07, por Danubia Paraizo.

Em tempos em que as notícias sobre demissões de jornalistas são cada vez mais recorrentes no Brasil, o médico cardiologista Júlio Abramczyk ocupa uma posição almejada por muitos. Ao longo de seus 53 anos como colunista do jornal Folha de S.Paulo, tem testemunhado coberturas históricas, sendo responsável, inclusive, por muitas delas. “Todo mundo tem a impressão de que eu primeiro me formei em medicina e depois fui para o jornalismo, mas foi o contrário. Comecei a trabalhar em um jornal que foi uma verdadeira escola. Tinha 17 anos e não havia nem completado o colegial.”
Crédito:Danúbia Paraizo O período de quase um ano em que Abramczyk atuou como revisor e na cobertura de férias dos colegas no jornal O Tempo, em São Paulo, serviu como alicerce para sua formação como repórter. Com o ingresso do jovem na Escola Paulista de Medicina, hoje integrada à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), os planos no jornalismo precisaram ser interrompidos, mas não por muito tempo. Ainda no primeiro ano da faculdade, ficou sabendo de uma vaga em aberto do então jornal Folha da Manhã, na seção Biologia & Medicina, e não pensou duas vezes.
De lá para cá, o cardiologista precisou aprender a dividir seu tempo entre suas duas maiores paixões e tem cumprido com maestria a missão. Diz não ter problemas éticos em exercer as duas profissões. Muito pelo contrário. É um grande defensor da especialização dos jornalistas que atuam na editoria científica. “A linguagem do jornalista é uma, e do cientista é outra. Durante muito tempo o cientista fez questão de que o jornalista escrevesse exatamente o que ele dissesse. Quando eu fazia minhas entrevistas, os cientistas ficavam mais tranquilos, porque o linguajar deles era acessível a mim, não escreveria besteira. Já aconteceu de gente colocar tiroide na cabeça. Parece até brincadeira.”
Seu interesse em aproximar a academia do jornalismo foi tanto que levou o médico a fundar a Sociedade Brasileira de Jornalismo Científico e a publicar mais de dois mil artigos e reportagens ao longo da carreira. Ao mesmo tempo, foi durante muitos anos diretor do departamento de cardiologia do hospital Santa Catarina e manteve seu consultório particular.
Utilidade pública Quando começou na Folha da Manhã, sua coluna era voltada apenas para médicos em busca de atualização profissional por meio da agenda de congressos por ele divulgada. Mesmo assim, também atraía leitores comuns, que acompanhavam o noticiário para saber quais médicos eram referência em suas especialidades. “Se o profissional fosse dar uma palestra sobre diabetes em um congresso, os leitores sabiam que aquele seria um bom médico para uma consulta”, lembra.

Crédito:Danúbia Paraizo Devido à facilidade com temas relacionados à saúde, o médico passou a escrever também reportagens, recebendo, inclusive, o aclamado Prêmio Esso em 1970. A matéria de fôlego falava sobre a realização da primeira cirurgia de ponte de safena durante o infarto agudo do miocárdio do Brasil. “Foi puro descuido”, lembra o médico. “Euryclides de Jesus Zerbini foi o primeiro cardiologista a fazer transplante de coração no Brasil. Ele e seu assistente resolveram fazer a cirurgia na vigência do infarto. Escrevi duas páginas de jornal sobre as implicações de tudo isso.”
Contemporâneo de grandes nomes do jornalismo, como Murilo Felisberto, um dos idealizadores do Jornal da Tarde, Abramczyk coleciona histórias do período em que trabalhou com o colega, que chama de gênio. Foi “Murilinho” que sugeriu que a coluna de saúde passasse a chamar “Medicina é o tema”, antes de finalmente chegar ao nome de hoje, “Plantão Médico”. Atualmente, a seção é publicada aos domingos, no caderno “Cotidiano”.
Foi de doutor Júlio também uma matéria polêmica sobre o quadro de saúde do recém-eleito presidente da República Tancredo Neves. Durante o período em que o político esteve internado em decorrência de um câncer, o médico publicava em sua coluna informações exclusivas sobre o estado de saúde do governante. Essas e outras matérias foram compiladas recentemente no livro “Médico e Repórter. Meio século de jornalismo científico”, lançado pela editora Publifolha e organizado pelo jornalista Carlos Eduardo Lins da Silva.
“Sempre procurei publicar informações que fossem do interesse do leitor. Aliado a isso, busco acrescentar um pouco de história, algo curioso.” Hoje, aos 80 anos, doutor Júlio esbanja saúde e não pretende parar tão cedo. Amante confesso da leitura, o médico mantém a média de 20 revistas por semana, que servem como material de apoio para suas colunas. Mas nem só de jornalismo e medicina vive o personagem. Boêmio convicto, em seus momentos de lazer gosta de viajar. Já foi para Dubai, Barbados, Bermudas, entre outros países na Europa. Viúvo, casou-se tarde e não tem filhos, mas nem por isso deixa de aproveitar a vida. “As pessoas pensam que eu estou velhinho, mas eu aproveito bastante.”