Trabalho de conclusão de curso: Rito de passagem I

Trabalho de conclusão de curso: Rito de passagem I

Atualizado em 15/10/2004 às 13:10, por Fabiola Tarapanoff.

Para os estudantes de jornalismo, o trabalho de conclusão de curso pode ser estressante, trabalhoso, mas todos vêem um ponto em comum: ele é um desafio e passaporte para o mercado de trabalho

Ao escolher o tema para seu trabalho de conclusão de curso para a Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA), o estudante Francisco Ângelo Nuta da Silva, 25 anos, não teve dúvidas: resolveu falar sobre ônibus. Apaixonado pelo veículo, ele está fazendo um livro-reportagem sobre sua própria história de vida, sobre a história de São Paulo por meio do ônibus e de pessoas como ele, busólogos, ou seja, aficionados por esse meio de transporte. "É inexplicável, quero conhecer tudo. Foi por meio dos ônibus que conheci a cidade a partir dos 10 anos, pegando cada uma das 24 linhas da Bristol (sua preferida) e indo até o ponto final", conta. "Para o busólogo, a menor distância entre dois pontos nem sempre é uma linha reta", diverte-se. Para realizar o trabalho, Francisco foi na 3ª edição do Bus Brasil Fest, pesquisou sites como Bus Hobby, Urbanos SP, foi ao Museu do Ônibus, próximo ao metrô Armênia e em uma biblioteca especializada em transporte coletivo, além de fazer entrevistas com várias pessoas. Tudo sob a orientação da professora Cremilda Medina. Um dos entrevistados, brigava com a esposa que não entendia o hobby (miniaturas de ônibus) e perguntou: os ônibus ou eu. Ele pediu separação. Para Francisco, o trabalho de conclusão de curso deve mesclar tudo o que se aprendeu no curso, incluindo disciplinas como radiojornalismo e telejornalismo. Ele acrescenta que o curso da ECA valeu a pena, devido à possibilidade de se fazer disciplinas optativas não só no departamento de jornalismo, mas em outros departamentos como História, Filosofia e Letras. "Mas o curso deixa um pouco a desejar. Há bastante arcabouço teórico, mas aprendemos muito mais na prática", conta Francisco, que fez estágio no Portal da USP. "Não sei se o TCC prepara para o mercado de trabalho, mas vai ser um rito de passagem", analisa.

Para a professora da ECA e orientadora, Nancy Nuyen Ali Ramadan, o papel do orientador é facilitar esse processo, oferecendo o material necessário e um bom embasamento teórico. O aluno tem um ano para desenvolver o trabalho, sendo seis meses dedicados exclusivamente ao TCC. Ele pode escolher entre fazer um livro-reportagem, grande-reportagem, monografia, projeto em rádio ou vídeo. O trabalho deve ser entregue em junho e apresentado em julho (aqueles que acabam no meio do curso) e em novembro com apresentações em dezembro e janeiro. Quanto ao TCC ela acredita que o importante é fechar um ciclo, esbanjando criatividade,iniciativa, oferecendo fruto de reflexão. "Vejo como um rito acadêmico, o aluno escolhe um tema em que seja apaixonado e possa refletir as questões da nossa área", explica. Para Nancy, o curso da ECA se diferencia pela preocupação com o pensamento humanístico e consciência para com as necessidades do cidadão e não do consumidor.

O aluno do último ano de jornalismo da Pontifícia Universidade Católica (PUC), Thiago Benicchio, 25 anos, escolheu, assim como Francisco o tema transporte urbano. Com o título "Automóveis e suas implicações no transporte urbano", Thiago buscou mostrar os problemas da falta de transporte coletivo em formato de documentário. Para realizar a tarefa, ele conversou com especialistas da Associação Nacional de Transporte Público (ANTP), da CET. O TCC significa para ele uma forma de usar o que aprendeu. "Mas vejo também como uma oportunidade para minha vida", anima-se . Quanto ao curso da PUC, ele acredita que aproveitou bastante, principalmente por ter se envolvido ativamente em atividades do Centro Acadêmico como Semana de Jornalismo e festival de bandas.

De acordo com o professor da PUC e orientador dos Projetos Experimentais em Vídeo, Júlio Wainer, o TCC é um processo, que vai 'coroar' a vivência aprofundada com o jornalismo que o aluno teve na faculdade.Ele explica que a pretensão não é que o aluno coloque em prática o que aprendeu, mas sim se defronte com desafios. No caso de sua disciplina, muitos aspectos devem ser considerados como luz, sombra, estrutura, pois se um vídeo é feito tremido ou com som baixo, não é possível fazer uma correção. Entre trabalhos que ele orienta ou orientou destaca uma aluna que está fazendo um trabalho sobre Chico Buarque e entrevistou ninguém menos do que ele e Milton Nascimento e de um aluno que foi na Inglaterra e fez sobre um navio alemão que estava no oceano durante a guerra, com nível de Discovery Channel. Apesar do stress que alguns alunos sofrem, Wainer diz que muitos alunos consideram a realização do trabalho como uma das melhores aulas de sua vida. "Não é um vídeo sobre menores abandonados que vai transformar a sociedade, mas é um bom vídeo, feito com raça e coração que terá um impacto social grande", diz. O curso da PUC para Wainer apresenta forte preocupação social e com linguagem (semiótica), que estão no DNA da faculdade.