"Todo presidente com credenciais democráticas deve facilitar o acesso da população à informação", afirma Maurício Funes
"Todo presidente com credenciais democráticas deve facilitar o acesso da população à informação", afirma Maurício Funes
No dia 11 de novembro de 2007, mais de 80 mil pessoas lotavam o Estádio de Cuscatlán, em El Salvador. No entanto, não havia nenhum grande time de futebol preparado para entrar em campo. O que a multidão esperava era o lançamento da campanha do jornalista Maurício Funes, candidato à presidência da república do país pela Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN), ex-movimento guerrilheiro que disputa o poder com o principal partido de direita do país: a ARENA, no governo há mais de 19 anos.
| Divulgação |
| Lançamento da candidatura de Funes em El Salvador |
Nascido em San Salvador, capital do país, Funes é jornalista desde 1986. Sua carreira é direcionada ao jornalismo crítico, exercido principalmente em seus programas televisivos como o "Sin Censura", que foi ao ar entre 1997 e 2003, e em seu mais atual "La Entrevista", do qual se despediu em setembro de 2007 para sair candidato à presidência de El Salvador.
Em pesquisa do jornal salvadorenho El Diario de Hoy , em 2005, o programa de Funes era citado por 84% dos entrevistados como o mais confiável e por 49% como o preferido. Com toda essa popularidade, a imprensa nacional já o apontava como possível candidato em abril de 2007, o que só foi oficializado em setembro do mesmo ano.
Em entrevista exclusiva ao Portal IMPRENSA, Maurício Funes fala do começo de sua carreira, passando por suas grandes entrevistas e pelo primeiro contato com a FMLN, e explica porque deixou o jornalismo para se lançar candidado à presidência da república, sendo o favorito em todas as pesquisas de opinião.
Portal IMPRENSA - Você começou sua carreira de jornalista em 1986. Por que o interesse com o jornalismo e quais foram seus primeiros trabalhos?
Maurício Funes - Sempre tive uma vocação para o estudo e o conhecimento da realidade econômica e política do país. O jornalismo me permitia desenvolver essa possibilidade e contribuir para a criação de uma consciência cidadã cada vez mais crítica e reflexiva. Por isso optei por um jornalismo situado na realidade salvadorenha: um jornalismo investigativo, de denúncia permanente das arbitrariedades cometidas pelos poderes estabelecidos, fiscalizador e contrário ao governante no poder. Meus primeiros trabalhos tiveram a ver com a cobertura da guerra civil e com o processo de negociação para firmar a paz em El Salvador durante esses anos (entre 1979 a 1992 El Salvador por uma guerra que deixou 75 mil mortos). Fui o primeiro jornalista salvadorenho que rompeu barreiras e entrevistou ex-comandantes guerrilheiros. Fui o primeiro a estimular um debate entre a esquerda e a direita.
IMPRENSA - Qual é o papel do jornalismo crítico em um país como El Salvador?
Funes - A denúncia das injustiças e a revelação da realidade que se esconde atrás das aparências é uma responsabilidade não só do jornalismo crítico, mas sim do jornalismo em geral. A verdade é que em uma sociedade como a salvadorenha, caracterizada pela desigualdade social e pela exclusão, não pode haver outra atitude eticamente responsável se não a da denuncia e a da criação de espaços de debates.
| Lotação do estádio no lançamento da candidatura |
IMPRENSA - Em sua opinião, qual foi o efeito do programa "La Entrevista" para o governo da ARENA e também para o povo de El Salvador?
Funes - Um governo como o da ARENA (partido do atual presidente de El Salvador, Antonio Saca), autoritário e excludente, não podia tolerar um trabalho jornalístico, fiscalizador do exercício do poder, sobretudo do poder político. Em quase 19 anos de ARENA, é mantida uma atitude de exclusão e de perseguição, por parte do governo e da direita empresarial vinculada à ARENA. Sem embargo, esta relação de enfrentamento tem me permitido ganhar importantes espaços de confiança e credibilidade por parte da população. Em todas as pesquisas de opinião, meu programa sempre foi considerado como o mais visto e mais confiável da televisão salvadorenha. E não é por acaso que onde meu programa de entrevistas tinha mais audiência, é precisamente onde o voto a favor da oposição cresceu consideravelmente.
IMPRENSA - Você acompanhou a guerrilha em El Salvador como repórter? Como foi essa experiência? Foi nela que você teve o primeiro contato com a FMLN?
Funes - Como repórter, cobri a guerra especialmente no norte do país. Além disso, viajei para o México e para a Costa Rica para entrevistar os cinco ex-comandantes da FMLN que integravam o comando geral e que tiveram um papel fundamental nos Acordos de Paz de janeiro de 1992.
IMPRENSA - Das entrevistas que você já fez ao longo de sua carreira, com Hugo Chávez, Fidel Castro, entre outros, qual foi a mais marcante? Por quê?
Funes - Uma das mais influentes no meu exercício profissional foi a entrevista com o presidente de Cuba, Fidel Castro. Primeiro porque foi a primeira entrevista televisiva que um jornalista da América Central realizada com o presidente de Cuba. Segundo, porque rompi o mito de que em uma entrevista para a TV, o presidente Castro fala muito e deixa pouco espaço para as perguntas. Em cinco horas de entrevista, pude formular mais de 30 perguntas sobre temas de interesse nacional e internacional. Além disso, a entrevista teve muito espaço em El Salvador. Até agora, segue sendo a entrevista que mais gerou audiência no país em "horário nobre". Seu conteúdo incomodou a direita política e o governo do ex-presidente Francisco Flores, da ARENA (anterior ao atual presidente Antonio Saca), já que vários funcionários de seu governo foram mencionados por Castro como integrantes de um complô para assassiná-lo.
IMPRENSA - Como funciona a imprensa de El Salvador nas coberturas em geral?
Funes - Com muita inclinação em favor do governo e dos setores ligados à direita. A busca do equilíbrio informativo não faz parte da agenda e do estilo de trabalho dos grandes meios de comunicação do país. Como muitos outros meios da região, sua linha editorial está fortemente influenciada pelos interesses econômicos e políticos de seus anunciantes. E no caso da televisão e do rádio, o principal e mais importante anunciante é o próprio governo.
IMPRENSA - Por que decidiu deixar o jornalismo e seguir na carreira política, como anunciou em seu último programa em setembro 2007?
Funes - Porque me convenci que havia encerrado um ciclo de minha vida como jornalista e que havia de iniciar outro, como servidor público, partindo de um cargo de eleição popular. Meu trabalho jornalístico me levou a abraçar o projeto histórico da FMLN e a confiar em sua capacidade de transformar o país. El Salvador é um país que padece de sérias desigualdades sociais e de um déficit crônico de democracia e participação da sociedade. Estou convencido que, inicialmente como candidato, e presidente, uma vez eleito, posso contribuir, de forma mais eficaz, para promover as mudanças que o país necessita.
IMPRENSA - Por que decidiu responder em seu programa ao presidente Antonio Saca, que declarou que você deveria deixar de apresentar "La Entrevista"?
Funes - Quando o presidente Saca me pediu que deixasse "La Entrevista", eu não havia recebido nenhuma oferta da FMLN para integrar sua chapa presidencial. Considero que foi um excesso por parte do presidente pedir que eu deixasse meu programa, ainda mais vindo de um presidente cujo governo tem violado a Declaração sobre Liberdade de Expressão da OEA, que em seu artigo 12 estabelece que nenhum membro de Estado pode utilizar fundos públicos para castigar ou premiar um meio de comunicação em função de sua linha editorial. Durante anos, os diferentes governos da ARENA tentaram bloquear o desenvolvimento dos meios de comunicação onde trabalhei para forçar o fechamento do meu programa de televisão, ou minha saída dessas empresas. Não há dúvidas de que meu programa resultava em um incômodo para o governo e era a oportunidade de livrar-se dele. A emissora de TV em que eu tinha o programa foi pressionada pelo governo e por alguns empresários próximos ao presidente Saca para que fechassem o meu espaço de opinião e informação. Considerei que não podia ficar em silêncio frente a tanta arbitrariedade e tinha que denunciar as pressões que estava recebendo.
IMPRENSA - No que um jornalista pode se diferenciar dos demais como presidente da república?
Funes - Um jornalista tem conhecimento, em primeira mão, dos problemas do país, das necessidades da população, de suas aspirações e, sobretudo, das soluções que há de se construir. Na medida em que se tem exercido um jornalismo fiscalizador do exercício público, se conta com a solução necessária para orientar o trabalho do governo em benefício da sociedade e não de um pequeno grupo de poder. Além disso, nós, jornalistas que exercemos um jornalismo democrático e pluralista, acreditamos na participação popular e no potencial da sociedade civil para influenciar na formulação das políticas públicas.
IMPRENSA - Qual é a sua opinião sobre o relacionamento da presidência do Brasil com a imprensa?Você acha importante dar entrevistas coletivas e estar sempre em contato com a imprensa do país?
Funes - Todo presidente com credenciais democráticas deve facilitar o acesso da população à informação, que é de natureza pública. Na medida em que um presidente estimula o contato com a imprensa, garante que a sociedade esteja devidamente informada sobre as decisões que adota como governante.






