"Tive medo de cair no esquecimento", diz José Hamilton Ribeiro / Por Cleber Mata - PUC (Campinas/SP)
"Tive medo de cair no esquecimento", diz José Hamilton Ribeiro / Por Cleber Mata - PUC (Campinas/SP)
Atualizado em 20/07/2005 às 11:07, por
Cleber Mata e estudante de jornalismo da PUC (Campinas-SP).
Por O paulista de Santa Rosa do Viterbo José Hamilton Ribeiro, 67, chegou a pensar que iria cair no esquecimento após ter pisado numa mina terrestre, em março de 1968, no Vietnã. Ele cobria a guerra ao norte do país asiático para a revista Realidade quando foi surpreendido pela explosão. Minutos depois, enquanto a nuvem negra de fumaça ainda se dissipava, Zé Hamilton, como é comumente chamado, notou que parte de sua perna esquerda havia sido arrancada, tamanho o impacto provocado pelo artefato. A tontura seguida pela queda foi o prenúncio de que algo planejado havia dado errado naquela manhã do acidente.
"Caí e acordei no hospital. Pensei por dez dias que iria morrer. A imprensa deu muito destaque e eu fiquei famoso por uma semana. Passei a temer que a minha carreira profissional tivesse acabado ali. Vivi esta angústia por um bom tempo e tive medo de cair no esquecimento", lembra Zé Hamilton que, desde então, acumula sete prêmios Esso de Jornalismo e recentemente foi eleito pela revista Ícaro como o "rosto do jornalismo brasileiro".
Mesmo em plena recuperação num hospital em Washington, nos Estados Unidos, Zé Hamilton recorda que continuou na ativa. "Quando eu estava fazendo o tratamento, me pediram para que eu acompanhasse todo o escândalo envolvendo o assassinato do Kennedy. Me desdobrei muito na época e isso acabou se tornando um incentivo para que eu não desanimasse", frisa Zé Hamilton.
Meses depois, o jornalista, que há 20 anos trabalha na equipe do Globo Rural editando e produzindo reportagens especiais, disse que traçou um desafio para si mesmo. "Eu tinha que provar para o José Hamilton que eu não era simplesmente um repórter vítima da Guerra e sim um repórter de geral capaz de produzir algo diferente. Eu sempre tive na minha mente que aquilo tudo tinha que ser um episódio a mais na minha vida. Durante cinco anos me dediquei muito para tornar tudo isso realidade. A guerra não foi a única ocorrência da minha vida", aponta o jornalista.
Jornalismo
A fórmula para se manter em evidência 30 anos depois da Guerra do Vietnã, Zé Hamilton propõe sem desembaraços. "Olha, eu acho que o jornalismo necessita de duas condições básicas. A vocação e o trabalho. Não existe nenhuma peça jornalística em nenhum lugar do mundo que não conte com trabalho e talento. Uma não vive sem a outra. Os grandes jornalistas brasileiros carregam estas vertentes ", destaca o jornalista.
Questionado sobre a sua aptidão com a profissão, Zé Hamilton é econômico nos adjetivos. "Eu, particularmente, me dedico muito para conseguir um resultado de qualidade. Na parte do trabalho eu posso afirmar que, sim, realmente eu trabalho muito, mas, se tenho talento, sinceramente não sei dizer", esquiva-se.
A Pauta
O jornalista conta que chegou na redação da revista Realidade e foi chamado para uma conversa com o diretor geral da publicação, Cláudio Patarra. Segundo Zé Hamilton, havia um consenso na redação de que a Realidade deveria enviar um repórter para cobrir o conflito entre americanos e comunistas no Vietnã.
"A Realidade na época era a maior revista do Brasil. Ficou decidido que tínhamos que ter um olhar brasileiro sobre a guerra. Era um fato impossível de ser ignorado e o escolhido foi eu, que tinha na época 37 anos. Estava com uma carreira em ascensão e achei a indicação uma grande possibilidade de crescimento profissional. No fundo, todo grande repórter sonha em cobrir uma guerra" , observa. "A guerra na verdade pode ser definida como um conflito e o conflito é a definição da notícia. O jornalismo, por sua vez, sempre envolve o conflito que é uma pauta ao extremo", completa Zé Hamilton, que planejou ficar 20 dias de cada lado.
O jornalista lembra que permaneceu na capital do país, Saigon, por 20 dias, tratando do credenciamento da equipe, antes de entrar no fogo cruzado. "Escolhi primeiro o lado americano. Fiquei lá 20 dias. Na hora de passar para o outro lado, a reportagem de certa maneira acabou se frustrando porque os comunistas só concediam visto para jornalistas puxa-sacos ou os jornalistas chapa branca. Encontrei muita dificuldade entre os comunistas. Daí, em função do acidente com a mina, tivemos que interromper a reportagem, afinal eu não tinha condição de continuar", lamentou Zé Hamilton, que acredita que a guerra do Vietnã foi a melhor cobertura já realizada pela imprensa mundial. "Temos tudo a respeito da guerra do Vietnã. Desde filmes, livros e grandes reportagens sobre o assunto. O acervo é impressionante", acrescenta.
Livro
O jornalista está relançando este mês, pela editora Objetiva, o livro denominado "O Gosto da Guerra", que conta toda sua trajetória ao lado do fotógrafo japonês Shimamoto na zona de combate. Alguns anos após a guerra do Vietnã, Zé Hamilton escreveu um livro sobre sua experiência, mas este não foi editado em função da falência da editora na ocasião.

"Caí e acordei no hospital. Pensei por dez dias que iria morrer. A imprensa deu muito destaque e eu fiquei famoso por uma semana. Passei a temer que a minha carreira profissional tivesse acabado ali. Vivi esta angústia por um bom tempo e tive medo de cair no esquecimento", lembra Zé Hamilton que, desde então, acumula sete prêmios Esso de Jornalismo e recentemente foi eleito pela revista Ícaro como o "rosto do jornalismo brasileiro".
Mesmo em plena recuperação num hospital em Washington, nos Estados Unidos, Zé Hamilton recorda que continuou na ativa. "Quando eu estava fazendo o tratamento, me pediram para que eu acompanhasse todo o escândalo envolvendo o assassinato do Kennedy. Me desdobrei muito na época e isso acabou se tornando um incentivo para que eu não desanimasse", frisa Zé Hamilton.
Meses depois, o jornalista, que há 20 anos trabalha na equipe do Globo Rural editando e produzindo reportagens especiais, disse que traçou um desafio para si mesmo. "Eu tinha que provar para o José Hamilton que eu não era simplesmente um repórter vítima da Guerra e sim um repórter de geral capaz de produzir algo diferente. Eu sempre tive na minha mente que aquilo tudo tinha que ser um episódio a mais na minha vida. Durante cinco anos me dediquei muito para tornar tudo isso realidade. A guerra não foi a única ocorrência da minha vida", aponta o jornalista.
Jornalismo
A fórmula para se manter em evidência 30 anos depois da Guerra do Vietnã, Zé Hamilton propõe sem desembaraços. "Olha, eu acho que o jornalismo necessita de duas condições básicas. A vocação e o trabalho. Não existe nenhuma peça jornalística em nenhum lugar do mundo que não conte com trabalho e talento. Uma não vive sem a outra. Os grandes jornalistas brasileiros carregam estas vertentes ", destaca o jornalista.
Questionado sobre a sua aptidão com a profissão, Zé Hamilton é econômico nos adjetivos. "Eu, particularmente, me dedico muito para conseguir um resultado de qualidade. Na parte do trabalho eu posso afirmar que, sim, realmente eu trabalho muito, mas, se tenho talento, sinceramente não sei dizer", esquiva-se.
A Pauta
O jornalista conta que chegou na redação da revista Realidade e foi chamado para uma conversa com o diretor geral da publicação, Cláudio Patarra. Segundo Zé Hamilton, havia um consenso na redação de que a Realidade deveria enviar um repórter para cobrir o conflito entre americanos e comunistas no Vietnã.
"A Realidade na época era a maior revista do Brasil. Ficou decidido que tínhamos que ter um olhar brasileiro sobre a guerra. Era um fato impossível de ser ignorado e o escolhido foi eu, que tinha na época 37 anos. Estava com uma carreira em ascensão e achei a indicação uma grande possibilidade de crescimento profissional. No fundo, todo grande repórter sonha em cobrir uma guerra" , observa. "A guerra na verdade pode ser definida como um conflito e o conflito é a definição da notícia. O jornalismo, por sua vez, sempre envolve o conflito que é uma pauta ao extremo", completa Zé Hamilton, que planejou ficar 20 dias de cada lado.
O jornalista lembra que permaneceu na capital do país, Saigon, por 20 dias, tratando do credenciamento da equipe, antes de entrar no fogo cruzado. "Escolhi primeiro o lado americano. Fiquei lá 20 dias. Na hora de passar para o outro lado, a reportagem de certa maneira acabou se frustrando porque os comunistas só concediam visto para jornalistas puxa-sacos ou os jornalistas chapa branca. Encontrei muita dificuldade entre os comunistas. Daí, em função do acidente com a mina, tivemos que interromper a reportagem, afinal eu não tinha condição de continuar", lamentou Zé Hamilton, que acredita que a guerra do Vietnã foi a melhor cobertura já realizada pela imprensa mundial. "Temos tudo a respeito da guerra do Vietnã. Desde filmes, livros e grandes reportagens sobre o assunto. O acervo é impressionante", acrescenta.
Livro
O jornalista está relançando este mês, pela editora Objetiva, o livro denominado "O Gosto da Guerra", que conta toda sua trajetória ao lado do fotógrafo japonês Shimamoto na zona de combate. Alguns anos após a guerra do Vietnã, Zé Hamilton escreveu um livro sobre sua experiência, mas este não foi editado em função da falência da editora na ocasião.






