Títulos maldosos significam falta de caráter

Títulos maldosos significam falta de caráter

Atualizado em 19/08/2010 às 15:08, por Lucia Faria.

Forçar a barra em títulos de matérias, como talvez eu tenha acabado de fazer acima, representam o pior do jornalismo. Ruim mesmo é quando esse artifício é utilizado para denegrir a imagem de outra pessoa, polemizar algo que o entrevistado não disse, deturpar ou usar uma argumentação alheia para defender uma tese do jornalista. Tenho ótimos exemplos bem recentes, inclusive em um deles eu mesma fui vítima. Só que no meu caso, consegui rir da situação. Imagino o que acontece com pessoas influentes quando têm de lidar com tanto constrangimento proveniente de um título sacana.
O primeiro fato que presenciei semana passada foi com o autor de novelas Silvio de Abreu. Ele participou do evento Encontros Estadão & Cultura, promovido pelo jornal O Estado de S. Paulo e pela Livraria Cultura, em São Paulo, em comemoração aos 60 anos da TV brasileira. Simpaticíssimo, atendeu vários jornalistas após o debate e, confesso, aquele dia me tornei sua fã. Na conversa com a plateia, ele ressaltou o empobrecimento educacional do povo brasileiro e o impacto que isso provoca no seu trabalho. No caso da novela Passione, por exemplo, foi preciso tirar o pé do acelerador para que as pessoas pudessem entender a trama, o que hoje em dia demora mais tempo em função da dificuldade do público em compreender algo mais complexo.
Um portal publicou a matéria com o seguinte título: "Silvio de Abreu diz que telespectador emburreceu". Um site replicou a matéria e apimentou ainda mais o que já era questionável: "Autor de Passione chama seu público de burro". Fiquei indignada. Ele não chamou o público de burro!!! Isso é muito pesado. E na matéria o jornalista não diz isso.
Em relação a mim, entrei de gaiata no navio, como diz aquela divertida canção, e fui parar no meio de uma briga fervorosa. Na terra do sincretismo religioso, me deparei com o fanatismo entre os seguidores de Ivete Sangalo e de Claudia Leitte. Escrevi neste mesmo espaço, semana passada, sobre a empreendedora Ivete, um modelo que gostaria de transportar para a minha vida profissional. Sem qualquer juízo de valor, em determinado momento escrevi: "Depois de assegurar seu lugar no segmento, [Ivete] enfrentou a chegada de um produto bastante similar. O que no começo parecia um genérico loiro, Claudia Leitte se firmou e dividiu a atenção da mídia e do público".
Para minha surpresa, um jornal da Bahia replicou parte do artigo no site com o seguinte título: "Jornalista diz que Claudia Leitte é 'genérico loiro´ de Ivete Sangalo". Começaram a pipocar comentários, um deles até bem ofensivo a mim. Era o começo apenas de uma longa saga...Outros sites e blogs debateram o assunto como se fosse algo muito profundo e, pior, verdadeiro de minha parte. O máximo foi quando me promoveram a "doutora da USP" para reforçar que a afirmação tinha sido feita com base em estudos científicos. Que estudo??? Que doutora? Nem mestre sou.
Claro que acompanhei tudo com atenção, pois essa devoção poderia, sim, virar tese para um estudo mais aprofundado. Descobrir porque as pessoas usam os outros de maneira tendenciosa para defender seu ponto de vista, porque deturpam o que leem (se por ignorância ou simplesmente má-fé), porque tanta guerra por causa de duas cantoras. Aliás, isso nem é bem novidade, pois nos anos 50 as cantoras do rádio enfrentavam fãs bastante bélicos também.
Mas, após tudo isso, queria comunicar aqui que mudei minha opinião. Foi anunciado que Acarajette Lovve (com dois T e dois V) é candidata à Presidência. Ela, sim, é o máximo! Acarejette não se preocupa com depilação, com peso, tem cabelinho ruim, mas se acha incrível. E para quem não sabe de quem estou falando, basta assistir ao Casseta & Planeta. Afinal, no fundo, tudo é uma grande piada.