Tiro ao fato, por Gabriel Priolli
Houve um tempo em que não havia uma distinção muito clara entre notícia, crônica e comentário, no jornalismo mundial e no brasileiro também.
Atualizado em 02/06/2014 às 12:06, por
Gabriel Priolli.
Crédito:Leo Garbin Para relatar um simples fato, o jornalista poderia fazer considerações sobre a Grécia antiga, o alinhamento planetário e o preço do açúcar, antes de chegar ao básico: o que teria acontecido no tal fato. Chamava-se esse “trololó” introdutório – e ainda se chama – de “nariz de cera”.
Em determinado ponto do século XIX, que para alguns autores teria sido o da Guerra de Secessão dos Estados Unidos (1861-1865), foi necessário introduzir certa objetividade na coisa. As notícias do front eram transmitidas às redações por uma técnica recente e ainda precária, o telégrafo, e tornou-se conveniente agrupar as informações essenciais na abertura da matéria, para que não houvesse maior prejuízo em caso de interrupção da transmissão.
A essa nova técnica de noticiar do mais importante ao secundário, o norte-americano Edwin L. Shuman deu o nome de “pirâmide invertida”, em seu livro “Practical Journalism”, de 1903. Ela rezava que o jornalista deveria responder, logo na abertura da matéria, algumas questões primárias: o que aconteceu, quando, onde, quem estava envolvido, como aconteceu e por quê.
Por que estou falando de algo que qualquer estudante de jornalismo já ouviu mil vezes? Para, quem sabe, que ele me leia e reflita. Porque, sejamos francos, está difícil encontrar notícia que informe o básico sobre os assuntos mais banais e menos controversos. Imagine, então, os assuntos complexos e polêmicos. Temos um verdadeiro festival de opiniões no atual noticiarismo, mas pouco, muito pouco apreço à mínima verdade factual.
Outro dia, por exemplo, li sobre o estouro de um pneu no pouso de um avião da TAM, em São José do Rio Preto-SP. Notícia no site de um emérito jornalão paulista. Ela dizia do incidente e que nenhum passageiro havia se ferido, felizmente. E nada mais. Pneu da frente ou de trás? O avião rodopiou, saiu da pista? O que levou ao estouro? O pneu estava gasto ou dentro da validade? Ficamos, os demais leitores e eu, na curiosidade pelos mais elementares detalhes.
Havia também, num passado não muito remoto, outra técnica jornalística que mandava separar informação de opinião. A primeira era notícia e a segunda, editorial, coluna ou comentário. Não deveriam se misturar, porque a notícia almejaria a máxima objetividade, ainda que utópica, o que seria impossível nos textos opinativos. Mas, essa técnica anda tão fora de moda quanto a “pirâmide invertida” e o rigor na apuração de informações.
Nós, os jornalistas que nos formamos segundo essas técnicas, andamos bastante perdidos nos caminhos da profissão. Valores que achávamos imortais vão tombando a toda hora, na infindável batalha de informar o público. E, ao contrário dos generais Custer ou Grant na guerra civil americana, nem sabemos de onde vêm os tiros.
foi editor executivo e diretor de redação de IMPRENSA entre 1987 e 1991. Hoje é produtor independente de TV.
gpriolli@ig.com.br.
Em determinado ponto do século XIX, que para alguns autores teria sido o da Guerra de Secessão dos Estados Unidos (1861-1865), foi necessário introduzir certa objetividade na coisa. As notícias do front eram transmitidas às redações por uma técnica recente e ainda precária, o telégrafo, e tornou-se conveniente agrupar as informações essenciais na abertura da matéria, para que não houvesse maior prejuízo em caso de interrupção da transmissão.
A essa nova técnica de noticiar do mais importante ao secundário, o norte-americano Edwin L. Shuman deu o nome de “pirâmide invertida”, em seu livro “Practical Journalism”, de 1903. Ela rezava que o jornalista deveria responder, logo na abertura da matéria, algumas questões primárias: o que aconteceu, quando, onde, quem estava envolvido, como aconteceu e por quê.
Por que estou falando de algo que qualquer estudante de jornalismo já ouviu mil vezes? Para, quem sabe, que ele me leia e reflita. Porque, sejamos francos, está difícil encontrar notícia que informe o básico sobre os assuntos mais banais e menos controversos. Imagine, então, os assuntos complexos e polêmicos. Temos um verdadeiro festival de opiniões no atual noticiarismo, mas pouco, muito pouco apreço à mínima verdade factual.
Outro dia, por exemplo, li sobre o estouro de um pneu no pouso de um avião da TAM, em São José do Rio Preto-SP. Notícia no site de um emérito jornalão paulista. Ela dizia do incidente e que nenhum passageiro havia se ferido, felizmente. E nada mais. Pneu da frente ou de trás? O avião rodopiou, saiu da pista? O que levou ao estouro? O pneu estava gasto ou dentro da validade? Ficamos, os demais leitores e eu, na curiosidade pelos mais elementares detalhes.
Havia também, num passado não muito remoto, outra técnica jornalística que mandava separar informação de opinião. A primeira era notícia e a segunda, editorial, coluna ou comentário. Não deveriam se misturar, porque a notícia almejaria a máxima objetividade, ainda que utópica, o que seria impossível nos textos opinativos. Mas, essa técnica anda tão fora de moda quanto a “pirâmide invertida” e o rigor na apuração de informações.
Nós, os jornalistas que nos formamos segundo essas técnicas, andamos bastante perdidos nos caminhos da profissão. Valores que achávamos imortais vão tombando a toda hora, na infindável batalha de informar o público. E, ao contrário dos generais Custer ou Grant na guerra civil americana, nem sabemos de onde vêm os tiros.
foi editor executivo e diretor de redação de IMPRENSA entre 1987 e 1991. Hoje é produtor independente de TV.
gpriolli@ig.com.br.





